✦Onde paramos
No último estudo, Jesus disse à igreja de Esmirna a frase mais pesada de toda a carta: “Sê fiel até à morte, e dar-te-ei a coroa da vida.” Vimos a prisão que estava chegando, as quatro maneiras de entender os “dez dias”, a Grande Perseguição que começou no ano 303 e a história de Policarpo: o líder daquela mesma igreja que, décadas depois, permaneceu fiel até o fim.
Hoje a carta a Esmirna se fecha. E ela se fecha exatamente onde precisava: na morte. Porque a última coisa que o Império podia fazer com aqueles cristãos era matá-los. Era esse o limite do poder humano sobre eles.
Então Jesus diz a última palavra da carta, e ela vai além desse limite. Ele fala de uma segunda morte. E promete que o vencedor não será tocado por ela.
Neste caderno vamos entender três coisas: o que significa esse refrão que aparece nas sete cartas (“quem tem ouvidos, ouça”), quem é o “vencedor” e, com muito cuidado, o que a Bíblia diz e o que a Bíblia não diz sobre a segunda morte.
E, como sempre, com uma regra do começo ao fim: separar o que o texto afirma do que já é interpretação.
✦Como usar este caderno
Este caderno é para todo mundo: para quem nunca estudou o Apocalipse, para quem sempre quis entender e achou difícil, e para quem já conhece o livro e quer ir mais fundo. Você não precisa saber nada antes de começar: cada nome, cada palavra e cada texto vêm explicados e transcritos.
- Ore. Faça a oração de abertura ou converse com Deus com as suas palavras.
- Leia o versículo. Devagar, duas vezes. Se puder, em voz alta.
- Estude. Sublinhe, marque e escreva nas margens. Este caderno é seu.
- Anote. No fim há uma página reservada para o que Deus falou com você.
- Ore novamente. Termine conversando com Deus sobre o que aprendeu.
Um aviso amoroso antes de começar: este estudo passa por um assunto difícil, o destino final de quem rejeita a Deus. Vamos tratá-lo com reverência, mostrando as leituras cristãs sinceras que existem, sem transformar nenhuma delas em uma frase que o texto não disse. Se o assunto pesar, respire e siga: a promessa deste versículo é boa notícia, do começo ao fim.
✦Oração de abertura
✦O versículo de hoje
O versículo tem três partes: um chamado para ouvir, um destinatário e uma promessa. E a promessa é feita na forma mais forte que o grego tinha para dizer “não”.
✦ Palavras que ajudam a entender
- Quem tem ouvidos, ouça: o refrão com que Jesus encerrava muitas parábolas. Todo mundo tinha ouvidos; nem todo mundo ouvia. Ouvir, na Bíblia, é abrir o coração e obedecer.
- Espírito: o Espírito Santo. A carta é ditada por Jesus, e é o Espírito quem fala: no Apocalipse, as duas vozes carregam a mesma mensagem.
- Igrejas: no plural. A carta é endereçada a Esmirna, mas a mensagem é para todas as igrejas, de todas as épocas.
- Vencedor: no grego ho nikôn: particípio presente, “o que vai vencendo”. Caminhada em curso, não troféu já entregue.
- De modo nenhum: traduz ou mē, a dupla negativa grega: a forma mais enfática de dizer “não” que aquela língua tinha. “Não, e não há hipótese nenhuma.”
- Sofrer o dano: do grego adikéō: ser lesado, prejudicado, sofrer injustiça. A promessa não é que a segunda morte não exista: é que ela não alcança o vencedor.
- Segunda morte: expressão que aparece pela primeira vez aqui, e mais três vezes no fim do livro. O próprio Apocalipse a define, e vamos chegar lá.
✦1. “Quem tem ouvidos, ouça o que o Espírito diz às igrejas”
Se você caminhou com a gente até aqui, essa frase já não é nova: ela apareceu no fim da carta a Éfeso, em Apocalipse 2:7. E vai aparecer de novo. E de novo. Sete vezes: uma em cada carta.
Não é repetição por descuido. É um refrão. E refrão, num texto antigo lido em voz alta diante de uma comunidade reunida, tem função: é o momento em que o leitor levanta os olhos do rolo e a mensagem sai do endereço específico e cai no colo de quem está ouvindo.
✦ O refrão nas sete cartas
- Éfeso: Apocalipse 2:7: “Quem tem ouvidos, ouça o que o Espírito diz às igrejas: Ao vencedor, dar-lhe-ei que se alimente da árvore da vida que se encontra no paraíso de Deus.”
