✦Onde paramos
A carta a Esmirna terminou. Uma igreja pobre, perseguida e assustada ouviu de Jesus “não temas”, “sê fiel até à morte” e a promessa de que a segunda morte não alcança o vencedor. Quatro versículos inteiros (2:8-11) dedicados a uma comunidade que, aos olhos da cidade, não tinha nada.
Hoje começa a terceira das sete cartas. E a mudança de cenário não podia ser maior. Saímos de uma igreja ameaçada pela morte e entramos numa cidade que era, ela mesma, um centro de poder: Pérgamo.
E antes de dizer uma única palavra sobre o que estava acontecendo naquela igreja, Jesus se apresenta. Como sempre. Só que desta vez Ele escolhe uma imagem que a cidade entenderia na hora, e que nós, dois mil anos depois, corremos o risco de ler rápido demais:
Uma espada. Afiada. E de dois gumes. Por quê?
Neste caderno vamos até o fundo dessa imagem: a cidade que a recebeu, a palavra grega que João escolheu (e a que ele não escolheu), o que “de dois gumes” significa de verdade no original, e por onde essa espada atravessa o Apocalipse inteiro, do capítulo 1 ao 19.
E, como sempre, com uma regra do começo ao fim: separar o que o texto afirma do que já é interpretação.
✦Como usar este caderno
Este caderno é para todo mundo: para quem nunca estudou o Apocalipse, para quem sempre quis entender e achou difícil, e para quem já conhece o livro e quer ir mais fundo. Você não precisa saber nada antes de começar: cada nome, cada palavra e cada texto vêm explicados e transcritos.
- Ore. Faça a oração de abertura ou converse com Deus com as suas palavras.
- Leia o versículo. Devagar, duas vezes. Se puder, em voz alta.
- Estude. Sublinhe, marque e escreva nas margens. Este caderno é seu.
- Anote. No fim há uma página reservada para o que Deus falou com você.
- Ore novamente. Termine conversando com Deus sobre o que aprendeu.
Uma observação sobre este estudo: ele tem uma parte de grego mais detalhada do que o normal, porque o versículo inteiro depende de três palavras do original. Nada disso exige que você saiba grego: cada palavra vem transliterada, traduzida e explicada. Se quiser, leia essa parte duas vezes: ela é a chave do versículo.
✦Oração de abertura
✦O versículo de hoje
O versículo tem três partes: um destinatário, uma fórmula de anúncio e um retrato. E o retrato é feito de três palavras gregas que valem um estudo inteiro.
✦ O texto grego, palavra por palavra
Καὶ τῷ ἀγγέλῳ τῆς ἐν Περγάμῳ ἐκκλησίας γράψον· Τάδε λέγει ὁ ἔχων τὴν ῥομφαίαν τὴν δίστομον τὴν ὀξεῖαν
- τῷ ἀγγέλῳ (tō angélō): “ao anjo”, isto é, ao mensageiro da igreja. A mesma abertura das outras seis cartas.
- Τάδε λέγει (táde légei): “estas coisas diz”. Não é uma expressão qualquer: é a fórmula com que a Bíblia grega traduz o “assim diz o Senhor” dos profetas. Quem abre a carta abre como Deus abre.
- ὁ ἔχων (ho échōn): “aquele que tem”. Particípio: não “que teve” nem “que terá”. Tem.
- τὴν ῥομφαίαν (tēn rhomphaían): a espada. E é aqui que começa o estudo de hoje: existiam duas palavras para “espada”, e João escolheu esta.
- τὴν δίστομον (tēn dístomon): traduzido “de dois gumes”. Literalmente: “de duas bocas”.
- τὴν ὀξεῖαν (tēn oxeîan): “afiada”, aguda, cortante.
Repare no ritmo: a espada, a de duas bocas, a afiada. Três artigos, três atributos, um depois do outro, como quem lê um decreto em voz alta.
