Em Apocalipse 2:19 Jesus faz uma lista do que viu na igreja de Tiatira: obras, amor, fé, serviço e perseverança. E acrescenta que as últimas obras eram mais numerosas do que as primeiras, ou seja, aquela igreja estava fazendo mais agora do que no começo. O versículo começa com o verbo conheço, logo depois de Jesus ter dito, no versículo anterior, que tem os olhos como chama de fogo.
Duas coisas costumam confundir quem lê. A primeira: a ordem das palavras muda de uma Bíblia para outra. A ARA traz amor, fé, serviço; a ARC e a ACF trazem amor, serviço, fé. É diferença entre edições do texto grego, e não muda o sentido. A segunda: "mais numerosas" pode ser lido como quantidade, como qualidade, ou como as duas juntas, e comentaristas sérios defendem cada leitura.
E o elogio não é o fim da carta. No versículo seguinte vem "tenho, porém, contra ti". Em Tiatira as obras estavam aumentando e a tolerância a um ensino falso estava aumentando junto.
No versículo 18 Jesus se apresentou a Tiatira como o Filho de Deus, com olhos como chama de fogo e pés semelhantes ao bronze polido. Primeiro Ele mostrou os olhos. Agora, no 19, esses olhos falam. E a primeira coisa que dizem não é uma acusação.
"Conheço as tuas obras, o teu amor, a tua fé, o teu serviço, a tua perseverança e as tuas últimas obras, mais numerosas do que as primeiras."
APOCALIPSE 2:19 · Almeida Revista e Atualizada"Conheço": a palavra com que o versículo abre
O verbo é oîda, que significa saber. Não é "me contaram", não é "ouvi falar", não é "imagino". E ele está exatamente onde precisa estar: logo depois dos olhos como chama de fogo do versículo 18.
Isso tem dois lados, e os dois estão nesta mesma carta. Se Ele conhece, conhece o que está errado, e daqui a um versículo vai dizer isso com todas as letras. Mas se Ele conhece, conhece também o que ninguém percebeu. E é por aí que Ele começa.
Antes de corrigir Tiatira, Jesus reconhece Tiatira. A ordem importa.
Por que a sua Bíblia pode ter uma ordem diferente
Se você comparar duas Bíblias em português neste versículo, vai encontrar duas ordens de palavras.
A Almeida Revista e Atualizada traz: obras, amor, fé, serviço, perseverança. A Almeida Revista e Corrigida e a Almeida Corrigida Fiel trazem: obras, amor, serviço, fé, paciência. Serviço e fé trocam de lugar.
O motivo não é opinião de tradutor. Existem edições diferentes do texto grego. As edições modernas, que trabalham com os manuscritos mais antigos hoje conhecidos, trazem amor, fé, serviço. O Texto Recebido, usado nas Almeidas mais antigas, traz amor, serviço, fé. A ARA e a NVI seguem as primeiras; a ARC e a ACF seguem o segundo.
Nenhuma das duas ordens muda o que está sendo elogiado. As mesmas cinco coisas estão lá. O que muda é o desenho: na ordem da ARA, amor e fé ficam juntos de um lado e serviço e perseverança do outro, o que sugere duas raízes e dois frutos. O amor aparecendo por fora vira serviço; a fé aparecendo por fora vira perseverança.
As quatro palavras: amor, fé, serviço e perseverança
Amor é agápē. Nos dicionários gregos não é primeiro um sentimento que sobe, e sim uma escolha deliberada de querer o bem do outro. É a mesma palavra da carta a Éfeso, quando Jesus diz que aquela igreja abandonou o "primeiro amor".
Fé é pístis, e aqui existe uma escolha real de tradução. A palavra pode significar crer, no sentido de estar convencido, e também ser fiel, no sentido do caráter de quem se pode confiar. Os dois sentidos estão nos léxicos. Traduções modernas em inglês como a CSB escrevem diretamente "fidelidade"; o léxico de Thayer classifica esta ocorrência no sentido de crer.
