Apocalipse 2:8 abre a segunda das sete cartas — a carta a Esmirna — e Jesus se apresenta como "o primeiro e o último, que esteve morto e tornou a viver". O título não é aleatório: Esmirna era literalmente uma cidade que tinha morrido. Destruída por volta de 600 a.C., ficou cerca de trezentos anos em ruínas e depois foi reconstruída — mais bonita do que antes.
Dois pontos que ajudam: (1) "o primeiro e o último" é um título que, no Antigo Testamento, só Deus usa para Si mesmo (Isaías 44:6; 48:12); (2) em cada uma das sete cartas, Jesus escolhe um traço da visão do capítulo 1 que fala exatamente com a dor daquela cidade.
A primeira carta terminou. Viramos a página — e a segunda vai para uma cidade com uma história difícil de acreditar.
"Ao anjo da igreja em Esmirna escreve: Estas coisas diz o primeiro e o último, que esteve morto e tornou a viver."
APOCALIPSE 2:8 · Almeida Revista e AtualizadaA receita das sete cartas
Desde Éfeso a gente vem percebendo um padrão. Cada carta começa igual: "ao anjo da igreja em [cidade] escreve". Depois vem "estas coisas diz…" — e aí Jesus escolhe, da visão do capítulo 1, um traço Seu para Se apresentar.
Em Éfeso, a igreja que estava perdendo o primeiro amor, Ele Se apresentou como aquele que segura as sete estrelas e anda no meio dos candeeiros (Apocalipse 2:1) — o Jesus que não solta e não vai embora. Aqui, para uma igreja que estava com medo de morrer, Ele escolhe outro traço: o que esteve morto e tornou a viver.
Ele escolhe o traço que aquela dor específica precisa ver.
Esmirna: a coroa da Ásia
Esmirna ficava a uns 65 quilômetros ao norte de Éfeso, num porto excelente. Era rica, organizada e — pelo que os antigos escreveram — muito bonita. Tinha uma avenida famosa, a Rua de Ouro, ligando dois templos; e no monte Pagos, atrás da cidade, os edifícios formavam um anel no alto da colina que os escritores da época comparavam a uma coroa.
Guarde essa imagem da coroa. Ela vai voltar daqui a dois versículos, quando Jesus prometer a essa igreja perseguida "a coroa da vida" (Apocalipse 2:10).
A história que muda tudo: a cidade que morreu
Aqui está o detalhe que faz o versículo abrir por inteiro.
Por volta do ano 600 a.C., Esmirna foi atacada e destruída. Não foi um saque com reconstrução no ano seguinte: a cidade deixou de existir como cidade. Durante aproximadamente trezentos anos, o lugar ficou reduzido a povoados espalhados — ruínas onde antes havia uma das cidades mais antigas daquela costa.
Só séculos depois, no tempo de Alexandre, o Grande, e de seus sucessores, ela foi refundada — num sítio novo, ao pé e ao redor do monte Pagos. E a cidade reconstruída ficou mais bonita e mais importante do que a antiga.
Ficou trezentos anos em ruínas.
E voltou a viver.
Agora releia a apresentação de Jesus: "o primeiro e o último, que esteve morto e tornou a viver". Para aquela igreja, isso não era teologia abstrata. Era a história da cidade deles — dita por Alguém que a tinha vivido de verdade, e não como metáfora.
"O primeiro e o último": um título que é assinatura
Esse título vem direto do profeta Isaías, e é uma das declarações mais fortes do Antigo Testamento: "Eu sou o primeiro e eu sou o último, e fora de mim não há Deus" (Isaías 44:6; também 48:12).
Quando Jesus toma esse título para Si, Ele está fazendo uma afirmação enorme e silenciosa: o que Deus disse de Si mesmo em Isaías, Ele diz de Si mesmo aqui. E não é a primeira vez no livro — no capítulo 1, Ele Se apresentou a João exatamente assim, e ainda acrescentou: "estive morto, mas eis que estou vivo pelos séculos dos séculos" (Apocalipse 1:17-18).