✦1. Pérgamo: a cidade que sabia o que era autoridade
Para entender por que Jesus escolheu essa imagem para essa igreja, é preciso conhecer a cidade.
Pérgamo ficava na Ásia Menor, na região que hoje é a Turquia: perto da atual cidade de Bergama. Quando João escreveu o Apocalipse, no fim do primeiro século (segundo Irineu, no fim do reinado de Domiciano: Contra as Heresias 5.30.3), ela já tinha uma longa história de poder atrás de si.
De capital de reino a província de Roma
Antes de Roma, Pérgamo foi a capital de um reino próprio, governado pela dinastia dos Atálidas. Em 133 a.C., o último rei, Átalo III, morreu e, como conta o geógrafo Estrabão, deixou os romanos como herdeiros (Geografia 13.4.2). Foi desse território que Roma organizou a província da Ásia.
Ou seja: Pérgamo não “virou” romana aos poucos. Ela foi entregue. E continuou sendo, dentro do sistema romano, um centro político e administrativo de primeira ordem.
✦ Uma honestidade necessária
O pesquisador William Ramsay (1904) achava que Pérgamo devia ser a capital oficial da província da Ásia, e ele mesmo reconhece que nenhum autor antigo diz isso. O historiador francês Victor Chapot, no mesmo ano, defendia que a capital romana, de fato, era Éfeso: o grande porto e o centro comercial da região. E o geógrafo Estrabão, que escreveu no tempo de Jesus, só diz que Pérgamo tinha “uma certa liderança” sobre aquela região (Geografia 13.4.1).
Ramsay acrescenta que, por ser capital, Pérgamo seria o centro do culto ao imperador (leitura dele).
O que ninguém discute, e é só disso que o nosso versículo precisa: é que Pérgamo era uma sede reconhecida da autoridade romana na Ásia. É esse o fundo da carta. Onde há divergência entre historiadores, este caderno mostra a divergência em vez de escolher um lado e esconder o outro.
A cidade que se via de longe
A parte mais famosa de Pérgamo ficava no alto de uma elevação enorme, centenas de metros acima da planície. Lá em cima havia templos, edifícios públicos, monumentos, a biblioteca que os reis de Pérgamo encheram de livros (Estrabão, Geografia 13.4.2 e 13.1.54), e um teatro construído na encosta, com uma inclinação impressionante.
Imagine alguém chegando pela estrada e levantando os olhos. A cidade se erguia sobre a paisagem. Pérgamo não precisava explicar o que era: bastava ser vista.
Quando você pensa em Pérgamo, pense em autoridade.
✦2. No mundo romano, a espada era o símbolo do poder de matar
Aqui está uma ponte entre a cidade e o versículo que o pesquisador William Ramsay propôs, e ela é jurídica. O próprio Ramsay admite que nenhum autor antigo, fora o Apocalipse, liga Pérgamo a esse poder.
As autoridades romanas de uma província tinham poder para julgar e aplicar punições. Em certas circunstâncias, isso incluía a pena de morte. E o objeto que representava esse poder, na linguagem comum e na linguagem oficial, era a espada. Os juristas romanos chamavam essa competência de ius gladii: literalmente, “o direito da espada”. W. M. Ramsay liga a espada de Pérgamo a esse direito do procônsul.
Isso não é uma leitura devocional: está dentro do próprio Novo Testamento, escrito por Paulo a cristãos que moravam na capital do Império.
“Não é sem motivo que ela traz a espada.” Quem lia isso no primeiro século entendia sem precisar de nota de rodapé: a autoridade carrega a espada porque pode usá-la.
Agora pense num cristão morando em Pérgamo. Ele olha ao redor e vê o poder do Império, as autoridades, os grandes templos, todo aquele sistema religioso e político. E sabe, de um jeito bem concreto, que Roma tem poder sobre a vida das pessoas.
E aí chega uma carta. E a primeira coisa que Jesus diz sobre si mesmo é: “aquele que tem a espada afiada de dois gumes”.
