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Caderno de Estudos · Estudo nº 029 · 404 versículos em 404 dias

Estudo de Apocalipse 2:9: caderno completo e PDF grátis

Leia primeiro. Assista depois. Guarde para sempre.

✦Onde paramos

No último estudo, conhecemos Esmirna: a cidade que foi destruída, viveu séculos como vila… e depois foi reconstruída. A cidade que morreu e voltou a viver. E vimos que Jesus se apresentou para ela exatamente assim: “o primeiro e o último, que esteve morto e tornou a viver”.

Hoje, Jesus vai dizer o que Ele enxerga nessa igreja. E vai dizer uma frase que, à primeira vista, não faz sentido nenhum: chamar de rica a igreja mais pobre das sete. Para entender, este caderno vai abrir três portas: a pressão que aquela igreja sofria, o porquê da miséria dela, incluindo a situação legal dos cristãos dentro do império romano, e o critério de riqueza que Jesus usa.

✦Como usar este caderno

Este caderno é para todo mundo: para quem nunca estudou o Apocalipse, para quem sempre quis entender e achou difícil, e para quem já conhece o livro e quer ir mais fundo. Você não precisa saber nada antes de começar.

  1. Ore. Faça a oração de abertura ou converse com Deus com as suas palavras.
  2. Leia o versículo. Devagar, duas vezes. Se puder, em voz alta.
  3. Estude. Sublinhe, marque e escreva nas margens. Este caderno é seu.
  4. Anote. No fim há uma página reservada para o que Deus falou com você.
  5. Ore novamente. Termine conversando com Deus sobre o que aprendeu.

✦Oração de abertura

Senhor Jesus, Tu conheces a minha tribulação, não de forma genérica: pelo nome. Ensina-me hoje a medir riqueza com a Tua régua, e guarda a minha boca de toda fala que acusa. Em teu nome, amém.

✦O versículo de hoje

Apocalipse 2:9
“Conheço a tua tribulação, a tua pobreza (mas tu és rico) e a blasfêmia dos que a si mesmos se declaram judeus e não são, sendo, antes, sinagoga de Satanás.”
Almeida Revista e Atualizada (ARA)

Três partes, a tribulação, a pobreza que é riqueza, e a acusação, e cada uma precisa de contexto. Vamos devagar.

✦ Palavras que ajudam a entender

✦1. “Conheço”: a primeira palavra para quem sofre

O versículo começa com uma palavra que já apareceu na carta de Éfeso: “conheço”. Jesus não diz “ouvi falar”, não diz “me contaram”. Ele diz: eu conheço: o saber de quem estava lá, de quem anda no meio dos candeeiros.

E repare no que Ele conhece. Não são as estatísticas daquela igreja, nem o tamanho dela. É a dor dela. O primeiro comentário de Jesus sobre essa igreja sofrida é dizer que Ele está vendo o sofrimento. Antes de qualquer instrução, antes de qualquer promessa, Ele valida o que aquela gente está passando.

Guarde isso, porque diz muito sobre como Deus trata quem sofre: às vezes, antes de qualquer solução, a pessoa precisa só de alguém que enxergue.

✦2. “A tua tribulação”: a pressão que tinha nome e endereço

A palavra traduzida por “tribulação” é thlípsis, e ela carrega a ideia física de pressão, esmagamento. Era a palavra do peso que espreme, como a prensa que esmaga a uva. Não é um aborrecimento; é ser espremido por todos os lados.

E, no caso de Esmirna, essa pressão era bem concreta. Esmirna era uma cidade profundamente leal a Roma, não por obrigação: por escolha, e com orgulho. Séculos antes, quando Roma ainda estava crescendo, Esmirna já tinha se aliado a ela, e chegou a construir um templo dedicado à própria cidade de Roma antes de quase qualquer outra cidade da região (segundo o historiador romano Tácito, Esmirna se gabava de ter feito o primeiro templo à cidade de Roma, no ano 195 a.C.: Anais 4.56). E, no tempo do Novo Testamento, Esmirna tinha também um templo dedicado ao culto do imperador (no ano 26, Esmirna venceu outras cidades da Ásia e ganhou o direito de construir um templo ao imperador Tibério, à mãe dele e ao senado: Tácito, Anais 4.55-56). Ser de Esmirna era ser leal ao imperador: fazia parte da identidade da cidade.

