Em Apocalipse 3:17 Jesus repete o que a igreja de Laodiceia dizia de si mesma, “Estou rico e abastado e não preciso de coisa alguma”, e responde com cinco palavras: infeliz, miserável, pobre, cego e nu. A cidade era rica de verdade e se reergueu do terremoto do ano 60 sem ajuda de Roma; para Swete (1906), a igreja falava a língua da cidade. Mas as palavras mais perigosas do versículo são três: “e nem sabes”.
Quem sabe que está pobre, pede. Paulo usou a mesma palavra “infeliz” para si mesmo em Romanos 7:24, mas sabia, e perguntou: “Quem me livrará?”. Laodiceia não sabia.
No versículo 16, Jesus disse que estava “a ponto de vomitar” a igreja morna, e a frase com que ficamos foi esta: o morno do versículo 16 não é alguém que Jesus já jogou fora; é alguém que Ele ainda está chamando. No versículo 17, Ele explica o diagnóstico.
"pois dizes: Estou rico e abastado e não preciso de coisa alguma, e nem sabes que tu és infeliz, sim, miserável, pobre, cego e nu." (Apocalipse 3:17, ARA)
O que a igreja de Laodiceia dizia de si mesma?
Três coisas: “estou rico”, estou abastado e “não preciso de coisa alguma”. “Abastado” é quem tem bens de sobra, e no original o verbo fala de uma riqueza conquistada que continua: fiquei rico e continuo rico. A terceira frase é a conclusão das duas primeiras: se tenho, e tenho de sobra, não preciso. Jesus começa citando a própria igreja. Era uma igreja que se olhava no espelho e gostava do que via.
Laodiceia era rica de verdade?
Era. Ficava num cruzamento de estradas comerciais, tinha onde trocar dinheiro (o político romano Cícero escreve que pretendia trocar ali as suas letras de crédito, Cartas aos Familiares 3.5.4) e uma lã preta famosa que virava roupa cara (Estrabão, Geografia 12.8.16). No ano 60 um terremoto a derrubou, e o historiador romano Tácito registra que ela se reergueu com os próprios recursos, sem ajuda de Roma (Anais 14.27). Swete (1906), seguindo Lightfoot, entende que a igreja passou a dizer o mesmo que a cidade; Trench (1861) e Bousset (1906) leem a riqueza da igreja como espiritual. Seja como for, “não preciso de coisa alguma”, na boca de uma igreja, inclui Deus.
Essa frase já aparece no Antigo Testamento?
Sim. Uns oitocentos anos antes, o profeta Oseias denunciou Efraim, o reino do norte de Israel, como um comerciante de balança enganosa (Oseias 12:7), e pôs na boca do povo: “Contudo, me tenho enriquecido e adquirido grandes bens”, acrescentando que ninguém acharia culpa nele (12:8). Na Septuaginta, a tradução grega do Antigo Testamento lida pelas igrejas no tempo de João, o “enriqueci” de Oseias é a mesma forma de verbo que aparece em Apocalipse 3:17. O comentarista Richard Trench, no século 19, escreveu que dificilmente duvidava dessa ligação. É uma leitura forte, embora o Apocalipse não diga “como está escrito em Oseias”. Laodiceia repetia um erro antigo, com roupa nova.
Jesus está dizendo que ter dinheiro é pecado?
Não. Abraão era muito rico (Gênesis 13:2), e José de Arimateia, um homem rico, deu o túmulo para o corpo de Jesus (Mateus 27:57-60). O problema não estava no “estou rico”, e sim no “não preciso”. Deuteronômio 8:11-18 já avisava: quando você estiver farto, cuidado para não esquecer o Senhor e achar que foi a sua força que trouxe tudo. Quem não precisa de nada também não precisa de Deus, e para de pedir, de buscar e de ouvir. Por isso a igreja ficou morna.
Por que “e nem sabes” é a parte mais perigosa?
Porque o doente que sabe que está doente procura o médico; o que se acha ótimo, não. O perigo maior não é a doença, é não saber dela. Laodiceia não mentia para os outros: estava enganada sobre si mesma. O espelho mostrava riqueza; o olhar de Jesus mostrava outra coisa.
O que significa “infeliz” em Apocalipse 3:17?
A palavra grega é talaípōros (Strong G5005): alguém desgastado por um sofrimento que não passa. Ela aparece só duas vezes no Novo Testamento: aqui e em Romanos 7:24, onde Paulo diz de si mesmo: “Desventurado homem que sou! Quem me livrará do corpo desta morte?”. E responde: “Graças a Deus por Jesus Cristo, nosso Senhor” (7:25). Paulo e Laodiceia receberam a mesma palavra. A diferença é que Paulo sabia, e por isso perguntou quem podia livrá-lo.
“Miserável” é xingamento?
Não aqui. A palavra do original é da família de “misericórdia”: alguém digno de pena, alguém que daria vontade de ajudar. Paulo a usa em 1 Coríntios 15:19. Laodiceia achava que causava inveja; Jesus diz que ela causava pena.
Que tipo de pobre Laodiceia era?