A carta começa respondendo: “A espada está comigo.”
✦3. O grego tinha duas espadas, e João escolheu a maior
Esta é a parte mais importante do estudo de hoje, e é a que quase nunca aparece nas pregações sobre Pérgamo.
Quando o Novo Testamento fala em “espada”, ele usa duas palavras diferentes. Elas não são sinônimas. Descrevem armas de tamanho, formato e função diferentes, e os autores sabiam disso.
✦ μάχαιρα e ῥομφαία, lado a lado
- μάχαιρα (máchaira): a espada curta, do tipo faca ou punhal, arma comum de cinto. Era o que soldados, autoridades e gente comum carregavam no dia a dia. Thayer registra expressamente que ela é “distinguida da espada grande, a ῥομφαία”.
- ῥομφαία (rhomphaía): a espada grande. Thayer: “uma espada grande; propriamente, um longo dardo trácio… também um tipo de espada longa, normalmente carregada sobre o ombro direito”. Strong a define como “um sabre, isto é, um alfanje longo e largo”. É arma de campo aberto, de dois braços, de gesto amplo, não de cinto.
Onde cada uma aparece
Olhe onde o Novo Testamento coloca a máchaira, a espada curta do cotidiano:
- Romanos 13:4: a espada que a autoridade “traz”. O poder de julgar e punir.
- Efésios 6:17: “a espada do Espírito, que é a palavra de Deus”. A arma do cristão na armadura.
- Hebreus 4:12: “mais cortante do que qualquer espada de dois gumes”. A comparação clássica da Palavra.
E agora olhe onde está a rhomphaía, a espada grande. Ela aparece sete vezes em todo o Novo Testamento, e seis delas estão no Apocalipse:
✦ As sete ῥομφαίαι do Novo Testamento
- Lucas 2:35: Simeão, com o bebê Jesus no colo, diz a Maria: “(e uma espada traspassará a tua própria alma)”. A única fora do Apocalipse, e não é sobre guerra, é sobre dor.
- Apocalipse 1:16: a espada que sai da boca do Cristo glorificado.
- Apocalipse 2:12: a apresentação de hoje, a Pérgamo.
- Apocalipse 2:16: a mesma carta, catorze versículos depois: “pelejarei com a espada da minha boca”.
- Apocalipse 6:8: entre os juízos que vêm sobre a terra no quarto selo.
- Apocalipse 19:15: a espada que sai da boca do Cavaleiro fiel e verdadeiro.
- Apocalipse 19:21, e a espada com que o julgamento das nações se cumpre.
Repare no que isso significa. Quando João quer falar da autoridade do Cristo, ele não usa a espada de cinto do soldado romano. Ele usa a espada grande: a que não cabe na cintura de ninguém.
Uma nota de honestidade sobre “de dois gumes”
Aqui é preciso ter cuidado, e este caderno vai ter.
Não encontrei nas fontes lidas a forma exata da lâmina da rhomphaía. O que se vê no texto é que “de dois gumes” é um adjetivo que João escolheu acrescentar.
Ou seja: o texto não está descrevendo uma peça de museu. Está construindo uma imagem. E é justamente aí que a coisa fica interessante, porque o adjetivo escolhido é ainda mais surpreendente do que o substantivo.
O adjetivo é a chave do que ela significa.
Lado a lado: W. M. Ramsay entende que a imagem é a espada romana de dois gumes, a do exército, e por isso a liga ao poder de vida e morte do procônsul (The Letters to the Seven Churches of Asia, cap. sobre Pérgamo). Outros chamam atenção para a escolha da palavra rhomphaía, que, como o próprio Ramsay lembra, era na origem um nome trácio.
