✦Onde paramos
No último estudo, fechamos a primeira carta do Apocalipse: a carta de Éfeso. Vimos a promessa da árvore da vida e descobrimos a amarração da carta inteira: ela abre com Jesus andando no meio dos candeeiros e fecha com o jardim de volta.
Hoje viramos a página e começamos uma carta nova: a segunda das sete. Ela vai para Esmirna, e, logo na apresentação, Jesus escolhe um título para Si mesmo que encaixa com a história daquela cidade de um jeito impressionante. Para entender o tamanho do encaixe, este caderno vai te contar a história de Esmirna inteira: a beleza, a destruição, os séculos vivendo em aldeias e a ressurreição de uma cidade.
✦Como usar este caderno
Este caderno é para todo mundo: para quem nunca estudou o Apocalipse, para quem sempre quis entender e achou difícil, e para quem já conhece o livro e quer ir mais fundo. Você não precisa saber nada antes de começar.
- Ore. Faça a oração de abertura ou converse com Deus com as suas palavras.
- Leia o versículo. Devagar, duas vezes. Se puder, em voz alta.
- Estude. Sublinhe, marque e escreva nas margens. Este caderno é seu.
- Anote. No fim há uma página reservada para o que Deus falou com você.
- Ore novamente. Termine conversando com Deus sobre o que aprendeu.
✦Oração de abertura
✦O versículo de hoje
Um versículo curto, mas guarde a frase do título: “o primeiro e o último, que esteve morto e tornou a viver”. Ela é a chave de tudo o que vem pela frente nesta carta.
✦ Palavras que ajudam a entender
- Anjo: ángelos, mensageiro: o destinatário que recebia e lia a carta (como vimos nos estudos 016, 020 e 2:1).
- Esmirna: cidade portuária a cerca de 50 km ao norte de Éfeso; hoje é Izmir, na Turquia, viva até hoje.
- O primeiro e o último: título que, no Antigo Testamento, pertence ao próprio Deus.
- Tornou a viver: no grego, o verbo conta um fato que aconteceu: voltou a viver. Que Ele continua vivo, quem diz é 1:18: “estou vivo pelos séculos dos séculos”.
✦1. A receita continua, e o título nunca é aleatório
Antes de qualquer coisa, lembre da estrutura que descobrimos na carta de Éfeso: todas as sete cartas seguem a mesma receita. Sempre começam com “ao anjo da igreja em tal lugar, escreve”, e logo depois Jesus se apresenta com um título. E esse título nunca é aleatório: é sempre tirado da visão do capítulo 1, e é sempre escolhido com cuidado para aquela igreja específica.
Para Éfeso, que estava esfriando por dentro, Ele se apresentou como aquele que anda no meio dos candeeiros: eu estou presente. E para Esmirna, Ele escolheu este: “o primeiro e o último, que esteve morto e tornou a viver”.
Por que esse? A resposta está na história da cidade, e ela é uma das mais impressionantes de toda a região.
✦2. Conheça Esmirna: a cidade coroada
Esmirna ficava uns cinquenta quilômetros ao norte de Éfeso, subindo a costa. E era uma cidade linda. Enquanto Éfeso era a maior e a mais rica, Esmirna era conhecida como a mais bonita da região (as moedas da cidade diziam “primeira da Ásia em beleza e tamanho”, segundo W. M. Ramsay, The Letters to the Seven Churches of Asia, 1904).
Ela tinha um porto que podia ser fechado, como conta Estrabão (Geografia 14.1.37). Tinha ruas largas e organizadas, e uma avenida famosa, conhecida como a Rua de Ouro (o orador Élio Aristides, no século 2, fala dela várias vezes; citado por Ramsay), que subia a encosta ligando templos de uma ponta a outra. E tinha uma colina no alto, o monte Pagos. William Ramsay (Letters, cap. 19) achava que os prédios em volta dela davam à cidade o aspecto de uma coroa, e que daí vinha a expressão “coroa de Esmirna”.
Aliás, a “coroa” aparece nas fontes antigas sobre Esmirna: o orador Élio Aristides compara a cidade a uma estátua, com os pés na praia, subindo até a acrópole, e em outro discurso a chama de “coroa da Jônia”; e Apolônio de Tiana, na biografia escrita por Filóstrato, diz que é melhor ser coroado de pessoas do que de prédios. A expressão exata “coroa da Ásia” não aparece nessas fontes. Guarde esse detalhe, porque daqui a dois versículos, nesta mesma carta, Jesus vai prometer uma coroa para essa igreja (2:10). Mais uma vez, Ele fala a língua da cidade.
