Apocalipse 1:6 diz que Jesus "nos constituiu reino, sacerdotes para Deus". Ser reino é pertencer ao Reino de Jesus, com lugar garantido nele. Ser sacerdote é ter acesso direto a Deus, sem precisar de outro ser humano como ponte, e orar pelos outros. As duas coisas são presente de Jesus, já entregue, e não uma conquista nossa. A frase retoma a promessa que Deus fez a Israel no monte Sinai (Êxodo 19:6), agora estendida a todo aquele que crê.
No versículo anterior, João apresentou Jesus como aquele que nos ama e nos libertou dos nossos pecados pelo seu sangue (veja Apocalipse 1:5). A gente fala muito do que Jesus fez por nós. Este versículo dá um passo além e conta o que Ele fez de nós. Jesus não nos libertou só de alguma coisa. Libertou para alguma coisa.
"e nos constituiu reino, sacerdotes para o seu Deus e Pai, a ele a glória e o domínio pelos séculos dos séculos. Amém!" (Apocalipse 1:6, ARA)
O versículo tem duas partes bem diferentes. Primeiro, o que Jesus fez de nós. Depois, uma explosão de louvor.
"E nos constituiu": um presente, não um esforço
Repare no verbo. O texto não diz que Jesus "ajudou a gente a se tornar" alguma coisa. Diz que Ele "nos constituiu". O verbo está no passado: já aconteceu, já é fato. E quem faz a ação continua sendo Jesus, o mesmo do versículo 5.
Isso muda tudo. Reino e sacerdócio não são uma escada espiritual que a gente sobe com esforço. São um presente, entregue de uma vez. Você não está tentando virar sacerdote. Se está em Cristo, você já é.
O que significa ser "reino"
Ser reino não quer dizer que cada cristão vira um reizinho independente, mandando no próprio pedaço. Quer dizer pertencer ao Reino de Jesus. É ter lugar garantido nele, uma autoridade que é emprestada dele, e a promessa de reinar ao lado dele. Paulo escreve algo parecido: "se perseveramos, também reinaremos com ele" (2 Timóteo 2:12).
Pense no que isso muda. Talvez você se sinta pequeno, esquecido, sem importância aos olhos das pessoas. Diante de Deus, por meio de Jesus, você tem lugar no Reino. Isso não muda com o seu humor, o seu emprego ou a sua conta bancária.
O que era um sacerdote no tempo da Bíblia
Para quem nunca leu o Antigo Testamento, a palavra "sacerdote" pode não dizer muita coisa. Então vamos começar do começo.
No tempo da Bíblia, o sacerdote era a pessoa autorizada a se aproximar de Deus no templo. Ele oferecia os sacrifícios, cuidava do altar e orava em favor do povo. Era uma espécie de ponte entre Deus e as pessoas.
E não era qualquer um que podia ser sacerdote. Em Israel, só uma tribo, a dos levitas, e dentro dela só a família de Arão exercia essa função. Todo o resto do povo precisava de um sacerdote como intermediário. Ninguém chegava a Deus direto.
O que mudou com Jesus
Jesus abriu o caminho de uma vez por todas. Agora, cada pessoa que crê tem acesso direto a Deus. Você não precisa de outro ser humano como ponte, porque a ponte definitiva já existe: o próprio Jesus.
É isso que o versículo anuncia: Ele nos constituiu sacerdotes. Todos nós. Sem fila, sem tribo certa, sem sobrenome especial. Hebreus diz: "Aproximemo-nos, pois, com confiança, do trono da graça" (Hebreus 4:16).
Mas ser sacerdote não é só ter acesso. É ter função. O sacerdote antigo oferecia sacrifícios e orava pelos outros. Hoje o nosso sacrifício não é mais um animal no altar. É a própria vida entregue a Deus (Romanos 12:1) e o nosso louvor (Hebreus 13:15). E orar por outra pessoa é trabalho de sacerdote, que qualquer um de nós pode fazer hoje mesmo.
Uma promessa de muitos séculos
Essa linguagem não nasceu no Apocalipse. Muitos séculos antes, no monte Sinai (pela conta de 1 Reis 6:1, mais de 1.500 anos; pela data que muitos historiadores dão à saída do Egito, uns 1.300), Deus prometeu a Israel que o povo seria para Ele um reino de sacerdotes e uma nação santa, ou seja, separada para Deus (Êxodo 19:5-6). Era uma promessa ligada à aliança, o acordo que Deus fez com o povo ali, e que dependia da obediência de Israel. E Israel, ao longo da história, nem sempre viveu à altura dela.
O apóstolo Pedro retoma essa mesma linguagem para falar da igreja: "vós sois raça eleita, sacerdócio real, nação santa, povo de propriedade exclusiva de Deus" (1 Pedro 2:9). O que foi prometido no Sinai encontra em Jesus um cumprimento que alcança todo aquele que crê, judeu ou gentio. Gentio é como a Bíblia chama quem não é judeu. Ou seja: todo mundo está incluído.