E antes de sair do grego antigo: onde essa palavra já estava
A rhomphaía não nasce no Apocalipse. Ela é uma das palavras mais usadas para “espada” na Septuaginta: a tradução grega do Antigo Testamento, que era a Bíblia lida nas sinagogas de língua grega e é de onde o Novo Testamento cita a maior parte do tempo. Thayer observa que ela traduz “muito frequentemente” o hebraico chereb, a palavra comum para espada.
E há um lugar em que ela aparece que vai fazer você lembrar de um estudo bem recente nosso:
✦ A primeira espada da Bíblia
Gênesis 3:24: “E, expulso o homem, colocou querubins ao oriente do jardim do Éden e o refulgir de uma espada que se revolvia, para guardar o caminho da árvore da vida.”
No grego da Septuaginta: καὶ ἔταξεν τὰ χερουβιμ καὶ τὴν φλογίνην ῥομφαίαν τὴν στρεφομένην φυλάσσειν τὴν ὁδὸν τοῦ ξύλου τῆς ζωῆς: “e pôs os querubins e a rhomphaía flamejante que se revolvia, para guardar o caminho da árvore da vida”.
É a mesma palavra. A espada que guarda o caminho da árvore da vida em Gênesis 3 é uma rhomphaía. E foi exatamente da árvore da vida que Jesus falou cinco versículos atrás, no fim da carta a Éfeso: “Ao vencedor, dar-lhe-ei que se alimente da árvore da vida que se encontra no paraíso de Deus” (Apocalipse 2:7).
Onde este caderno para: o texto de Apocalipse 2:12 não diz que Jesus está segurando a espada do Éden, e não vamos dizer isso por ele. O que se pode afirmar com segurança é mais simples e já é muito: a palavra é a mesma, e ela carrega, desde a primeira página da Bíblia, a ideia de uma espada que guarda um caminho, não a de um facão de rua.
✦4. “De dois gumes”, no original, é “de duas bocas”
A palavra grega é δίστομος (dístomos). Ela é formada por duas peças:
- δίς (dís): “duas vezes”, “duplo”.
- στόμα (stóma): “boca”.
Literalmente, portanto: “de duas bocas”. Thayer registra assim: “tendo boca dupla… como στόμα se usa para o fio de uma espada e de outras armas, δίστομος tem o sentido de dois gumes”. Em grego, o fio da lâmina era chamado de “boca”: a espada “come”, “devora”. A imagem é antiga e o hebraico faz o mesmo (uma espada “de duas bocas”).
Até aqui é vocabulário. Agora vem o detalhe que muda a leitura.
✦ A frase em que a palavra “boca” aparece duas vezes
Apocalipse 1:16: “Tinha na sua mão direita sete estrelas, e da sua boca saía uma afiada espada de dois gumes. O seu rosto brilhava como o sol na sua força.”
No grego: καὶ ἐκ τοῦ στόματος αὐτοῦ ῥομφαία δίστομος ὀξεῖα ἐκπορευομένη.
Leia devagar: στόματος (“boca”: a boca de Jesus) e δίστομος (“de duas bocas”: a espada). A mesma raiz, duas vezes, na mesma respiração.
Uma espada de duas bocas… saindo da boca dele.
Isso resolve, de uma vez, a pergunta mais comum sobre esse versículo: não estamos diante de um Jesus fardado, com uma arma na mão. A espada sai da boca. Ela está ligada ao que Ele fala. À sua palavra. À sua autoridade. Ao seu julgamento.
A mesma imagem, mais antiga que o Apocalipse
João não inventou a figura da boca-espada. Ela já estava nos profetas, e vale ver o grego lá também, porque a escolha de palavra é diferente:
Na Septuaginta: καὶ ἔθηκεν τὸ στόμα μου ὡσεὶ μάχαιραν ὀξεῖαν: “e pôs a minha boca como uma máchaira afiada”. Em Isaías, a boca do Servo é comparada à espada curta. No Apocalipse, a boca do Cristo tem a espada grande.
E o adjetivo “afiada” (ὀξεῖα) é o mesmo nos dois textos.
