Em Apocalipse 1:4 a carta começa de verdade: João escreve às sete igrejas da Ásia e deseja “graça e paz”. Essa graça e essa paz vêm “daquele que é, que era e que há de vir”, o Deus eterno que se apresentou a Moisés como “EU SOU”, e “dos sete Espíritos”, a plenitude do único Espírito Santo. No versículo 5 vem Jesus Cristo. Antes de qualquer visão, o livro mostra o Pai, o Espírito e o Filho dando a mesma bênção, numa época em que o imperador Domiciano gostava de ser chamado de “senhor e deus” (Suetônio, Vida de Domiciano 13.2).
Nos três primeiros versículos, vimos o que o Apocalipse é, quem garante que é verdade e quem recebe a bênção dele. Agora a carta finalmente começa. É como abrir um envelope: depois do selo e do endereço, chega a primeira frase de quem escreveu. E o peso de uma carta está em quem assina.
"João, às sete igrejas que se encontram na Ásia, graça e paz a vós outros, da parte daquele que é, que era e que há de vir, da parte dos sete Espíritos que se acham diante do seu trono" (Apocalipse 1:4, ARA)
Igrejas de verdade, com endereço
A “Ásia” do versículo não é o continente asiático que conhecemos. Era uma província romana na costa oeste da atual Turquia. Ali havia sete igrejas reais, em sete cidades reais, que os capítulos 2 e 3 vão visitar uma por uma.
Mas existiam mais de sete igrejas na região naquela época. Então por que só sete? Porque, na Bíblia, o sete representa plenitude, algo completo, como os sete dias da criação. Ao escolher sete igrejas, o Apocalipse fala, por meio delas, à igreja inteira de todos os tempos. Inclusive a você. A própria Bíblia cita igrejas em Colossos e Hierápolis (Colossenses 1:2 e 4:13) e em Trôade (Atos 20:6-7). E a explicação mais antiga que temos é de Vitorino de Petávio, por volta do ano 260: “o que diz a uma, diz a todas” (Comentário ao Apocalipse 1.7). Veja onde ficavam essas cidades em As 7 igrejas do Apocalipse hoje.
“Graça e paz”: uma saudação que junta dois povos
Quase toda carta do Novo Testamento começa assim: quem escreve, quem recebe e “graça e paz”. Paulo abre quase todas as cartas dele desse jeito. Mas essa saudação tem uma história bonita.
As cartas comuns daquele tempo, em grego, começavam com a palavrinha chaírein, que quer dizer “saudações!”. Dá para ver isso na própria Bíblia, em Atos 15:23 e Tiago 1:1. Nas cartas dos apóstolos, no lugar dessa saudação de todo dia aparece uma palavra parecida: cháris, que quer dizer graça. E junto vem a saudação dos judeus, shalom, que é paz.
Por que juntar as duas? Porque as igrejas tinham dois povos lado a lado: judeus que creram em Jesus e gregos convertidos. O grego dizia chaírein, “saudações”; o judeu desejava shalom. Numa frase só, a carta abraça os dois. Paulo escreveu para igrejas dessa mesma região: “Ele é a nossa paz, o qual de ambos fez um” (Efésios 2:14).
E as palavras ganham conteúdo. Graça é o favor que você não merece e não pode comprar. Paz, no sentido de shalom, é mais que ausência de guerra: é vida inteira, restaurada, sem nada faltando. Repare na ordem: primeiro graça, depois paz. Não existe paz verdadeira com Deus sem passar primeiro pela graça dele. A graça é a raiz; a paz é o fruto.
“Daquele que é, e que era, e que há de vir”
Quando Deus apareceu a Moisés na sarça, Moisés perguntou o nome dele. Deus respondeu: “EU SOU O QUE SOU” (Êxodo 3:14). Na antiga tradução grega do Antigo Testamento, essa resposta aparece com a expressão que quer dizer “Aquele que É”. João usa essa mesma expressão aqui. Em vez de dizer só “da parte de Deus”, ele lembra o Deus que se revelou a Moisés.
E João amplia o nome. O Deus que disse “EU SOU” não está preso ao tempo. Ele é (presente), era (passado) e há de vir (futuro). Existia antes de todas as coisas, reina hoje e vai continuar reinando.
Por que o presente vem primeiro
Repare na ordem: “é, era, há de vir”. A maioria de nós diria do passado para o futuro: era, é, será. Deus começa pelo agora.
Colocar o “é” na frente é dizer: Ele está com o seu povo agora. Não é só o Deus que agiu no passado, nem só o Deus de um futuro distante. Para as igrejas pressionadas que receberam esta carta, isso não era teoria. E é a marca do Deus da Bíblia do começo ao fim: o Filho foi anunciado como “Emanuel, que quer dizer: Deus conosco” (Mateus 1:23), e a última promessa de Jesus antes de subir ao céu foi: “eis que estou convosco todos os dias, até à consumação do século” (Mateus 28:20).
“Dos sete Espíritos que estão diante do seu trono”
Essa parte assusta muita gente, mas a ideia do estudo é simples. Não são sete espíritos diferentes. É o único Espírito Santo de Deus, descrito pelo número sete, que no Apocalipse quer dizer completo. O estudo liga a expressão a Isaías 11:2, onde o Espírito do Senhor repousa sobre o Messias como Espírito de sabedoria, entendimento, conselho, força, conhecimento e temor do Senhor (temor, aqui, é respeito reverente a Deus, não pavor). Essa ligação é antiga: Vitorino de Petávio, por volta do ano 260, já escrevia “lemos de um espírito sétuplo em Isaías” (Comentário ao Apocalipse 1.1). É o mesmo Espírito agindo de modo completo. Mais adiante, em Apocalipse 4:5, essa plenitude aparece como sete tochas de fogo diante do trono.