O grego tinha duas palavras para pobre, e Richard Trench explica a diferença entre elas (Sinônimos do Novo Testamento). Uma, rara no Novo Testamento (só em 2 Coríntios 9:9), era para quem trabalha todo dia para comer. A outra, ptōchós (G4434), a usada aqui, é para quem não tem nada e vive de esmola: o mendigo. E a carta a Esmirna mostra o avesso: “Conheço a tua tribulação, a tua pobreza (mas tu és rico)” (Apocalipse 2:9). Esmirna: pobre, mas rica. Laodiceia: rica, mas pobre. A riqueza que Jesus conta não é a que está no banco.
Por que “cego e nu”?
O médico Galeno fala de um colírio feito de “pedra frígia” (Sobre a conservação da saúde 6.12), e a Frígia é a região de Laodiceia. O geógrafo Estrabão conta que havia uma escola de medicina perto da cidade (Geografia 12.8.20). E a cidade era famosa pela lã preta. William Ramsay e outros estudiosos ligam as duas palavras a esse orgulho: a cidade do remédio para os olhos estava cega; a das roupas caras, nua. É uma leitura discutida. A ligação com a lã tem fonte antiga (Estrabão, Geografia 12.8.16); a do colírio é a mais fraca: Colin Hemer achou fraca a prova de um colírio feito na própria cidade, e Craig Koester (2003) conclui que não há prova direta de que Laodiceia fosse conhecida pelo seu colírio. E o texto bíblico não cita a lã nem o remédio. Mas o sentido de “nu” na Bíblia é claro: vergonha exposta, desde Adão e Eva (Gênesis 3:7-10) até Apocalipse 16:15.
O que este versículo mostra sobre Jesus
Que Ele vê o que o espelho não mostra. Que fala a verdade mesmo quando dói, porque deixar Laodiceia achando que estava tudo bem seria mais fácil e mais cruel. E que não fala para humilhar: no versículo seguinte, o mesmo Jesus que mostra o que falta oferece aquilo que falta.
O que isso muda hoje
Ninguém diz “estou rico e abastado”, mas a frase aparece de outros jeitos: “eu já sei disso”, “eu já conheço a Bíblia”, “eu estou bem, não preciso mudar nada”. Qualquer frase que termina em “não preciso” merece um segundo olhar. A pergunta não é “eu tenho problema?”, porque todo mundo tem. É: eu sei qual é? Quem sabe está onde Paulo estava e pode perguntar “quem me livrará?”. A frase mais perigosa deste versículo não é “pobre, cego e nu”. É “e nem sabes”.
Perguntas frequentes
O que significa Apocalipse 3:17?
Jesus repete o que a igreja de Laodiceia dizia de si mesma, “Estou rico e abastado e não preciso de coisa alguma”, e mostra o que Ele via: infeliz, miserável, pobre, cego e nu. E diz que ela nem sabia disso. É a explicação de por que a igreja estava morna (3:16).
Ter dinheiro é pecado, segundo Apocalipse 3:17?
Não. A Bíblia tem gente rica e fiel, como Abraão e José de Arimateia. O problema de Laodiceia não era o “estou rico”, e sim o “não preciso de coisa alguma”: quem acha que não precisa de nada para de pedir e de buscar a Deus.
Por que “e nem sabes” é a parte mais perigosa do versículo?
Porque quem sabe que está doente procura o médico, e quem se acha bem não procura. Laodiceia não mentia para os outros, estava enganada sobre si mesma. Quem sabe que está pobre, pede; quem não sabe, não pede.
Qual a ligação entre Apocalipse 3:17 e Romanos 7:24?
A palavra grega traduzida por “infeliz” (talaípōros) aparece só duas vezes no Novo Testamento: em Apocalipse 3:17 e em Romanos 7:24, onde Paulo diz “Desventurado homem que sou!”. A diferença é que Paulo sabia da própria condição e perguntou “Quem me livrará?”, respondendo: “Graças a Deus por Jesus Cristo, nosso Senhor”.
O que quer dizer “pobre” em Apocalipse 3:17?
O grego tinha duas palavras para pobre: uma para quem trabalha todo dia para comer, outra para quem não tem nada e vive de esmola. Jesus usa a segunda (ptōchós): para Ele, a igreja que se dizia rica era uma mendiga. Ao contrário de Esmirna, pobre e perseguida, a quem Ele disse “mas tu és rico” (2:9).
Apocalipse 3:17 tem relação com Oseias 12:8?
Muitos comentaristas acham que sim. Em Oseias 12:8, Efraim diz: “Contudo, me tenho enriquecido e adquirido grandes bens”, certo de que ninguém acharia culpa nele. Na Septuaginta, o verbo “enriqueci” tem a mesma forma usada em Apocalipse 3:17. Richard Trench escreveu que dificilmente duvidava da ligação.
Por que Jesus chama Laodiceia de cega e nua?
Porque “cego” e “nu” mostram o que faltava por dentro a uma igreja que se achava completa. Estudiosos como William Ramsay ligam as palavras ao orgulho da cidade: um colírio de “pedra frígia” citado pelo médico Galeno e a lã preta que virava roupa cara. É uma leitura discutida, e a ligação com o colírio é a mais fraca; o certo é que “nu” na Bíblia é vergonha exposta (Gênesis 3; Apocalipse 16:15).
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