E Hebreus? A mesma palavra, outra espada
No grego: τομώτερος ὑπὲρ πᾶσαν μάχαιραν δίστομον: “mais cortante do que qualquer máchaira de duas bocas”.
Repare na precisão. O adjetivo dístomos aparece apenas três vezes em todo o Novo Testamento: aqui em Hebreus 4:12, em Apocalipse 1:16 e em Apocalipse 2:12. Ou seja: das três vezes em que o Novo Testamento fala de uma espada “de duas bocas”, duas são a espada da boca de Cristo e a outra é a palavra de Deus.
E o substantivo muda: Hebreus escolhe a espada curta, João escolhe a grande. O adjetivo viaja; a arma, não.
O Apocalipse diz: a espada é a palavra, e sai da boca dele.
E “afiada”
A terceira palavra é ὀξεῖα (oxeîa): aguda, cortante, penetrante. Em grego ela também podia descrever rapidez: algo agudo e veloz. Não é uma espada de cerimônia, dessas que ficam penduradas na parede. Não é uma espada cega. Ela corta.
✦5. Por onde essa espada atravessa o Apocalipse
Uma das coisas mais bonitas do Apocalipse é que ele não gasta imagens. Ele planta e volta. A espada é um exemplo perfeito, e agora que você sabe qual é a palavra grega, dá para seguir o rastro dela com precisão.
✦ O rastro da ῥομφαία no livro
Apocalipse 1:16: “Tinha na sua mão direita sete estrelas, e da sua boca saía uma afiada espada de dois gumes. O seu rosto brilhava como o sol na sua força.”
A visão inaugural. A espada aparece pela primeira vez, e já sai da boca.
Apocalipse 2:12: “Ao anjo da igreja em Pérgamo escreve: Estas coisas diz aquele que tem a espada afiada de dois gumes:”
A carta de hoje. Jesus escolhe, do retrato do capítulo 1, exatamente o traço de que aquela cidade precisava.
Apocalipse 2:16: “Arrepende-te, pois; ou, se não, venho a ti sem demora e contra eles pelejarei com a espada da minha boca.”
Catorze versículos depois, na mesma carta, e agora dirigida ao que estava errado dentro da igreja.
Apocalipse 6:8: “…e foi-lhes dada autoridade sobre a quarta parte da terra para matar à espada, pela fome, com a mortandade e por meio das feras da terra.”
Entre os juízos do quarto selo.
Apocalipse 19:15: “Sai da sua boca uma espada afiada, para com ela ferir as nações; e ele mesmo as regerá com cetro de ferro…”
O Cavaleiro fiel e verdadeiro. De novo: sai da boca.
Apocalipse 19:21: “Os restantes foram mortos com a espada que saía da boca daquele que estava montado no cavalo…”
O fim do caminho que começou no capítulo 1.
Agora junte os pontos e olhe o desenho:
Pérgamo não tinha a palavra final.
As nações não terão a palavra final.
A palavra final pertence a Jesus.
✦6. Uma espada que alcança os dois lados
Aqui vem o detalhe que faz a carta inteira encaixar, e é preciso apresentá-lo com cuidado, porque é fácil ir longe demais.
O perigo da igreja de Pérgamo não estava só do lado de fora. Estava dos dois lados.
Do lado de fora: o poder do Império, a idolatria, a pressão religiosa, um ambiente onde permanecer fiel a Cristo podia custar caro, e nós vamos descobrir, já no próximo versículo, que ali custou uma vida.
Do lado de dentro: conforme a carta avança, Jesus vai revelar que existiam coisas sendo toleradas naquela comunidade que Ele não aceitava.
E repare como a espada acompanha os dois movimentos. No versículo 12, ela é apresentação: dirigida à cidade e ao poder que a cercava. No versículo 16, ela reaparece, e agora está voltada para dentro: “contra eles pelejarei com a espada da minha boca”.