- Esmirna: Apocalipse 2:11: “Quem tem ouvidos, ouça o que o Espírito diz às igrejas: O vencedor de nenhum modo sofrerá dano da segunda morte.”
- Pérgamo: Apocalipse 2:17: “Quem tem ouvidos, ouça o que o Espírito diz às igrejas: Ao vencedor darei do maná escondido, o qual lhe darei, e uma pedrinha branca, e sobre essa pedrinha escrito um nome novo, o qual ninguém conhece exceto aquele que o recebe.”
- Tiatira: Apocalipse 2:29: “Quem tem ouvidos, ouça o que o Espírito diz às igrejas.”
- Sardes: Apocalipse 3:6: “Quem tem ouvidos, ouça o que o Espírito diz às igrejas.”
- Filadélfia: Apocalipse 3:13: “Quem tem ouvidos, ouça o que o Espírito diz às igrejas.”
- Laodiceia: Apocalipse 3:22: “Quem tem ouvidos, ouça o que o Espírito diz às igrejas.”
Repare numa diferença de arrumação: nas três primeiras cartas, o refrão vem antes da promessa ao vencedor; nas quatro últimas, ele vem depois. É um detalhe pequeno, e não muda o sentido, mas mostra que as sete cartas foram compostas com desenho, não em série automática.
Onde Jesus já tinha usado essa frase
O refrão não nasce no Apocalipse. É a assinatura de Jesus nos evangelhos, geralmente depois de uma parábola:
✦ “Quem tem ouvidos, ouça” nos evangelhos
Mateus 11:15: “Quem tem ouvidos, ouça.”
Mateus 13:9: “Quem tem ouvidos, ouça.” (logo depois da parábola do semeador)
Mateus 13:43: “Então, os justos resplandecerão como o sol, no reino de seu Pai. Quem tem ouvidos, ouça.”
Marcos 4:9: “E acrescentou: Quem tem ouvidos para ouvir, ouça.”
Lucas 8:8: “…Dizendo isto, exclamou: Quem tem ouvidos para ouvir, ouça.”
Ou seja: quem está falando às sete igrejas fala do mesmo jeito que falava na Galileia. É a mesma voz.
“Às igrejas”, no plural
Esta é a chave que abre o livro inteiro para você. A carta tem um endereço: Esmirna. Mas o refrão diz “o que o Espírito diz às igrejas”.
Repare no desencontro proposital: a carta é uma, o destinatário do refrão é plural. Isso confirma o que descobrimos lá no estudo de Apocalipse 1:11: as sete cartas não foram sete correspondências privadas. Elas circulavam juntas. A igreja de Éfeso lia a carta de Esmirna. A de Laodiceia lia a de Filadélfia.
E, se as igrejas liam as cartas umas das outras, então você também está lendo a sua. A promessa desta carta não pertence só àquela comunidade do primeiro século, perseguida, empobrecida e assustada. Ela é lida em voz alta para quem tiver ouvidos: em qualquer século.
O endereço era Esmirna. O alcance é quem estiver ouvindo.
✦2. “O vencedor”
Aqui acontece de novo aquela troca delicada que vimos em Apocalipse 2:7: a carta foi escrita para uma igreja inteira, mas a promessa é feita no singular. “O vencedor.” Comunidades caminham juntas; cada coração responde sozinho.
E a palavra grega ajuda muito. É ho nikôn, um particípio no tempo presente: não “o que já venceu”, mas “o que vai vencendo”. Não é o campeão de peito estufado na foto do pódio: é quem ainda está na pista, hoje, um dia de cada vez.
Uma palavra que a cidade entendia bem
“Vencer” não era vocabulário religioso naquele mundo: era vocabulário de arena. As cidades gregas da Ásia Menor tinham jogos, competições atléticas, disputas públicas, e Esmirna era uma cidade orgulhosa dessas coisas, com estádio, festas e honras oficiais para os vencedores (o Martírio de Policarpo fala do estádio da cidade e de jogos com feras organizados pelo asiarca: 9.1; 12.2).
E o prêmio do vencedor era uma coroa. Não a coroa do rei (diádēma), mas a grinalda do campeão (stéphanos): exatamente a palavra que Jesus tinha usado no versículo anterior: “dar-te-ei a coroa da vida” (Apocalipse 2:10).