✦3. A história que muda tudo: a cidade que morreu
Mas o detalhe mais impressionante de Esmirna não é a beleza. É a história. E é aqui que a apresentação de Jesus fica extraordinária.
Esmirna era uma cidade muito antiga. E, por volta do ano 600 antes de Cristo, ela foi atacada por um reino vizinho: o reino da Lídia, o mesmo reino do famoso rei Creso, cuja capital era Sardes (outra das sete cidades da nossa lista!). E Esmirna foi destruída.
Estrabão, geógrafo do tempo de Jesus, conta que os lídios arrasaram a cidade e que o povo viveu uns 400 anos em aldeias (Geografia 14.1.37). Pelas datas que William Ramsay usa, de 600 a.C. até a cidade nova, por volta de 290 a.C., foram uns trezentos anos. Pense nesse tempo: é mais do que o Brasil tem de existência como país independente. O lugar não ficou vazio: virou vila. Mas, como cidade, Esmirna estava morta.
…e voltou a viver
Mas séculos depois, já no tempo dos gregos, Esmirna foi reconstruída. E não de qualquer jeito: foi replanejada, com as ruas organizadas, com aquele porto maravilhoso, com a colina do Pagos. E voltou a crescer, até se tornar uma das cidades mais importantes e mais bonitas de toda a região.
✦ Você sabia? O sonho que refundou a cidade
Os escritores antigos contavam que a reconstrução de Esmirna começou com Alexandre, o Grande. Segundo a tradição registrada pelo geógrafo Pausânias, Alexandre teria adormecido debaixo de um plátano, junto a um santuário das deusas Nêmesis, no monte Pagos, depois de uma caçada; no sonho, elas mandaram fundar ali uma cidade. O oráculo de Claros confirmou: “três, sim, quatro vezes felizes serão os que morarem no Pagos” (Pausânias, Descrição da Grécia 7.5.1-3). Os generais que vieram depois dele tocaram a obra, e a nova cidade nasceu planejada, no local onde ficou até hoje.
Verdade ou lenda de fundação, o ponto é este: os moradores tinham orgulho dessa história. A morte e a ressurreição da cidade eram parte da identidade deles: era a história que eles contavam sobre si mesmos.
Agora leia de novo, com essa história na cabeça, o que Jesus fala para essa igreja: “estas coisas diz… que esteve morto e tornou a viver”.
como Aquele que morreu e ressuscitou.
Não é coincidência. É como se Ele dissesse: vocês conhecem essa história de morrer e voltar a viver, é a história da cidade de vocês. Mas Eu não sou uma cidade reconstruída por reis e arquitetos. Eu sou a própria Vida. Eu estive morto… e vivo.
E isso muda tudo para a igreja que vai receber esta carta. Porque, como veremos nos próximos versículos, Esmirna era uma igreja que sofria: perseguição, pobreza, ameaça de prisão, e, para alguns, ameaça de morte. Era a igreja que mais precisava ouvir exatamente isto: o Senhor de vocês já passou pela morte. E voltou. Para quem teme a morte, não existe apresentação mais poderosa.
✦4. “O primeiro e o último”: o título que é assinatura de Deus
E há outro pedaço do título que não pode passar batido. Se você está conosco desde o capítulo 1, essa expressão já apareceu: foi quando João caiu como morto aos pés da visão, e Jesus pôs a mão direita sobre ele e disse “não temas; eu sou o primeiro e o último e aquele que vive; estive morto, mas eis que estou vivo pelos séculos dos séculos” (1:17-18). A carta a Esmirna retoma, palavra por palavra, a cena mais consoladora do capítulo 1.
E de onde vem esse título? Lá do Antigo Testamento, e da boca do próprio Deus:
Em Isaías, “o primeiro e o último” é a assinatura exclusiva do Deus de Israel (veja também Isaías 48:12). Então, quando Jesus usa esse título para falar com Esmirna, Ele está dizendo duas coisas ao mesmo tempo.
A primeira: Eu sou Deus. Eu estava antes de tudo, e estarei depois de tudo. Antes de o império romano existir, Eu já era. Depois de o império romano acabar, Eu ainda serei. Para uma igreja esmagada por um império que parecia eterno, essa é a primeira âncora.
A segunda: Eu também conheço a morte por dentro. Não de longe, não de ouvir falar. “Estive morto.” Um Deus eterno, que também atravessou a morte, e venceu.
Ele entrou na história, foi até o fim, até a morte, e voltou.
Quando fala com quem tem medo de morrer, fala como quem já esteve exatamente ali.