✦ O limite desta leitura
Uma coisa que se ouve muito é: “um gume significa o julgamento do mundo e o outro gume significa a correção da igreja”.
O texto não diz isso. A Bíblia não atribui um significado a cada gume, e este caderno não vai atribuir.
O que a carta permite enxergar, e isso é diferente, é que a mesma espada, na mesma carta, alcança o que está fora e o que está dentro. Não porque cada lado da lâmina tenha um endereço, mas porque a palavra de Cristo não para na porta da igreja.
Guardar essa diferença é o que separa estudo de invenção.
E é por isso que a ordem da carta importa. Antes de revelar o problema, Jesus já mostrou que tem autoridade para julgá-lo. A apresentação do versículo 12 prepara todo o resto.
Porque seria fácil, para aqueles cristãos, pensar: “nós somos os perseguidos, então o problema está lá fora”. E Jesus mostra: “Eu também vejo o que acontece aqui dentro.”
✦7. O Jesus que consola e o Jesus que confronta
Vale parar um segundo aqui, porque este versículo mostra um lado de Jesus que a gente às vezes prefere não olhar.
Acabamos de sair de Esmirna. Lá, uma igreja sofrendo ouviu: “não temas”. Consolo puro.
Agora, em Pérgamo, encontramos o Jesus que confronta. Que corrige. Cuja palavra é comparada a uma espada afiada de dois gumes.
E não são dois Jesus diferentes. É o mesmo. Ele sabe quando a sua igreja precisa de consolo e sabe quando ela precisa de correção, e trata cada uma pelo que ela é, não por um modelo genérico.
Olhe as sete cartas de longe e você verá o mesmo método:
✦ Cada igreja ouve o traço de que precisa
- Éfeso, que estava esfriando: “aquele que segura na mão direita as sete estrelas e anda no meio dos sete candeeiros de ouro” (2:1), Ele está no meio delas.
- Esmirna, ameaçada de morte: “o primeiro e o último, que esteve morto e tornou a viver” (2:8), Ele passou por onde vocês vão passar.
- Pérgamo, cercada de autoridade: “aquele que tem a espada afiada de dois gumes” (2:12), a autoridade final é minha.
Os traços vêm todos da mesma visão do capítulo 1. Jesus não muda de identidade a cada carta: Ele escolhe, do mesmo retrato, o detalhe que aquela comunidade precisava ouvir.
✦O que este versículo está me mostrando sobre Jesus?
Um Jesus que conhece exatamente a realidade onde a sua igreja está vivendo. Ele não fala com todas as comunidades da mesma maneira, com uma frase decorada. Para a que temia a morte, Ele se apresentou como quem venceu a morte. Para a que vivia debaixo de um poder que julgava e executava, Ele se apresenta como quem tem a espada.
E um Jesus cuja palavra tem autoridade. Uma palavra que penetra, revela, confronta, corrige e julga, e que não pode ser respondida por nenhuma autoridade humana.
✦Aplicação para a minha vida
Primeiro: lembre quem tem a palavra final. Existem autoridades neste mundo. Existem pessoas poderosas. Existem sistemas que parecem enormes e definitivos. Pérgamo também conhecia tudo isso, e de perto. Mas nenhuma autoridade humana está acima de Cristo, e essa é uma verdade que serve tanto para quem sofre pressão quanto para quem tem poder.
Segundo: não trate a palavra de Jesus como uma palavra qualquer. No Apocalipse, o que sai da boca de Cristo é comparado a uma espada afiada de dois gumes. Ela não existe só para confortar. Ela também revela o que precisa mudar. E às vezes corta justamente aquilo que a gente preferia não enxergar.
Terceiro: nem todo perigo vem de fora. Às vezes a igreja, e a pessoa, resiste bem ao inimigo que está na frente e começa a tolerar o que já entrou. A espada alcança os dois.
para descobrir que estava no caminho errado.