Então olhe o que Jesus faz com o vocabulário da própria cidade. Esmirna sabia o que era vencer: era subir ao pódio, ser aclamado, receber a grinalda diante da multidão. Jesus pega essa imagem e a vira do avesso. Na leitura do Império, aquele cristão levado ao estádio era o perdedor da história. Na leitura de Jesus, ele é o vencedor.
E a coroa da cidade
Lembra do estudo de Apocalipse 2:8? Esmirna ficava aos pés do monte Pagos. O pesquisador William Ramsay, em 1904, achou que os prédios no alto da colina lembravam uma coroa. O que os textos antigos guardam é o orador Élio Aristides chamando Esmirna de joia da Ásia e de coroa da Jônia.
Jesus promete àquela igreja uma coroa, e agora, no versículo 11, promete algo que nenhuma coroa da cidade poderia dar: que a segunda morte não a alcance.
Vencer, aqui, tem um nome concreto
Cada carta define “vencer” pelo desafio daquela igreja. Em Éfeso, vencer era voltar ao primeiro amor. Em Esmirna, o versículo anterior já disse com todas as letras o que é vencer:
Vencer, em Esmirna, é permanecer fiel. Não é escapar da prisão, não é evitar a pobreza, não é sobreviver à perseguição. É atravessar tudo isso sem soltar a mão de Cristo.
E aqui vale a lembrança de Policarpo, o líder daquela mesma igreja: pressionado a jurar por César e a insultar Cristo, respondeu que havia servido a Cristo por oitenta e seis anos e que Cristo nunca lhe fizera mal, então como poderia blasfemar do Rei que o salvou? (Martírio de Policarpo 9.3) Aos olhos da autoridade que o julgou, Policarpo perdeu. Aos olhos deste versículo, ele venceu.
E há um detalhe: o documento antigo que narra a morte dele diz que Policarpo recebeu “a coroa da incorruptibilidade” (Martírio de Policarpo 17.1; 19.2). Ele não cita Apocalipse 2:10, mas a imagem é parecida.
Vencer não é vencer sozinho
Antes que essa palavra vire peso, uma coisa precisa ser dita. “Vencer” (nikáō) é uma marca dos escritos de João, e ele sempre a ancora em Alguém que venceu primeiro:
✦ Quem venceu primeiro
João 16:33: “Estas coisas vos tenho dito para que tenhais paz em mim. No mundo, passais por aflições; mas tende bom ânimo; eu venci o mundo.”
1 João 5:4: “…porque todo o que é nascido de Deus vence o mundo; e esta é a vitória que vence o mundo: a nossa fé.”
Apocalipse 12:11: “Eles, pois, o venceram por causa do sangue do Cordeiro e por causa da palavra do testemunho que deram e, mesmo em face da morte, não amaram a própria vida.”
Olhe a ordem em Apocalipse 12:11: eles venceram por causa do sangue do Cordeiro. A vitória do vencedor é emprestada. Ele não entra na arena para conquistar sozinho um lugar: ele entra segurando uma vitória que já foi conquistada por Outro.
✦3. “De modo nenhum”: a força escondida na promessa
Em português a expressão já é forte. No grego, é ainda mais.
Jesus usa aqui uma construção chamada dupla negativa (ou mē): duas palavras de negação juntas. Em português, dois “nãos” se cancelariam. Em grego, eles se somam. É a maneira mais enfática que aquela língua tinha de negar alguma coisa: o equivalente a dizer: “não, e não existe a menor possibilidade de que aconteça”.
E o verbo também merece atenção. A ARA traduz “sofrerá dano”; o grego é adikéō, ser lesado, prejudicado, sofrer injustiça. Uma tradução bem literal ficaria assim: “o vencedor de jeito nenhum será prejudicado pela segunda morte.”
Repare no que a promessa não diz. Ela não diz que o vencedor não vai morrer. Aliás, o versículo anterior admite exatamente o contrário: “sê fiel até à morte”. Alguns daqueles cristãos iam morrer, e Jesus sabia disso.
A promessa é outra: a primeira morte pode alcançá-lo: a segunda, não.
A segunda estava fora do alcance dele.
✦4. “A segunda morte”: o que o próprio Apocalipse diz
Chegamos à expressão que dá nome a este estudo. E aqui a nossa regra vale mais do que nunca: vamos primeiro ouvir o que o texto afirma, e só depois olhar as interpretações.