Agora pense no cristão que morava ali. Numa cidade que se orgulhava do templo ao imperador, o cristão dizia: “Jesus é o Senhor” (Romanos 10:9). Décadas depois, em Esmirna mesmo, pediram a Policarpo que dissesse “César é Senhor” (Martírio de Policarpo 8.2). Uma frase curta, e perigosa. Não era lida como diferença de religião: era lida como deslealdade à cidade e ao império. É essa a pressão que Jesus está chamando de tribulação.

✦3. “A tua pobreza”: a palavra mais forte que existia

Aqui há um detalhe de linguagem que vale a pena conhecer. No grego, existiam duas palavras diferentes para “pobre”. Uma, pénēs, descrevia a pessoa simples: trabalhava, tinha o suficiente para viver, mas nada sobrando. A outra, ptōchós, descrevia quem não tinha absolutamente nada: quem dependia totalmente dos outros para sobreviver. É a palavra do mendigo Lázaro, à porta do rico (Lucas 16:20).

A palavra usada aqui é a segunda. A mais forte. A igreja de Esmirna não era só apertada: era miserável.

Como uma igreja ficou miserável numa cidade tão rica?

Existem razões bem concretas, e elas se somavam:

Junte as três coisas e você entende por que Jesus usa a palavra mais forte que existia.

✦4. “…mas tu és rico”: a frase que vira a régua

E aí vem a frase que parece não fazer sentido. Logo depois de dizer “conheço a tua pobreza”, Jesus abre um parêntese e diz: “mas tu és rico”.

Aos olhos da cidade, aquela igreja não tinha nada: nem dinheiro, nem prestígio, nem segurança, nem futuro. Aos olhos de Jesus, aquela igreja era rica. E repare no tempo do verbo: Ele não disse “você vai ser rico um dia”. Disse “você é rico”. Agora. No meio da miséria.

Rica em quê? A própria Bíblia responde: rica na fé: “não escolheu Deus os que para o mundo são pobres, para serem ricos na fé e herdeiros do reino?” (Tiago 2:5); rica num tesouro que ladrão não rouba e traça não corrói (Mateus 6:19-20); rica numa herança incorruptível, guardada nos céus (1 Pedro 1:4). Paulo resumiu o paradoxo numa frase que parece escrita para Esmirna: “como pobres, mas enriquecendo a muitos; como nada tendo, mas possuindo tudo” (2 Coríntios 6:10).

✦ Os espelhos invertidos: Esmirna e Laodiceia

Guarde este contraste, porque ele é um dos desenhos mais impressionantes das sete cartas. Daqui a algumas cartas, no capítulo 3, Jesus vai falar com outra igreja, de outra cidade, rica, orgulhosa da própria prosperidade, e vai dizer o inverso exato:

“Pois dizes: Estou rico e abastado e não preciso de coisa alguma; e nem sabes que tu és infeliz, sim, miserável, pobre, cego e nu.” (Apocalipse 3:17)

Duas igrejas, espelhos invertidos: uma pobre que é rica; outra rica que é pobre. E repare que Laodiceia recebe a palavra pobre: no grego, ptōchós, a mesma família da pobreza de Esmirna. O que decide não é o saldo da conta: é o que existe de verdade quando se tira tudo o mais.

Jesus não mede riqueza pelo que a cidade vê.
Ele mede pelo que sobra quando tudo o mais é tirado.