✦Resumo do estudo
- Pérgamo era uma sede reconhecida da autoridade romana na província da Ásia: capital do antigo reino dos Atálidas, entregue a Roma em 133 a.C.
- No mundo romano, a espada simbolizava o poder de julgar e de executar (ius gladii). Romanos 13:4 usa exatamente essa imagem.
- O grego tem duas espadas: a máchaira (curta, de cinto) e a rhomphaía (grande). João escolheu a grande: seis das sete ocorrências do Novo Testamento estão no Apocalipse.
- “De dois gumes” é, no original, “de duas bocas” (dístomos, de dís + stóma). E essa espada sai da boca de Jesus: a mesma palavra, duas vezes, em Apocalipse 1:16.
- O adjetivo dístomos aparece três vezes no Novo Testamento: Hebreus 4:12, Apocalipse 1:16 e Apocalipse 2:12.
- Portanto, não é uma arma na mão: é a autoridade da palavra de Cristo, que revela, confronta, corrige e julga.
- A espada atravessa o livro: 1:16 → 2:12 → 2:16 → 6:8 → 19:15 → 19:21.
- Na mesma carta, ela se volta para fora (o poder do Império) e para dentro (o que a igreja tolerava), sem que o texto atribua um significado a cada gume.
✦Versículos para ler junto
Transcritos por inteiro, para você ler sem precisar sair do caderno.
✦ A espada que sai da boca
Apocalipse 1:16: “Tinha na sua mão direita sete estrelas, e da sua boca saía uma afiada espada de dois gumes. O seu rosto brilhava como o sol na sua força.”
Apocalipse 2:16: “Arrepende-te, pois; ou, se não, venho a ti sem demora e contra eles pelejarei com a espada da minha boca.”
Apocalipse 19:15: “Sai da sua boca uma espada afiada, para com ela ferir as nações; e ele mesmo as regerá com cetro de ferro e, pessoalmente, pisa o lagar do vinho do furor da ira do Deus Todo-Poderoso.”
Isaías 49:2: “Fez a minha boca como uma espada aguda, na sombra de sua mão me escondeu; fez-me uma flecha polida e me guardou na sua aljava;”
✦ A palavra que corta
Hebreus 4:12: “Porque a palavra de Deus é viva, e eficaz, e mais cortante do que qualquer espada de dois gumes, e penetra até ao ponto de dividir alma e espírito, juntas e medulas, e é apta para discernir os pensamentos e propósitos do coração.”
Efésios 6:17: “Tomai também o capacete da salvação e a espada do Espírito, que é a palavra de Deus;”
João 12:48: “Quem me rejeita e não recebe as minhas palavras tem quem o julgue; a própria palavra que tenho proferido, essa o julgará no último dia.”
Isaías 55:11: “assim será a palavra que sair da minha boca: não voltará para mim vazia, mas fará o que me apraz e prosperará naquilo para que a designei.”
✦ A espada e a autoridade humana
Romanos 13:4: “…porque é ministro de Deus para teu bem. Entretanto, se fizeres o mal, teme; porque não é sem motivo que ela traz a espada; pois é ministro de Deus, vingador, para castigar o que pratica o mal.”
Lucas 2:35: “…(e uma espada traspassará a tua própria alma), para que se manifestem os pensamentos de muitos corações.”
Gênesis 3:24: “E, expulso o homem, colocou querubins ao oriente do jardim do Éden e o refulgir de uma espada que se revolvia, para guardar o caminho da árvore da vida.”
✦Fontes e referências deste estudo
Tudo o que apareceu neste estudo, reunido aqui para você conferir e continuar pesquisando.
- Bíblia: Apocalipse 1:16; 2:1; 2:8; 2:12; 2:16; 2:17; 6:8; 19:15; 19:21. Gênesis 3:24. Isaías 49:2; 55:11. Lucas 2:35. João 12:48. Romanos 13:4. Efésios 6:17. Hebreus 4:12. Todas as citações em português pela Almeida Revista e Atualizada.