A boa notícia metodológica é esta: o Apocalipse define a expressão dentro do próprio livro. Você não precisa sair do Apocalipse para saber do que Jesus está falando. A expressão aparece quatro vezes: esta aqui, e três no fim do livro.
✦ As quatro ocorrências de “segunda morte”
Apocalipse 2:11: “Quem tem ouvidos, ouça o que o Espírito diz às igrejas: O vencedor de nenhum modo sofrerá dano da segunda morte.”
Apocalipse 20:6: “Bem-aventurado e santo é aquele que tem parte na primeira ressurreição; sobre esses a segunda morte não tem autoridade; pelo contrário, serão sacerdotes de Deus e de Cristo e reinarão com ele os mil anos.”
Apocalipse 20:14: “Então, a morte e o inferno foram lançados para dentro do lago de fogo. Esta é a segunda morte, o lago de fogo.”
Apocalipse 21:8: “Quanto, porém, aos covardes, aos incrédulos, aos abomináveis, aos assassinos, aos impuros, aos feiticeiros, aos idólatras e a todos os mentirosos, a parte que lhes cabe será no lago que arde com fogo e enxofre, a saber, a segunda morte.”
O versículo que fecha a definição
Olhe de novo para Apocalipse 20:14. É o único lugar da Bíblia inteira em que a expressão recebe uma explicação direta: “Esta é a segunda morte, o lago de fogo.”
Então a equação está no próprio livro: segunda morte = lago de fogo. E o versículo seguinte diz quem vai para lá:
E há um detalhe em 20:14 que costuma passar batido, e é lindo: repare o que é lançado no lago de fogo em primeiro lugar. “A morte e o inferno.” Ou seja: a própria morte é destruída. O último inimigo entra no lago antes de qualquer pessoa.
Por que “segunda”?
Porque existe uma primeira. E a Bíblia trata as duas de maneiras muito diferentes.
- A primeira morte é a que todos conhecemos: o fim da vida biológica. Ela alcança justos e injustos. Alcançou Policarpo. Alcançou os apóstolos. Alcança todo mundo. “…como aos homens está ordenado morrerem uma só vez, vindo, depois disto, o juízo” (Hebreus 9:27).
- A segunda morte vem depois do juízo (Apocalipse 20:12-14). O próprio livro a chama de “lago de fogo”; o que isso quer dizer, as duas leituras estão lado a lado na seção 5. É o resultado de uma escolha, não um destino automático de toda criatura.
E é justamente por causa dessa diferença que a promessa de Jesus tem tanto peso para uma igreja ameaçada de morte. Ele não está dizendo “vocês não vão morrer”. Ele está dizendo: a morte que vocês temem não é a morte definitiva, e a definitiva não vai tocar em vocês.
✦ De onde vem essa expressão?
“Segunda morte” não aparece no Antigo Testamento com essas palavras. A expressão aparece nas traduções antigas da Bíblia hebraica para o aramaico, os Targums, lidas nas sinagogas: por exemplo, no Targum de Isaías 22:14, 65:6 e 65:15, e no de Jeremias 51:39.
Mas esses Targums foram escritos, na forma que temos hoje, depois do Apocalipse (as estimativas começam por volta do ano 200). Então não dá para provar que os leitores de Esmirna já conheciam a expressão.
✦5. O lago de fogo: as duas leituras cristãs
Aqui precisamos ir devagar e com honestidade.
O Apocalipse diz que a segunda morte é o lago de fogo. Diz quem tem parte nele. Diz que o vencedor não é alcançado por ele. O que o texto não faz é explicar em detalhe a natureza daquilo. E é exatamente aí que cristãos sinceros, que amam a Bíblia e a levam a sério, chegaram a duas leituras diferentes ao longo da história.
Vamos ver as duas: cada uma com os textos em que ela se apoia. Este caderno não vai decidir por você.
Primeira leitura: sofrimento consciente e eterno
Nessa leitura, o lago de fogo descreve um estado de sofrimento consciente que não tem fim. “Eterno” é entendido como duração.
✦ Os textos em que essa leitura se apoia
Mateus 25:46: “E irão estes para o castigo eterno, porém os justos, para a vida eterna.”
Marcos 9:48: “onde não lhes morre o verme, nem o fogo se apaga.”
Apocalipse 14:11: “A fumaça do seu tormento sobe pelos séculos dos séculos, e não têm descanso algum, nem de dia nem de noite, os adoradores da besta e da sua imagem e quem quer que receba a marca do seu nome.”