✦5. A terceira parte, e o cuidado que ela exige

Jesus diz: “e a blasfêmia dos que a si mesmos se declaram judeus e não são, sendo, antes, sinagoga de Satanás”. Essa frase precisa de muito cuidado para ser entendida do jeito certo, porque, historicamente, ela já foi usada de um jeito muito errado.

Primeiro, o que ela NÃO é

Jesus não está falando contra o povo judeu. Isso seria impossível, por uma razão simples: Jesus é judeu. Maria era judia. Os doze apóstolos eram judeus. João, que escreveu este livro, era judeu. Os primeiros cristãos eram judeus. Não existe leitura honesta desse texto que transforme essa frase em condenação de um povo.

E há até um eco de algo que Paulo, judeu, fariseu formado, já tinha escrito: “não é judeu quem o é apenas exteriormente… porém judeu é aquele que o é interiormente” (Romanos 2:28-29). A discussão sobre o que torna alguém verdadeiramente parte do povo de Deus era uma conversa de dentro, entre judeus: nunca um ataque de fora.

Então do que Ele está falando?

De um grupo específico, naquela cidade específica. O versículo diz “blasfêmia”; a leitura mais comum dos estudiosos é que esse grupo estava acusando os cristãos diante das autoridades, e o que aconteceu depois em Esmirna combina com isso (Martírio de Policarpo 12.2 e 13.1). E para entender a gravidade disso, é preciso conhecer a situação legal dos cristãos no império romano: exatamente a porta que este caderno prometeu abrir.

✦ Para ir mais fundo: a proteção legal que os cristãos teriam perdido

Há uma reconstrução que explica assim, e é reconstrução, não documento: no império romano, o judaísmo teria um reconhecimento legal. Por causa da antiguidade da religião e dos acordos firmados ao longo do tempo, os judeus tinham uma permissão oficial rara: podiam não participar do culto ao imperador. Os estudiosos discutem se isso era uma lei geral ou acordos feitos cidade por cidade.

E, no começo, os cristãos eram vistos pelas autoridades como um grupo dentro do judaísmo: afinal, os primeiros cristãos eram judeus, liam as mesmas Escrituras, frequentavam as mesmas sinagogas. Ou seja: estavam debaixo da mesma proteção.

Mas, com o tempo, os cristãos foram sendo separados das sinagogas. Se essa reconstrução estiver certa, quando a separação acontecia, os cristãos perdiam essa proteção, e qualquer pessoa podia apontá-los às autoridades e dizer: “esses não são judeus; esses não têm direito à exceção; e esses se recusam a honrar o imperador”.

Uma denúncia dessas podia acabar em prisão. Em confisco de bens. E, em alguns casos, em morte. Numa cidade como Esmirna, orgulhosamente leal ao imperador, era o tipo de acusação que encontrava ouvidos com facilidade.

Por que “blasfêmia” e por que “sinagoga de Satanás”

Agora as duas expressões duras do versículo se explicam. “Blasfêmia”, aqui, tem o sentido de fala que difama, que calunia, que destrói a reputação de alguém. Não era discussão teológica: era denúncia com consequência real, liberdade, bens e vida em jogo.

E “sinagoga de Satanás” aponta exatamente para isso. Porque o nome “Satanás” quer dizer, na origem, “acusador”, “adversário”: é assim que ele aparece na Bíblia: acusando Jó diante de Deus (Jó 1:9-11), acusando o sumo sacerdote Josué (Zacarias 3:1), e no próprio Apocalipse ele é chamado de “o acusador de nossos irmãos, o mesmo que os acusa de dia e de noite” (Apocalipse 12:10).

Quem entrega irmão para morrer não está fazendo a obra de Deus.
Está fazendo a obra do acusador.
Não importa o nome que o grupo carrega: importa de quem é o trabalho que está sendo feito.