Tem um detalhe bonito aqui. Pedro junta tudo numa expressão só, "sacerdócio real". João separa em duas palavras: reino e sacerdotes. É como se quisesse ter certeza de que não vamos perder nenhuma das duas. Não é uma ou outra. Em Cristo, você é as duas coisas ao mesmo tempo.
Um contraste que as sete igrejas entendiam
Em Pérgamo havia templo a Augusto e a Roma desde 29 a.C. (Dio Cássio, História Romana 51.20.7), e Éfeso passou a se orgulhar do título de guardiã do templo dos imperadores, que aparece em inscrições da cidade, a maioria do século 2 (Wood, Discoveries at Ephesus, 1877). O culto ao imperador tinha os seus sacerdotes.
Agora imagine igrejas pequenas e pressionadas ouvindo que elas mesmas já eram sacerdócio diante do Deus verdadeiro, sem precisar de nenhum título do império. Era uma reviravolta e tanto.
"A ele glória e domínio": a explicação vira louvor
Depois de anunciar o que fomos feitos, o texto vira os olhos de volta para quem fez isso: Jesus. E não consegue continuar só explicando. Ele louva.
Na Bíblia, "glória" carrega a ideia de peso: a grandeza de Deus tem substância, não é fumaça. "Domínio", no grego krátos, é a força que governa. Guarde essa palavra, porque ela volta no versículo 8, escondida dentro de um título de Deus. E "pelos séculos dos séculos" é o jeito bíblico de dizer: sem fim.
O versículo termina com "Amém", uma palavra hebraica que quer dizer algo como "é verdade, que assim seja". É a resposta natural de quem ouviu uma verdade grande demais para ficar calado. Esse é o primeiro de muitos momentos no Apocalipse em que a explicação vira adoração.
Esta frase vai voltar
Lá no capítulo 5, uma multidão no céu vai cantar para o Cordeiro: "nos fizeste reino e sacerdotes para o nosso Deus, e reinaremos sobre a terra" (Apocalipse 5:10). O que aqui é uma frase lida numa carta, lá vira um cântico diante do trono.
O que este artigo não está dizendo
Ser reino não é ser dono de nada nem mandar em ninguém. É pertencer a um Rei. E ser sacerdote não é ganhar um cargo acima dos outros. É ter acesso a Deus por meio de Jesus e usar esse acesso para orar pelas pessoas. A autoridade continua sendo dele, e a glória do versículo também vai para Ele, não para nós.
O que este versículo mostra sobre Jesus
Mostra um Jesus que não para no perdão. Ele recoloca a pessoa perdoada num lugar novo. Não fui apenas tirado de uma prisão: fui colocado no Reino e diante do altar.
Mostra também um Jesus que reparte o que é dele. E mostra um Jesus digno de todo o louvor do versículo. A minha identidade nova não existe para eu me exaltar. Existe para que glória e domínio voltem para Ele, "pelos séculos dos séculos".
O que isso muda hoje
Escolha uma pessoa hoje e ore por ela com intenção. Isso é viver a sua parte de sacerdote: levar alguém até Deus, sem precisar de nenhum intermediário além de Jesus.
Na próxima vez que se sentir pequeno ou sem valor, lembre que você tem lugar no Reino de Jesus. E no fim do dia, leia o versículo em voz alta e responda como as igrejas faziam quando ouviam a leitura: "Amém" (1 Coríntios 14:16 mostra a igreja dizendo "amém"). No próximo versículo, o tom muda e João anuncia a volta de Jesus: Apocalipse 1:7: a promessa confirmada em duas línguas.
Perguntas frequentes
O que significa Apocalipse 1:6?
Significa que Jesus, depois de nos libertar pelo seu sangue, nos fez reino e sacerdotes para Deus. É um presente já entregue, e o versículo termina em louvor a Ele.
O que quer dizer ser reino em Apocalipse 1:6?
Quer dizer pertencer ao Reino de Jesus, com lugar garantido nele e a promessa de reinar com Ele. Não significa que cada cristão manda no próprio pedaço.
O que significa ser sacerdote para Deus?
Significa ter acesso direto a Deus por meio de Jesus, sem outro ser humano como ponte, e usar esse acesso para orar pelos outros e oferecer a própria vida e o louvor a Deus.
Qual a ligação entre Apocalipse 1:6 e Êxodo 19:6?
No monte Sinai, Deus prometeu a Israel que o povo seria para Ele um reino de sacerdotes. Apocalipse 1:6 mostra essa promessa cumprida em Jesus e estendida a todo aquele que crê.
O que significa glória e domínio pelos séculos dos séculos?
Glória fala do peso da grandeza de Deus, domínio é a força que governa, e pelos séculos dos séculos quer dizer para sempre. É o primeiro louvor espontâneo do Apocalipse.
O que significa amém no fim de Apocalipse 1:6?
Amém é uma palavra hebraica que quer dizer é verdade, que assim seja. É a resposta de quem ouviu uma verdade grande demais para ficar calado.
Comentários
Deixe seu comentário, aprendizado ou reflexão. Ele chega direto para mim e pode ser respondido por e-mail. ♡