Apocalipse 20:10: “E o diabo, o sedutor deles, foi lançado para dentro do lago de fogo e enxofre, onde já se encontram não só a besta, como também o falso profeta; e serão atormentados de dia e de noite, pelos séculos dos séculos.”
O argumento central: em Mateus 25:46 a mesma palavra, “eterno”, qualifica o castigo e a vida. Se a vida dos justos não tem fim, o castigo também não teria.
Segunda leitura: destruição final e irreversível
Nessa leitura, o lago de fogo descreve o fim definitivo: a morte da qual não há volta. “Eterno” é entendido como irreversibilidade do resultado, não como duração do sofrimento.
✦ Os textos em que essa leitura se apoia
Mateus 10:28: “Não temais os que matam o corpo e não podem matar a alma; temei, antes, aquele que pode fazer perecer no inferno tanto a alma como o corpo.”
Romanos 6:23: “Porque o salário do pecado é a morte, mas o dom gratuito de Deus é a vida eterna em Cristo Jesus, nosso Senhor.”
2 Tessalonicenses 1:9: “os quais sofrerão penalidade de eterna destruição, banidos da face do Senhor e da glória do seu poder.”
João 3:16: “Porque Deus amou ao mundo de tal maneira que deu o seu Filho unigênito, para que todo o que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna.”
Malaquias 4:1: “Pois eis que vem o dia e arde como fornalha; todos os soberbos e todos os que cometem perversidade serão como o restolho; o dia que vem os abrasará, diz o SENHOR dos Exércitos, de sorte que não lhes deixará nem raiz nem ramo.”
O argumento central: o próprio Apocalipse chama aquilo de morte: “esta é a segunda morte”. E o contraste bíblico mais repetido não é entre dois tipos de vida, mas entre vida e morte, entre perecer e não perecer.
O que fazer com isso
Aqui vai a coisa mais honesta que este caderno pode dizer: as duas leituras existem dentro do cristianismo, são defendidas por pessoas que levam a Bíblia a sério, e o Apocalipse 2:11 não decide entre elas.
Se você já tem uma convicção formada sobre isso, ótimo: estude, examine, confira nas Escrituras. Se ainda não tem, também está tudo bem. Não é preciso resolver essa questão para entender e receber a promessa deste versículo.
Porque olhe: nas duas leituras, a promessa a Esmirna diz exatamente a mesma coisa. Seja o lago de fogo sofrimento consciente sem fim, seja ele destruição final e irreversível, o vencedor não é alcançado por ele. A promessa é idêntica dos dois lados.
O Apocalipse é muito mais claro sobre quem não vai sofrer a segunda morte
do que sobre a mecânica exata dela.
A ênfase do texto é a promessa, não a descrição.
✦6. A morte não é o fim da história: é o inimigo derrotado
Se este estudo parasse no lago de fogo, ele pararia no lugar errado. Porque a Bíblia não trata a morte como um dado permanente do universo. Trata como um inimigo, e um inimigo que tem prazo.
✦ O fim da morte, transcrito
1 Coríntios 15:26: “O último inimigo a ser destruído é a morte.”
1 Coríntios 15:54-55: “E, quando este corpo corruptível se revestir de incorruptibilidade, e o que é mortal se revestir de imortalidade, então, se cumprirá a palavra que está escrita: Tragada foi a morte pela vitória. Onde está, ó morte, a tua vitória? Onde está, ó morte, o teu aguilhão?”
Apocalipse 21:4: “E lhes enxugará dos olhos toda lágrima, e a morte já não existirá, já não haverá luto, nem pranto, nem dor, porque as primeiras coisas passaram.”
Apocalipse 1:18: “e aquele que vive; estive morto, mas eis que estou vivo pelos séculos dos séculos e tenho as chaves da morte e do inferno.”
João 11:25-26: “Disse-lhe Jesus: Eu sou a ressurreição e a vida. Quem crê em mim, ainda que morra, viverá; e todo o que vive e crê em mim não morrerá, eternamente. Crês isto?”
Junte as peças. Em Apocalipse 20:14, a morte é lançada no lago de fogo. Em Apocalipse 21:4, “a morte já não existirá”. Em 1 Coríntios 15:26, ela é o último inimigo a ser destruído.