Serviço é diakonía, a palavra de onde vem "diácono". No Novo Testamento ela descreve o atendimento concreto de quem precisa, inclusive a distribuição diária de comida às viúvas em Atos 6. Serviço é justamente o que quase nunca aparece: ninguém posta, ninguém agradece.
Perseverança é hypomonḗ, formada por hypó, "debaixo", e ménō, "permanecer". Literalmente, permanecer debaixo. O grego tem outra palavra que também vem traduzida por paciência, makrothymía, que é ser lento para irritar, a paciência com pessoas. Hypomonḗ é aguentar circunstâncias sem largar o peso. Em Apocalipse 2:19 a palavra é a segunda.
"Mais numerosas do que as primeiras": as três leituras
O versículo termina com pleíona, o comparativo da palavra grega que significa "muito" ou "muitos". A frase não tem verbo no original: o "são" é acrescentado pelo tradutor. E há três leituras defendidas por comentaristas sérios.
Quantidade. Eles faziam mais coisas agora do que antes. É a leitura que a ARA escolheu ao escrever "mais numerosas", e que o manual de tradução das Sociedades Bíblicas Unidas defende.
Qualidade. As obras de agora eram maiores em valor, não necessariamente em número. É a leitura do Pulpit Commentary, e é o que traduções como a NASB escrevem ao usar "maiores".
As duas juntas. O ponto é o crescimento, e número e valor andam juntos na frase. Ellicott fala em progresso; Gill escreve que eram "mais em quantidade e maiores em qualidade".
O que dá para afirmar com segurança é isto: se você está lendo a ARA, o versículo diz mais, e não melhor. Quem prega "maiores" ou "melhores" está lendo outra versão, e o honesto é dizer qual.
Existe ainda uma pista boa nessa forma de falar. A mesma estrutura aparece em outros lugares da Bíblia, quase sempre com o sinal invertido: "o último estado daquele homem torna-se pior do que o primeiro" (Mateus 12:45) e "tornou-se o seu último estado pior que o primeiro" (2 Pedro 2:20). Pelo lado bom ela aparece quando Boaz fala com Rute: "melhor fizeste a tua última benevolência que a primeira" (Rute 3:10).
Tiatira, a cidade das oficinas
A palavra que abre e fecha o versículo é érga, obras. E ela conversa de um jeito muito direto com a cidade.
Tiatira era conhecida pelas suas associações de ofício. As inscrições antigas encontradas ali documentam uma quantidade incomum delas (William Ramsay, The Letters to the Seven Churches of Asia, 1904; Colin Hemer, The Letters to the Seven Churches of Asia in Their Local Setting, 1986): trabalhadores de lã e de linho, fabricantes de roupas, tintureiros, curtidores, oleiros, padeiros, comerciantes e trabalhadores do bronze. Era uma cidade onde, todo dia, alguém fazia alguma coisa com as próprias mãos.
A Bíblia guarda o nome de uma pessoa dessa cidade:
"Certa mulher, chamada Lídia, da cidade de Tiatira, vendedora de púrpura, temente a Deus, nos escutava; o Senhor lhe abriu o coração para atender às coisas que Paulo dizia."
ATOS 16:14 · Almeida Revista e AtualizadaA púrpura do caracol do mar (o múrex) era o tingimento mais caro do mundo antigo. A Bíblia não diz como era tingida a púrpura que Lídia vendia. William Ramsay (1904), seguindo um estudioso francês, Clerc, achava que era um vermelho tirado da raiz da garança, mais barato que o do múrex; não há fonte antiga que diga isso de Tiatira. Ela estava em Filipos quando encontrou Paulo, mas era de Tiatira, e as inscrições da cidade mostram uma associação de tintureiros (segundo William Ramsay). Quando Jesus escreve "conheço as tuas obras" para Tiatira, Ele usa a palavra que aquela gente entendia melhor do que ninguém.
