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Apocalipse 2:8: a carta à igreja de Esmirna
✦ Série 404 · Versículo por versículo

Apocalipse 2:8: Esmirna, a cidade que morreu e voltou a viver

26 de agosto de 2026 8 min de leitura por Thaís
Resposta rápida

Apocalipse 2:8 abre a segunda das sete cartas, a carta a Esmirna, e Jesus se apresenta como "o primeiro e o último, que esteve morto e tornou a viver". O título não é aleatório: Esmirna era literalmente uma cidade que tinha morrido. Destruída por volta de 600 a.C., deixou de ser cidade: o povo viveu séculos espalhado em aldeias (uns quatrocentos anos, segundo o geógrafo Estrabão; uns trezentos, pelas datas que William Ramsay usa) e depois foi reconstruída: mais bonita do que antes.

Dois pontos que ajudam: (1) "o primeiro e o último" é um título que, no Antigo Testamento, só Deus usa para Si mesmo (Isaías 44:6; 48:12); (2) em cada uma das sete cartas, Jesus escolhe um traço da visão do capítulo 1 que fala exatamente com a dor daquela cidade.

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A primeira carta terminou. Viramos a página, e a segunda vai para uma cidade com uma história difícil de acreditar.

"Ao anjo da igreja em Esmirna escreve: Estas coisas diz o primeiro e o último, que esteve morto e tornou a viver."

APOCALIPSE 2:8 · Almeida Revista e Atualizada

A receita das sete cartas

Desde Éfeso a gente vem percebendo um padrão. Cada carta começa igual: "ao anjo da igreja em [cidade] escreve". Depois vem "estas coisas diz…", e aí Jesus escolhe, da visão do capítulo 1, um traço Seu para Se apresentar.

Em Éfeso, a igreja que estava perdendo o primeiro amor, Ele Se apresentou como aquele que segura as sete estrelas e anda no meio dos candeeiros (Apocalipse 2:1): o Jesus que não solta e não vai embora. Aqui, para uma igreja que estava com medo de morrer, Ele escolhe outro traço: o que esteve morto e tornou a viver.

Jesus nunca Se apresenta de forma genérica.
Ele escolhe o traço que aquela dor específica precisa ver.

Esmirna: a joia da Ásia

Esmirna ficava a uns 59 quilômetros ao norte de Éfeso (320 estádios, segundo o geógrafo Estrabão, Geografia 14.1.2), num porto excelente. Era rica, organizada e muito bonita: as moedas da cidade diziam "primeira da Ásia em beleza e tamanho", segundo W. M. Ramsay (The Letters to the Seven Churches of Asia, 1904). Tinha uma avenida famosa, a Rua de Ouro (o orador Élio Aristides, no século 2, fala dela; citado por Ramsay), ligando dois templos; e no monte Pagos, atrás da cidade, William Ramsay imaginava os edifícios formando um anel no alto da colina. O orador Élio Aristides, no século 2, chamou Esmirna de joia da Ásia e de coroa da Jônia, e comparou a cidade a uma estátua que começa com os pés na praia e sobe até o alto do morro. A imagem de uma coroa de prédios no monte Pagos é de William Ramsay (1904). A expressão exata "coroa da Ásia", que às vezes se ouve, não aparece nessas fontes.

Guarde essa imagem da coroa. Ela vai voltar daqui a dois versículos, quando Jesus prometer a essa igreja perseguida "a coroa da vida" (Apocalipse 2:10).

A história que muda tudo: a cidade que morreu

Aqui está o detalhe que faz o versículo abrir por inteiro.

Por volta do ano 600 a.C., Esmirna foi atacada e destruída. Não foi um saque com reconstrução no ano seguinte: a cidade deixou de existir como cidade. E ficou assim por séculos: pelas datas que William Ramsay usa, de 600 a.C. até a cidade nova, por volta de 300 a.C., são uns trezentos anos. O geógrafo Estrabão, que escreveu no tempo de Jesus, fala em uns quatrocentos anos vivendo em aldeias (Geografia 14.1.37). O lugar ficou reduzido a vilarejos espalhados; a arqueologia mostra que o sítio antigo não ficou vazio, virou uma vila. Mas, como cidade, Esmirna estava morta.

Só séculos depois, no tempo de Alexandre, o Grande, e de seus sucessores, ela foi refundada: num sítio novo, ao pé e ao redor do monte Pagos. E a cidade reconstruída ficou mais bonita e mais importante do que a antiga.

Esmirna morreu.
Por séculos, foi só aldeias.
E voltou a viver.

Agora releia a apresentação de Jesus: "o primeiro e o último, que esteve morto e tornou a viver". Para aquela igreja, isso não era teologia abstrata. Era a história da cidade deles: dita por Alguém que a tinha vivido de verdade, e não como metáfora.

"O primeiro e o último": um título que é assinatura

Esse título vem direto do profeta Isaías, e é uma das declarações mais fortes do Antigo Testamento: "Eu sou o primeiro e eu sou o último, e fora de mim não há Deus" (Isaías 44:6; também 48:12).

Quando Jesus toma esse título para Si, Ele está fazendo uma afirmação enorme e silenciosa: o que Deus disse de Si mesmo em Isaías, Ele diz de Si mesmo aqui. E não é a primeira vez no livro: no capítulo 1, Ele Se apresentou a João exatamente assim, e ainda acrescentou: "estive morto, mas eis que estou vivo pelos séculos dos séculos" (Apocalipse 1:17-18).