Então a promessa de Apocalipse 2:11 não é um consolo isolado no meio de uma carta antiga. É o primeiro fio de uma corda que atravessa o livro inteiro e termina numa cidade onde a morte simplesmente não existe mais.
Ela é um personagem, e um personagem que sai de cena.
✦7. A carta a Esmirna, vista de cima
Agora vamos subir e olhar a carta inteira, do primeiro ao último versículo. Porque só assim dá para ver o desenho.
✦ Apocalipse 2:8-11, transcrito por inteiro
v. 8: “Ao anjo da igreja em Esmirna escreve: Estas coisas diz o primeiro e o último, que esteve morto e tornou a viver:”
v. 9: “Conheço a tua tribulação, a tua pobreza (mas tu és rico), e a blasfêmia dos que a si mesmos se declaram judeus e não são, sendo, antes, sinagoga de Satanás.”
v. 10: “Não temas as coisas que tens de sofrer. Eis que o diabo está para lançar em prisão alguns dentre vós, para serdes postos à prova, e tereis tribulação de dez dias. Sê fiel até à morte, e dar-te-ei a coroa da vida.”
v. 11: “Quem tem ouvidos, ouça o que o Espírito diz às igrejas: O vencedor de nenhum modo sofrerá dano da segunda morte.”
Percebeu? A morte aparece em três dos quatro versículos: Jesus esteve morto (v. 8); a igreja é chamada a ser fiel até à morte (v. 10); e a segunda morte não a alcança (v. 11). É a carta mais curta das sete, e a mais atravessada pela palavra “morte”.
E o desenho é este:
- Abre com Jesus se apresentando como quem já morreu e voltou a viver.
- No meio, avisa que a fidelidade daquela igreja pode custar a vida.
- Fecha prometendo que a morte definitiva não a alcança.
Ou seja: a carta começa com a morte vencida por Jesus e termina com a morte vencida em favor de quem é dEle. Tudo o que está no meio, pobreza, calúnia, prisão, tribulação de dez dias, está emoldurado por essas duas pontas.
E repare no que Jesus não faz nesta carta: não repreende Esmirna em nada. Junto com Filadélfia, é uma das duas únicas igrejas das sete que não recebem nenhuma correção. À igreja que mais sofre, Jesus não manda consertar nada: manda não temer.
Quem diz “sê fiel até à morte” é Aquele que esteve morto.
Quem promete livrar da segunda morte é Aquele que tem as chaves da morte.
Ele não pede o caminho que não andou.
✦O que este versículo está me mostrando sobre Jesus?
Um Jesus que fala para ser ouvido. Ele não despeja informação: Ele chama. “Quem tem ouvidos, ouça.” É um convite pessoal escondido dentro de uma carta pública.
Um Jesus que redefine a vitória. No placar do Império, o cristão preso, empobrecido e executado era o perdedor da história. Jesus olha para a mesma cena e diz: esse é o vencedor.
Um Jesus que tem autoridade sobre o que mais assusta o ser humano. Ele não promete uma vida sem morte: promete que a morte não terá autoridade sobre os Seus. E Ele pode prometer isso porque, como Ele mesmo disse em Apocalipse 1:18, tem as chaves.
E um Jesus que dá a última palavra da carta a uma promessa. Ele podia ter fechado no aviso, na prisão, na tribulação. Fechou na vida.
✦Aplicação para a minha vida
Primeiro: ouvir é diferente de ler. Eu posso ter lido este versículo dez vezes e nunca ter ouvido. Ouvir, na Bíblia, é deixar o texto mudar alguma coisa em mim. Vale a pergunta: o que este versículo está me pedindo hoje que eu ainda não fiz?
Segundo: vencer é hoje, não é depois. “O que vai vencendo” é particípio presente. Não existe um dia de formatura em que eu me torno vencedor de uma vez por todas: existe o dia de hoje, com a decisão de hoje. Uma fidelidade pequena, repetida, é do que a coroa é feita.
Terceiro: existe um medo que Jesus quer tirar de mim. Aqueles cristãos tinham um medo com nome e endereço: a morte. Os meus medos talvez tenham outros nomes: perder o emprego, o julgamento das pessoas, a doença, o futuro dos meus filhos. A lógica do versículo continua valendo: existe um limite para o que qualquer coisa pode tirar de mim, e esse limite é a primeira morte. Além dele, é território de Cristo.