O contraste com Éfeso
Para entender o tamanho desse elogio é preciso lembrar da primeira das sete cartas. Éfeso trabalhava muito, e Jesus elogiou as obras, o esforço e a perseverança. Depois disse: "Tenho, porém, contra ti que abandonaste o teu primeiro amor" (Apocalipse 2:4). E mandou: "volta à prática das primeiras obras" (2:5).
Repare no verbo: voltar. Alguma coisa boa tinha ficado para trás. Repare também que Jesus não diz "sinta de novo o que sentia", e sim "faça de novo o que fazia".
Tiatira recebe o contrário. Não é "volta ao começo", é "as suas últimas obras são mais numerosas do que as primeiras". Uma igreja andou para trás; a outra andou para frente.
O contraste não é invenção moderna. O comentário de Cambridge escreve, ao pé do versículo, que a frase está "em contraste com Éfeso, Apocalipse 2:4". O Expositor's Greek Testament diz que, em vez de retroceder como Éfeso, Tiatira progrediu firmemente. Entre os expositores brasileiros, Hernandes Dias Lopes resume o par numa frase: ação sem zelo doutrinário, que é Tiatira, e zelo doutrinário sem ação, que é Éfeso, nenhum dos dois agrada a Jesus.
E há um detalhe fácil de passar batido: Jesus não compara Tiatira com Éfeso. Ele compara Tiatira com Tiatira. O começo dela e o agora dela.
O elogio não é o fim da carta
O versículo 19 é generoso. E ele não é o fim.
"Tenho, porém, contra ti o tolerares que essa mulher, Jezabel, que a si mesma se declara profetisa, não somente ensine, mas ainda seduza os meus servos a praticarem a prostituição e a comerem coisas sacrificadas aos ídolos."
APOCALIPSE 2:20 · Almeida Revista e AtualizadaAmor, fé, serviço, perseverança, crescimento. E logo depois, "tenho, porém, contra ti".
Isso desmonta uma conta que a gente faz sem perceber: a de que, se estou crescendo em algumas áreas, as outras estão automaticamente resolvidas. Em Tiatira as obras estavam aumentando e a tolerância a um ensino falso estava aumentando junto. As duas coisas cresceram ao mesmo tempo, na mesma igreja.
O que este versículo não está dizendo
Não está dizendo que crescer em obras compensa erro de doutrina ou de conduta. A própria carta prova o contrário no versículo seguinte.
Também não está tratando Tiatira como o símbolo de uma era da história da igreja. Essa leitura existe e é popular, mas o texto não a afirma: a carta foi escrita para uma igreja real, numa cidade real, com um problema concreto e datado.
E não está dizendo que "as últimas obras maiores que as primeiras" é uma promessa de crescimento de igreja, de prosperidade ou de virada de vida. É uma constatação que Jesus faz sobre uma comunidade específica, não uma garantia dada a quem lê.
Como aplicar isso hoje
A comparação cansa. A gente olha para a vida do outro e pensa: ele faz mais, ela sabe mais, ele cresceu mais. E sem perceber começa a medir a própria caminhada com a régua de outra pessoa.
Jesus não fez isso com Tiatira. Olhou o começo daquela igreja e olhou o agora dela. Talvez a pergunta certa não seja "eu sou melhor do que quem?", e sim eu estou melhor do que eu estava?
E se você olhar e achar que cresceu pouco, vale lembrar que pouco também é crescimento. Se hoje você segurou uma palavra que antes teria jogado na cara de alguém, isso é avanço. Se orou cinco minutos quando antes não orava, isso é avanço. Se caiu, mas levantou mais rápido do que da outra vez, alguma coisa está mudando.
Existe uma cena no Evangelho que mostra como Jesus mede. Diante do gazofilácio, no meio de gente rica depositando grandes quantias, Ele viu uma viúva pobre colocar duas pequenas moedas e disse que aquilo era mais do que tudo o que os outros tinham dado, porque eles deram do que sobrava e ela deu o que tinha para viver (Marcos 12:41-44). É o mesmo olhar de Apocalipse 2:19.
Perguntas frequentes
O que significa Apocalipse 2:19?