O sentido prático é este: Ele estava antes de tudo o que ameaça aquela igreja, e vai estar depois. Antes de Roma, depois de Roma. Antes da perseguição, depois dela.

Uma carta sem nenhuma crítica

Tem um detalhe raro nessa carta, e vale dizer desde já: das sete, Esmirna é uma das duas únicas que Jesus não repreende em nada (a outra é Filadélfia, no capítulo 3).

Não é que Esmirna fosse perfeita. É que uma igreja que Jesus chama de pobre e avisa que vai sofrer foi a que não recebeu nenhuma correção, e isso, por si só, já diz alguma coisa sobre o critério de Jesus, que é bem diferente do nosso.

Policarpo, o bispo de Esmirna

Uns quinze anos depois desta carta, por volta do ano 110, o bispo da igreja de Esmirna já era um líder cujo nome atravessou a história: Policarpo (Inácio, Carta a Policarpo, saudação). Segundo Irineu, ele tinha convivido com o apóstolo João, o mesmo João que escreveu este livro (Eusébio, História Eclesiástica 5.20.6).

Por volta do ano 155 ou 156, já muito velho, Policarpo foi morto em Esmirna por se recusar a jurar pela fortuna de César e amaldiçoar a Cristo (Martírio de Policarpo 9.2-3). O relato antigo do seu martírio guarda a frase que ele teria dito diante do governador: havia servido a Cristo por oitenta e seis anos, e Ele nunca lhe tinha feito mal algum, como poderia então blasfemar do seu Rei e Salvador? (Martírio de Policarpo 9.3)

Ou seja: a carta que promete "a coroa da vida" a uma igreja perseguida foi lida, guardada e vivida por gente que precisou dela até o fim.

E o nome da cidade?

Em grego, "smýrna" é a palavra para mirra: a mesma de Mateus 2:11 e João 19:39. Por que a cidade ganhou esse nome, ninguém sabe ao certo. A mirra é a resina perfumada usada em perfumes e no preparo de corpos para o sepultamento, e um dos presentes trazidos ao menino Jesus (Mateus 2:11).

Vale registrar com honestidade: o texto bíblico não faz essa ligação. É uma observação sobre o nome, não uma interpretação que o versículo autorize. Mas é difícil não achar tocante que a carta da cidade cujo nome é o perfume das sepulturas seja justamente a carta do Jesus que esteve morto e voltou a viver.

O que este versículo me mostra sobre Jesus?

Um Jesus que fala na língua da história de cada um. Um Jesus que, antes de pedir qualquer coisa, mostra quem Ele é, e escolhe mostrar exatamente a parte que aquela dor precisava enxergar. E um Jesus para quem morte não é ponto final: Ele já atravessou esse caminho e voltou. ♡

Perguntas frequentes

Por que Jesus Se apresenta a Esmirna como “o primeiro e o último, que esteve morto e tornou a viver”?

Porque o título encaixa com a história da cidade. Esmirna foi destruída por volta de 600 a.C., deixou de ser cidade: o povo viveu séculos espalhado em aldeias (uns quatrocentos anos, segundo o geógrafo Estrabão; uns trezentos, pelas datas que William Ramsay usa) e depois foi reconstruída: uma cidade que morreu e voltou a viver. Em cada uma das sete cartas, Jesus escolhe um traço da visão do capítulo 1 que fala diretamente com a situação daquela igreja.

O que aconteceu com a cidade de Esmirna?

Esmirna era uma cidade antiga e próspera da costa da Ásia Menor. Por volta de 600 a.C. foi atacada e destruída, deixando de existir como cidade por séculos: o povo viveu em aldeias uns quatrocentos anos, segundo o geógrafo Estrabão, ou uns trezentos, pelas datas que William Ramsay usa. Foi refundada no tempo de Alexandre, o Grande, e de seus sucessores, ao redor do monte Pagos, e a nova cidade ficou mais bonita e mais importante que a antiga.

Onde fica Esmirna hoje?

A antiga Esmirna corresponde à atual Izmir, na Turquia: cidade portuária no mar Egeu, cerca de 59 quilômetros ao norte de onde ficava Éfeso (320 estádios, segundo o geógrafo Estrabão, Geografia 14.1.2).

Quem foi Policarpo de Esmirna?

Policarpo foi bispo de Esmirna no século II; segundo Irineu, tinha convivido com o apóstolo João (Eusébio, História Eclesiástica 5.20.6). Foi morto em Esmirna, por volta de 155 ou 156, já muito velho, por se recusar a jurar pela fortuna de César e amaldiçoar a Cristo (Martírio de Policarpo 9.2-3). O relato do seu martírio é um dos documentos cristãos mais antigos fora do Novo Testamento.

Por que a carta a Esmirna não tem nenhuma crítica?

Das sete cartas, apenas duas não trazem repreensão: Esmirna e Filadélfia. Esmirna é a igreja que Jesus chama de pobre e avisa que vai sofrer, e é justamente uma das que Ele não corrige em nada, o que revela um critério bem diferente do que a gente costuma usar para medir uma igreja.

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