Quarto: nem toda pergunta precisa ser respondida hoje. Se você chegou a este estudo querendo uma definição fechada sobre o lago de fogo e saiu com duas leituras, isso não é fracasso: é honestidade. Dá para viver a promessa sem ter resolvido a mecânica dela. O que o texto quer que eu saiba com certeza, ele diz com clareza.
✦Resumo do estudo
- “Quem tem ouvidos, ouça”: refrão que aparece nas sete cartas (2:7, 2:11, 2:17, 2:29, 3:6, 3:13, 3:22) e que Jesus já usava nos evangelhos. Nas três primeiras cartas vem antes da promessa; nas quatro últimas, depois.
- “Às igrejas”, no plural: a carta tem um endereço (Esmirna), mas alcance universal. Cada carta é para todas: inclusive para quem lê hoje.
- “O vencedor”: ho nikôn, particípio presente: “o que vai vencendo”. Vocabulário de arena, numa cidade de jogos e coroas. Em Esmirna, vencer significa permanecer fiel, e a vitória é emprestada de Cristo (João 16:33; Apocalipse 12:11).
- “De modo nenhum”: dupla negativa grega (ou mē), a negação mais forte da língua. E “sofrer o dano” traduz adikéō: ser lesado. A promessa não é escapar da primeira morte, e sim não ser alcançado pela segunda.
- “Segunda morte”: expressão que aparece quatro vezes no Apocalipse (2:11; 20:6; 20:14; 21:8) e que o próprio livro define em 20:14: “esta é a segunda morte, o lago de fogo”.
- Duas leituras cristãs do lago de fogo: sofrimento consciente e eterno (Mateus 25:46; Marcos 9:48; Apocalipse 14:11; 20:10) ou destruição final e irreversível (Mateus 10:28; Romanos 6:23; 2 Tessalonicenses 1:9; Malaquias 4:1). O texto não decide entre elas, e a promessa a Esmirna é a mesma nas duas.
- A morte tem prazo: ela é lançada no lago (Apocalipse 20:14), deixa de existir (Apocalipse 21:4) e é o último inimigo a ser destruído (1 Coríntios 15:26).
- A carta inteira: abre com Jesus que esteve morto e voltou a viver (2:8) e fecha com a segunda morte que não alcança o vencedor (2:11). Esmirna é uma das duas únicas igrejas sem nenhuma repreensão.
✦Versículos para ler junto
Todos transcritos na Almeida Revista e Atualizada, para você conferir sem precisar sair do caderno.
✦ O refrão e a promessa
Apocalipse 2:7: “Quem tem ouvidos, ouça o que o Espírito diz às igrejas: Ao vencedor, dar-lhe-ei que se alimente da árvore da vida que se encontra no paraíso de Deus.”
Apocalipse 3:5: “O vencedor será assim vestido de vestiduras brancas, e de modo nenhum apagarei o seu nome do Livro da Vida; pelo contrário, confessarei o seu nome diante de meu Pai e diante dos seus anjos.”
Apocalipse 3:21: “Ao vencedor, dar-lhe-ei sentar-se comigo no meu trono, assim como também eu venci e me sentei com meu Pai no seu trono.”
✦ A morte, o juízo e a vida
Hebreus 9:27: “E, assim como aos homens está ordenado morrerem uma só vez, vindo, depois disto, o juízo,”
Daniel 12:2: “Muitos dos que dormem no pó da terra ressuscitarão, uns para a vida eterna, e outros para vergonha e horror eterno.”
João 5:28-29: “Não vos maravilheis disto, porque vem a hora em que todos os que se acham nos túmulos ouvirão a sua voz e sairão: os que tiverem feito o bem, para a ressurreição da vida; e os que tiverem praticado o mal, para a ressurreição do juízo.”
Apocalipse 20:12: “Vi também os mortos, os grandes e os pequenos, postos em pé diante do trono. Então, se abriram livros. Ainda outro livro, o Livro da Vida, foi aberto. E os mortos foram julgados, segundo as suas obras, conforme o que se achava escrito nos livros.”
✦ A coragem que este versículo dá
Mateus 10:28: “Não temais os que matam o corpo e não podem matar a alma; temei, antes, aquele que pode fazer perecer no inferno tanto a alma como o corpo.”
Romanos 8:38-39: “Porque eu estou bem certo de que nem a morte, nem a vida, nem os anjos, nem os principados, nem as coisas do presente, nem do porvir, nem os poderes, nem a altura, nem a profundidade, nem qualquer outra criatura poderá separar-nos do amor de Deus, que está em Cristo Jesus, nosso Senhor.”