- Grego do Novo Testamento: rhomphaía (ῥομφαία, Strong G4501), a espada grande; máchaira (μάχαιρα, G3162), a espada curta; dístomos (δίστομος, G1366), “de duas bocas”, de dís + stóma; oxeîa (ὀξεῖα, G3691), “afiada”; táde légei (τάδε λέγει), “estas coisas diz”, a fórmula grega do “assim diz o Senhor” dos profetas. Definições conferidas nos léxicos de Thayer e Strong.
- Septuaginta: Gênesis 3:24 (τὴν φλογίνην ῥομφαίαν τὴν στρεφομένην) e Isaías 49:2 (ἔθηκεν τὸ στόμα μου ὡσεὶ μάχαιραν ὀξεῖαν). É a Bíblia grega lida nas sinagogas do primeiro século, e a que o Novo Testamento cita com mais frequência.
- História de Pérgamo: capital do reino dos Atálidas; legada a Roma por testamento de Átalo III em 133 a.C., dando origem à província romana da Ásia; acrópole elevada, com templos, biblioteca e teatro na encosta. Estrabão, Geografia 13.4.2 e 13.1.54 (a herança deixada a Roma e as bibliotecas dos reis de Pérgamo) e 13.4.1 (Pérgamo com “uma certa liderança” sobre a região).
- W. M. Ramsay, The Letters to the Seven Churches of Asia (1904): trata Pérgamo como a capital oficial da província e, por isso, o centro do ritual imperial; lê a espada de dois gumes como a espada do exército romano, ligada ao jus gladii do procônsul. O próprio Ramsay admite que nenhum autor antigo, fora o Apocalipse, atesta essa autoridade de Pérgamo. Registrada no caderno também a posição de V. Chapot (1904), para quem a capital romana era Éfeso.
- Direito romano: ius gladii, “o direito da espada”: a competência de aplicar pena capital. É o pano de fundo direto de Romanos 13:4.
- Estudos anteriores desta série: Apocalipse 1:16 (a visão do Cristo glorificado e a espada da boca), 2:7 (a árvore da vida e o paraíso de Deus), 2:8 (o título “o primeiro e o último”) e 2:11 (o vencedor e a segunda morte).
✦Para refletir
1. Pérgamo via poder todos os dias, só de levantar os olhos. Qual é o “poder que se vê de longe” que hoje intimida você, e o que muda quando você lembra de quem tem a palavra final?
2. A espada sai da boca, não da mão. O que isso muda no jeito como você lê a Bíblia?
3. Existe alguma coisa que você vem tolerando, não defendendo, só tolerando, e que já sabe que não deveria estar aí?
4. Jesus escolhe, para cada igreja, o traço de que ela precisa. Se Ele escrevesse hoje para você, qual traço dele você mais precisaria ouvir?
✦Minhas anotações sobre Apocalipse 2:12
O que Deus falou com você neste estudo? Escreva aqui. Não precisa ser bonito. Precisa ser verdadeiro.
✦Minha oração
Agora é a sua vez de falar com Deus. Se quiser, use esta oração como ponto de partida:
Ou escreva a sua própria oração:
✦No próximo estudo
Apocalipse 2:13: “onde está o trono de Satanás”, e um homem chamado Antipas
Jesus vai dizer uma das frases mais misteriosas das sete cartas: “Conheço o lugar em que habitas, onde está o trono de Satanás.” O que existia em Pérgamo para merecer uma expressão tão forte? Era um altar? Um templo? O culto ao imperador? Ou algo maior do que isso tudo?
E então Jesus vai citar um homem pelo nome: Antipas, e chamá-lo de “minha testemunha, meu fiel”. Quem foi ele, por que foi morto, e o que estava acontecendo naquela cidade? É o que vamos investigar.
Continue com a gente nesta caminhada de 404 dias.
E continue caminhando comigo, um versículo de cada vez.
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