Em Apocalipse 2:19 Jesus faz uma lista do que viu na igreja de Tiatira: obras, amor, fé, serviço e perseverança. E acrescenta que as últimas obras eram mais numerosas do que as primeiras, ou seja, aquela igreja estava fazendo mais agora do que no começo. O versículo abre com o verbo grego oida, conheço, logo depois de Jesus ter dito, no versículo 18, que tem os olhos como chama de fogo.
Por que a ordem das palavras muda de uma Bíblia para outra em Apocalipse 2:19?
Porque existem edições diferentes do texto grego. As edições modernas, que trabalham com os manuscritos mais antigos hoje conhecidos, trazem amor, fé, serviço, e é o que a ARA e a NVI seguem. O Texto Recebido, usado nas Almeidas mais antigas, traz amor, serviço, fé, e é o que a ARC e a ACF seguem. Serviço e fé trocam de lugar, mas as mesmas cinco coisas continuam sendo elogiadas e o sentido do versículo não muda.
As últimas obras eram mais numerosas ou maiores?
Depende da leitura, e comentaristas sérios defendem três. A leitura de quantidade diz que eles faziam mais coisas do que antes, e é a que a ARA escolheu ao escrever mais numerosas; o manual de tradução das Sociedades Bíblicas Unidas a defende. A leitura de qualidade diz que as obras eram maiores em valor, e é a do Pulpit Commentary e de traduções como a NASB. A terceira não escolhe entre as duas e fala em crescimento, com número e valor juntos, como em Ellicott e Gill. O que é seguro: quem lê a ARA está lendo mais, e não melhor.
O que significa a palavra grega hypomone, traduzida por perseverança?
Hypomone é formada por hypo, que quer dizer debaixo, e meno, que quer dizer permanecer. Literalmente, permanecer debaixo. Não é esperar de braços cruzados: é continuar firme quando a situação não muda. O grego tem outra palavra também traduzida por paciência, makrothymia, que é ser lento para irritar, a paciência com pessoas que provocam. Em Apocalipse 2:19 a palavra é hypomone, o aguentar circunstâncias.
O que é a diakonia, o serviço elogiado em Apocalipse 2:19?
Diakonia é a palavra grega de onde vem diácono. No Novo Testamento ela descreve o atendimento concreto de quem precisa, inclusive a distribuição diária de comida às viúvas da igreja de Jerusalém, em Atos 6. Comentaristas do comentário dos Professores de Salamanca leem o serviço de Apocalipse 2:19 exatamente assim: assistência aos pobres.
Qual é o contraste entre Tiatira e Éfeso?
Éfeso trabalhava muito, mas tinha abandonado o primeiro amor, e Jesus mandou voltar à prática das primeiras obras (Apocalipse 2:4 e 2:5). Tiatira recebe o contrário: as últimas obras eram mais numerosas do que as primeiras. Uma igreja andou para trás, a outra andou para frente. O comentário de Cambridge e o Expositor's Greek Testament marcam esse contraste ao pé do versículo. E Jesus não compara Tiatira com Éfeso: compara Tiatira com o próprio passado dela.
Tiatira era uma igreja aprovada por Jesus?
O elogio do versículo 19 é real, mas não é o fim da carta. No versículo 20 vem o tenho, porém, contra ti, sobre a tolerância ao ensino de uma mulher que Jesus chama de Jezabel. Em Tiatira as obras estavam aumentando e a tolerância a um ensino falso estava aumentando junto, na mesma igreja e ao mesmo tempo.
Como era a cidade de Tiatira?
Tiatira ficava na Ásia Menor, região que hoje faz parte da Turquia, a sudeste de Pérgamo e ao norte de Sardes. Era conhecida pelas suas associações de ofício: as inscrições antigas encontradas ali (reunidas por William Ramsay, 1904, e Colin Hemer, 1986) documentam trabalhadores de lã e de linho, fabricantes de roupas, tintureiros, curtidores, oleiros, padeiros, comerciantes e trabalhadores do bronze. Lídia, a vendedora de púrpura de Atos 16:14, era de Tiatira.
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