✦ Para ir mais fundo: “primeiro e último” e “Alfa e Ômega”
O Apocalipse usa três títulos irmãos, e vale ver como eles se encontram: “o Alfa e o Ômega” (1:8, na boca de Deus), “o primeiro e o último” (1:17 e 2:8, na boca de Jesus), e, no último capítulo, os três aparecem juntos, aplicados a Jesus de uma vez: “Eu sou o Alfa e o Ômega, o Primeiro e o Último, o Princípio e o Fim” (22:13). O livro abre e fecha costurando a divindade de Jesus com os títulos do próprio Deus: exatamente o que estudamos no caderno 008.
✦5. Uma carta sem nenhuma crítica
Antes de seguirmos, repare numa marca rara desta carta: das sete igrejas, apenas duas não recebem nenhuma palavra de correção: Esmirna e Filadélfia. Nenhum “tenho, porém, contra ti”. Nada.
E repare em quais duas: justamente a igreja pobre e perseguida, e a igreja pequena e de “pouca força” (3:8). As duas igrejas que o mundo olharia com pena são as duas que atravessam a inspeção dAquele que tem olhos como chama de fogo… sem uma única repreensão. Isso já prepara o que vem no próximo versículo: os critérios de Jesus não são os critérios da cidade.
✦ Você sabia? A carta viva de Esmirna
A história de Esmirna com a fidelidade não terminou nesta carta. Uns quinze anos depois desta carta, por volta do ano 110, o bispo daquela mesma igreja já era Policarpo (Inácio, Carta a Policarpo, saudação): aquele que conhecemos no estudo dos nicolaítas, que, segundo Irineu, tinha convivido com o apóstolo João (Eusébio, História Eclesiástica 5.20.6).
Por volta do ano 155 ou 156, já muito velho, Policarpo foi preso em Esmirna e levado ao estádio. Pediram que ele dissesse “César é Senhor” e queimasse incenso; no estádio, que jurasse pela fortuna de César e amaldiçoasse Cristo (Martírio de Policarpo 8.2; 9.2-3). Ele recusou. Um documento antigo, o Martírio de Policarpo: um dos relatos de martírio mais antigos que existem fora do Novo Testamento, registra a resposta dele: havia oitenta e seis anos que servia a Cristo, e Cristo nunca lhe tinha feito mal algum; como poderia blasfemar do seu Rei? (Martírio de Policarpo 9.3)
A igreja que recebeu “sê fiel até a morte” (2:10) foi, décadas depois, o palco de uma das fidelidades até a morte mais lembradas da história. A carta não caiu no vazio: criou raiz.
✦6. O nome da cidade: Esmirna e a mirra
Há ainda uma curiosidade no próprio nome. Em grego, “smýrna” é a palavra para “mirra”: a mesma de Mateus 2:11 e João 19:39. Por que a cidade ganhou esse nome, ninguém sabe ao certo. A mirra é a resina perfumada que aparece em momentos marcantes da Bíblia: no óleo sagrado da unção (Êxodo 30:23), nos presentes dos magos ao menino Jesus (Mateus 2:11) e no sepultamento de Jesus, entre os aromas trazidos por Nicodemos (João 19:39). Presente no começo… e presente na morte.
E há uma característica da mirra que dá o que pensar: Plínio, o Velho, conta que a árvore da mirra recebia cortes na casca duas vezes por ano para soltar a resina (História Natural, livro 12, capítulo 35).
Uma observação de honestidade, como sempre: a Bíblia não faz essa ligação entre o nome da cidade e a igreja: o texto não diz isso. Mas é uma imagem que ajuda a entender o que vem pela frente nesta carta: uma igreja esmagada pela dor… que exalava fidelidade.
✦O que este versículo está me mostrando sobre Jesus?
Um Jesus que escolhe as palavras com um cuidado impressionante. Ele conhecia a história daquela cidade, sabia o que aquele povo carregava na memória, e escolheu se apresentar exatamente do jeito que aquela igreja precisava ouvir.
Um Jesus que é Deus eterno: o primeiro e o último, maior que qualquer império que ameaçava aquela gente.
E um Jesus que conhece a morte por dentro, e voltou dela, e por isso pode olhar para quem tem medo e dizer: Eu sei o que é. E não termina ali.
✦Aplicação para a minha vida
1. Jesus fala com você do jeito que você precisa ouvir. Ele não tem uma resposta genérica, decorada, para todo mundo. Do mesmo jeito que escolheu para Esmirna o título que fazia sentido para a história de Esmirna, Ele conhece a sua história, os seus medos, as suas ruínas, e sabe exatamente qual palavra você precisa escutar.