Uma observação honesta para fechar esta parte: décadas depois, quando Policarpo, o bispo de Esmirna que conhecemos no estudo dos nicolaítas, foi levado ao estádio, o relato antigo do martírio conta que a multidão de Esmirna, de pagãos e de judeus da cidade, gritou contra ele, e que a multidão juntou lenha, com judeus ajudando (Martírio de Policarpo 12.2 e 13.1). É o relato de uma parte de uma cidade, numa época, e não de um povo inteiro; os estudiosos também apontam que o documento tem tom de polêmica contra judeus. A pressão descrita neste versículo não era só retórica: décadas depois, ela ainda estava lá.

✦O que este versículo está me mostrando sobre Jesus?

Um Jesus que vê o sofrimento antes de dizer qualquer outra coisa. A primeira palavra para a igreja que sofre é “conheço”.

Um Jesus que avalia a riqueza por outro critério, e que consegue olhar para alguém que perdeu tudo e dizer “você é rico”. No presente.

E um Jesus que sabe exatamente o nome e o endereço da pressão que o Seu povo sofre. Ele não fala por cima. Fala de dentro da situação.

✦Aplicação para a minha vida

1. Deus conhece a sua tribulação, não de forma genérica. Talvez você esteja passando por algo que ninguém ao seu redor percebe, ou que ninguém leva a sério. Jesus começou esta carta dizendo exatamente “eu conheço”. Às vezes, antes de qualquer solução, a gente precisa só de alguém que enxergue. Ele enxerga.

2. Cuidado com a régua que você usa para medir o seu valor. A igreja mais pobre das sete foi chamada de rica; a mais rica vai ser chamada de pobre. O que você tem não é o que você é. Se a sua régua anda sendo o saldo, o cargo ou o número de seguidores, este versículo é um convite para trocar de régua.

3. Repare no tipo de fala que Jesus condena aqui. A fala que acusa, que difama, que expõe o outro ao perigo. Vale a pergunta, sem pressa: nas minhas conversas, nos meus comentários, nas minhas mensagens… eu tenho sido alguém que constrói, ou alguém que acusa? Porque o versículo mostra de quem é a obra da acusação.

✦Resumo do estudo

PARA GUARDAR NO CORAÇÃO

Aos olhos da cidade, nada. Aos olhos de Jesus, rica: agora.
O que você tem não é o que você é.

✦Versículos para ler junto

✦Para refletir

1. Qual é a tribulação que ninguém ao seu redor percebe, e o que muda ao ouvir o “conheço” de Jesus sobre ela?

2. Com que régua você tem medido o seu valor? O que sobraria de você se tirassem tudo o mais, e o que isso revela?

3. Nas suas conversas e mensagens desta semana, houve mais construção ou mais acusação? O que precisa mudar?

✦Minhas anotações sobre Apocalipse 2:9

O que Deus falou com você neste estudo? Escreva aqui. Não precisa ser bonito. Precisa ser verdadeiro.

✦Minha oração

Agora é a sua vez de falar com Deus. Se quiser, use esta oração como ponto de partida:

Senhor Jesus, obrigada porque Tu vês a minha dor antes de qualquer outra coisa, e porque a Tua régua não é a da cidade. Faz-me rica do que não se confisca: fé, esperança, amor. E guarda os meus lábios de toda obra do acusador: que a minha fala construa, nunca entregue. Amém.

Ou escreva a sua própria oração:

✦No próximo estudo

Apocalipse 2:10: Não temas: a coroa da vida

Jesus vai dizer a essa igreja perseguida duas palavras que Ele já disse a João lá no capítulo 1: “não temas”. E vai avisar que vem coisa pela frente: prisão, provação e um prazo curioso, de dez dias. E, no fim, uma promessa: a coroa da vida. Lembra da coroa de Esmirna, aquela que Ramsay via no monte Pagos? Então.

Continue com a gente nesta caminhada de 404 dias.

✦
Continue lendo. Continue perguntando.
E continue caminhando comigo, um versículo de cada vez.
@entrerevelacoes · entrerevelacoes.com.br

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