O sentido prático é este: Ele estava antes de tudo o que ameaça aquela igreja, e vai estar depois. Antes de Roma, depois de Roma. Antes da perseguição, depois dela.
Uma carta sem nenhuma crítica
Tem um detalhe raro nessa carta, e vale dizer desde já: das sete, Esmirna é uma das duas únicas que Jesus não repreende em nada (a outra é Filadélfia, no capítulo 3).
Não é que Esmirna fosse perfeita. É que a igreja mais pobre e mais perseguida das sete foi a que não recebeu nenhuma correção — e isso, por si só, já diz alguma coisa sobre o critério de Jesus, que é bem diferente do nosso.
Policarpo, o bispo de Esmirna
Poucas décadas depois dessa carta ser escrita, a igreja de Esmirna teve um líder cujo nome atravessou a história: Policarpo, que a tradição antiga apresenta como discípulo do apóstolo João — o mesmo João que escreveu este livro.
Policarpo foi morto em Esmirna, já idoso, por se recusar a jurar pelo imperador e amaldiçoar a Cristo. O relato antigo do seu martírio guarda a frase que ele teria dito diante do governador: havia servido a Cristo por muitos anos, e Ele nunca lhe tinha feito mal algum — como poderia então blasfemar do seu Rei e Salvador?
Ou seja: a carta que promete "a coroa da vida" a uma igreja perseguida foi lida, guardada e vivida por gente que precisou dela até o fim.
E o nome da cidade?
Muita gente comenta que "Esmirna" lembra a palavra mirra — a resina perfumada usada em perfumes e no preparo de corpos para o sepultamento, e um dos presentes trazidos ao menino Jesus (Mateus 2:11).
Vale registrar com honestidade: o texto bíblico não faz essa ligação. É uma observação sobre o nome, não uma interpretação que o versículo autorize. Mas é difícil não achar tocante que a carta da cidade cujo nome soa como o perfume das sepulturas seja justamente a carta do Jesus que esteve morto e voltou a viver.
O que este versículo me mostra sobre Jesus?
Um Jesus que fala na língua da história de cada um. Um Jesus que, antes de pedir qualquer coisa, mostra quem Ele é — e escolhe mostrar exatamente a parte que aquela dor precisava enxergar. E um Jesus para quem morte não é ponto final: Ele já atravessou esse caminho e voltou. ♡
Perguntas frequentes
Por que Jesus Se apresenta a Esmirna como “o primeiro e o último, que esteve morto e tornou a viver”?
Porque o título encaixa com a história da cidade. Esmirna foi destruída por volta de 600 a.C., ficou cerca de trezentos anos em ruínas e depois foi reconstruída — uma cidade que morreu e voltou a viver. Em cada uma das sete cartas, Jesus escolhe um traço da visão do capítulo 1 que fala diretamente com a situação daquela igreja.
O que aconteceu com a cidade de Esmirna?
Esmirna era uma cidade antiga e próspera da costa da Ásia Menor. Por volta de 600 a.C. foi atacada e destruída, deixando de existir como cidade por aproximadamente três séculos. Foi refundada no tempo de Alexandre, o Grande, e de seus sucessores, ao redor do monte Pagos — e a nova cidade ficou mais bonita e mais importante que a antiga.
Onde fica Esmirna hoje?
A antiga Esmirna corresponde à atual Izmir, na Turquia — cidade portuária no mar Egeu, cerca de 65 quilômetros ao norte de onde ficava Éfeso.
Quem foi Policarpo de Esmirna?
Policarpo foi bispo de Esmirna no século II e, segundo a tradição antiga, discípulo do apóstolo João. Foi morto em Esmirna, já idoso, por se recusar a jurar pelo imperador e amaldiçoar a Cristo. O relato do seu martírio é um dos documentos cristãos mais antigos fora do Novo Testamento.
Por que a carta a Esmirna não tem nenhuma crítica?
Das sete cartas, apenas duas não trazem repreensão: Esmirna e Filadélfia. Esmirna era a igreja mais pobre e mais perseguida das sete — e é justamente a que Jesus não corrige em nada, o que revela um critério bem diferente do que a gente costuma usar para medir uma igreja.
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