2. Se você está passando por algo que parece um fim, lembre de quem está falando. Quem diz “eu estive morto e tornei a viver” tem autoridade para falar sobre finais. Esmirna passou séculos como vila, e o melhor capítulo dela ainda estava por vir. Na história de Deus, o que parece o fim muitas vezes é o meio do caminho.
3. Repare no que Jesus NÃO prometeu. Ele não disse a Esmirna que nada de ruim aconteceria: Ele começou lembrando que Ele mesmo passou pela morte. Nem sempre a resposta de Deus é tirar a gente da situação. Às vezes é atravessar junto, como alguém que já conhece o caminho.
✦Resumo do estudo
- Segunda carta, mesma receita: “ao anjo da igreja em… escreve” + um título tirado da visão do capítulo 1, sempre sob medida.
- Esmirna: 50 km ao norte de Éfeso; a mais bonita da região; porto protegido; a colina que, para Ramsay, dava à cidade o aspecto de uma coroa (e a promessa da coroa vem em 2:10).
- A história decisiva: destruída pelos lídios por volta de 600 a.C., viveu séculos como vila (Estrabão fala em uns 400 anos; pelas datas de Ramsay, uns 300) e foi reconstruída e replanejada no tempo dos gregos. A cidade que morreu e voltou a viver.
- Jesus se apresenta à cidade que morreu e ressuscitou como Aquele que morreu e ressuscitou: falando a língua da identidade local.
- “O primeiro e o último” vem de Isaías 44:6 e 48:12, a assinatura do próprio Deus, e retoma 1:17-18, a cena do “não temas”.
- O título diz duas coisas juntas: Eu sou Deus eterno · Eu conheço a morte por dentro.
- Esmirna e Filadélfia são as únicas cartas sem nenhuma crítica.
- Por volta do ano 110, o bispo de Esmirna já era Policarpo, que, segundo Irineu, conviveu com João; décadas depois, ele foi fiel até a morte no estádio da cidade (Martírio de Policarpo, por volta de 155 ou 156).
- “Esmirna” ≈ “mirra”: a resina que se colhia com cortes na casca (Plínio), imagem (não afirmação do texto) da igreja esmagada que exalava fidelidade.
Para a cidade que morreu e voltou a viver, Jesus se apresenta:
“Eu estive morto e tornei a viver.” Ele fala com cada um na língua da sua história.
✦Versículos para ler junto
- Apocalipse 1:17-18: a primeira vez do título: “não temas; eu sou o primeiro e o último”.
- Isaías 44:6 e 48:12: “o primeiro e o último”: a assinatura de Deus.
- Apocalipse 1:8 e 22:13: o Alfa e o Ômega: os títulos se encontrando no fim do livro.
- Apocalipse 2:9-11: o restante da carta: a pobreza rica, o não temas e a coroa da vida.
- Apocalipse 3:7-13: Filadélfia: a outra carta sem crítica.
- Êxodo 30:23; Mateus 2:11; João 19:39: a mirra no óleo sagrado, no nascimento e no sepultamento.
- Hebreus 2:14-15: Ele participou da carne e do sangue para destruir o que tem o poder da morte e livrar os que dela tinham medo.
✦Para refletir
1. Que “ruína” da sua história parece definitiva? O que muda ao lembrar que Esmirna passou séculos como vila, e o melhor ainda estava por vir?
2. Se Jesus escolhesse hoje um título para se apresentar a você, sob medida para a sua história, como fez com Esmirna, qual seria?
3. Deus nem sempre tira a gente da situação; às vezes atravessa junto. Onde você tem pedido “tira-me daqui”, e talvez a resposta seja “Eu vou contigo”?
✦Minhas anotações sobre Apocalipse 2:8
O que Deus falou com você neste estudo? Escreva aqui. Não precisa ser bonito. Precisa ser verdadeiro.
✦Minha oração
Agora é a sua vez de falar com Deus. Se quiser, use esta oração como ponto de partida:
Ou escreva a sua própria oração:
✦No próximo estudo
Apocalipse 2:9: Conheço a tua pobreza… mas tu és rico
Jesus vai olhar para essa igreja pobre, perseguida, sofrendo… e vai dizer uma frase que parece não fazer sentido nenhum: “conheço a tua pobreza, mas tu és rico”. Pobre e rica ao mesmo tempo. Como? A gente descobre no próximo versículo.
Continue com a gente nesta caminhada de 404 dias.
E continue caminhando comigo, um versículo de cada vez.
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