Há outras leituras dessa expressão, e outros textos que ajudam a entender, como Zacarias 4. Explicamos tudo isso com calma em Os sete Espíritos de Deus no Apocalipse.
Uma bênção que vem de três
Agora junte as peças. A graça e a paz vêm “daquele que é, que era e que há de vir”, o Pai. Vêm “dos sete Espíritos”, o Espírito Santo. E, no versículo seguinte, vêm “de Jesus Cristo”, o Filho. Uma saudação, três que dão a mesma bênção, um só Deus.
A Bíblia afirma que existe um só Deus. E mostra o Pai, o Filho e o Espírito Santo agindo juntos como esse único Deus. A palavra que a igreja usa para isso é Trindade. Não são três deuses, nem três disfarces do mesmo Deus. É grande demais para a nossa cabeça, e tudo bem: um Deus que coubesse inteiro na nossa explicação seria pequeno demais. O versículo termina em vírgula. Falta o terceiro nome, e ele vem em Apocalipse 1:5.
Um nome contra um trono
Segundo Ireneu de Lyon, por volta do ano 180, João morou em Éfeso, a principal cidade dessas igrejas, e ficou ali até o tempo do imperador Trajano (Contra as Heresias 3.1.1 e 3.3.4). A tradição conta que, no governo do imperador Domiciano, ele foi mandado para a ilha de Patmos (Eusébio, História Eclesiástica 3.18.1), e Ireneu diz que a visão foi vista “no fim do reinado de Domiciano”, por volta do ano 95 (Contra as Heresias 5.30.3). Domiciano gostava de ser chamado de “senhor” e “deus”: o historiador Suetônio conta que uma carta oficial dele começava com “nosso senhor e deus”, e que depois virou costume chamá-lo assim (Vida de Domiciano 13.2). E as cidades da Ásia disputavam a honra de ter templo ao imperador: Pérgamo tinha templo a Augusto desde 29 a.C. (Dio Cássio, História Romana 51.20.7; lembrado por Tácito, Anais 4.37), e Esmirna ganhou, no ano 26, o direito de erguer um templo a Tibério (Tácito, Anais 4.55 e 4.56). E Éfeso passou a se orgulhar do título de guardiã do templo dos imperadores, que aparece em inscrições da cidade, a maioria do século 2 (Wood, Discoveries at Ephesus, 1877).
Agora imagine esta carta sendo lida em voz alta numa dessas igrejas. Nas cidades da Ásia havia templos a imperadores, e Domiciano, que segundo Ireneu reinava quando a visão foi vista, gostava de ser chamado de “senhor e deus” (Suetônio, Domiciano 13.2). E João, que escrevia a carta, estava exilado “por causa da palavra de Deus e do testemunho de Jesus” (Apocalipse 1:9). Se o motivo foi recusar esse culto, o texto não diz: é uma hipótese. A carta dizia: a graça e a paz não vêm do palácio de Roma. Vêm daquele que é, que era e que há de vir.
O que este versículo mostra sobre Jesus
Jesus ainda não é citado pelo nome. Isso só acontece no versículo 5. Mas Ele já está ali, dando graça e paz junto com o Pai e o Espírito. E o nome do Pai nesta saudação vai voltar mais adiante nos lábios do próprio Senhor (Apocalipse 1:8 e 22:13). O Deus eterno da abertura e o Jesus que aparece no fim do capítulo são o mesmo Senhor.
O que isso muda hoje
Antes de abrir as notícias ou as redes sociais, receba de propósito a graça e a paz que vêm de Deus. Deixe a primeira mensagem do dia vir dele. Escolha uma das marcas de Isaías 11:2, como sabedoria, conselho ou força, e peça a Deus que ela cresça em você. E, quando alguma coisa na semana parecer maior do que Deus, repita: Ele é, Ele era, Ele há de vir. Nenhum trono humano está acima do dele.
Perguntas frequentes
O que significa Apocalipse 1:4?
É o início da carta às sete igrejas. João deseja graça e paz da parte do Deus eterno, que é, que era e que há de vir, e dos sete Espíritos diante do trono. No versículo 5 aparece Jesus Cristo.
O que significa aquele que é, que era e que há de vir?
É o nome do Deus eterno, ligado ao EU SOU O QUE SOU de Êxodo 3:14. Ele existia antes de tudo, reina hoje e continuará reinando. O presente vem primeiro, mostrando que Ele está com o seu povo agora.
Por que graça e paz?
As cartas gregas começavam com uma saudação comum; nas cartas dos apóstolos, no lugar dela aparece graça. E junto vem a paz, o shalom dos judeus. Assim a saudação abraçava judeus e gregos numa só família.
Quem são os sete Espíritos de Apocalipse 1:4?
O estudo entende que são o único Espírito Santo, descrito pelo número sete, que indica plenitude. Há outras leituras, explicadas no artigo sobre os sete Espíritos de Deus.
Por que o Apocalipse foi escrito a sete igrejas?
Havia mais igrejas na região, mas o sete na Bíblia indica plenitude. Por meio de sete igrejas reais, a mensagem fala à igreja inteira de todos os tempos.
Onde ficava a Ásia de Apocalipse 1:4?
Era uma província romana na costa oeste da atual Turquia, não o continente asiático. As sete cidades ficavam nessa região.
Comentários
Deixe seu comentário, aprendizado ou reflexão. Ele chega direto para mim e pode ser respondido por e-mail. ♡