Tiago 1:12: “Bem-aventurado o homem que suporta a provação; porque, depois de aprovado, receberá a coroa da vida, a qual o Senhor prometeu aos que o amam.”
✦Fontes e referências deste estudo
Tudo o que apareceu neste estudo, reunido aqui para você conferir e continuar pesquisando.
- Bíblia: Apocalipse 2:7-11; 2:17; 2:29; 3:5-6; 3:13; 3:21-22; 1:18; 12:11; 14:11; 20:6; 20:10; 20:12; 20:14-15; 21:4; 21:8. Mateus 10:28; 11:15; 13:9,43; 25:46. Marcos 4:9; 9:48. Lucas 8:8. João 3:16; 5:28-29; 11:25-26; 16:33. Romanos 6:23; 8:38-39. 1 Coríntios 15:26,54-55. 2 Tessalonicenses 1:9. Hebreus 9:27. Tiago 1:12. 1 João 5:4. Daniel 12:2. Malaquias 4:1. Todas as citações pela Almeida Revista e Atualizada.
- Grego do Novo Testamento: ho nikôn (particípio presente de nikáō, “vencer”); ou mē (dupla negativa enfática); adikéō (“ser lesado, sofrer dano”); stéphanos (grinalda do vencedor) em contraste com diádēma (coroa do soberano).
- Judaísmo antigo: a expressão “segunda morte” aparece nos Targums (escritos na forma atual depois do ano 200), as paráfrases em aramaico das Escrituras hebraicas lidas nas sinagogas. Informação de fundo sobre o vocabulário, não interpretação do versículo.
- Esmirna: cidade da Ásia Menor com estádio, jogos e honras públicas a vencedores; situada aos pés do monte Pagos; a comparação dos prédios do alto com uma coroa é leitura de William Ramsay (1904), e Élio Aristides chama a cidade de joia da Ásia e de coroa da Jônia. Contexto detalhado no estudo de Apocalipse 2:8.
- O Martírio de Policarpo: carta da igreja de Esmirna à igreja de Filomélio e às demais comunidades; dela vêm a resposta dos oitenta e seis anos e a menção à “coroa da incorruptibilidade”. Estudada em detalhe no caderno de Apocalipse 2:10.
- Estudos anteriores desta série: Apocalipse 2:7 (o refrão, o vencedor e as sete promessas), 2:8 (a história de Esmirna e a colina em forma de coroa), 2:9 (a pobreza, a pressão e o sentido de “acusador”) e 2:10 (os dez dias, a Grande Perseguição e Policarpo).
✦Para refletir
1. “Quem tem ouvidos, ouça.” Qual é a diferença, na sua vida, entre ler a Bíblia e ouvir a Bíblia?
2. Jesus chama de vencedor alguém que, aos olhos do mundo, estava perdendo tudo. Onde você tem medido a sua vida pelo placar errado?
3. O que muda no seu medo mais concreto de hoje quando você lembra que existe um limite para o que ele pode alcançar?
4. “O que vai vencendo.” Qual é a fidelidade pequena que você quer manter esta semana: a que ninguém vai ver?
✦Minhas anotações sobre Apocalipse 2:11
O que Deus falou com você neste estudo? Escreva aqui. Não precisa ser bonito. Precisa ser verdadeiro.
✦Minha oração
Agora é a sua vez de falar com Deus. Se quiser, use esta oração como ponto de partida:
Ou escreva a sua própria oração:
✦No próximo estudo
Apocalipse 2:12: a carta a Pérgamo e a espada de dois gumes
Fechamos Esmirna. Agora a terceira carta, para uma cidade muito diferente: Pérgamo, centro de poder, de templos e de cultura. E Jesus vai se apresentar a ela de um jeito que a cidade entenderia imediatamente, como “aquele que tem a espada afiada de dois gumes”. Por que essa imagem, e por que justamente para aquela cidade? É o que vamos ver.
Continue com a gente nesta caminhada de 404 dias.
E continue caminhando comigo, um versículo de cada vez.
Quer estudar com caneta na mão?
Este estudo também existe em caderno PDF, com espaço para anotações e sua oração: grátis, feito para guardar.
Baixar o caderno (PDF)
Comentários
Deixe seu comentário, aprendizado ou reflexão. Ele chega direto para mim e pode ser respondido por e-mail. ♡