Apocalipse 3:13, “Quem tem ouvidos, ouça o que o Espírito diz às igrejas”, fecha a carta a Filadélfia e se repete nas sete cartas. Todo mundo tem ouvidos; o que Jesus pede é ouvir do jeito da Bíblia: deixar a palavra criar raiz e mudar o que se faz. No hebraico bíblico não existe verbo separado para “obedecer”: é o mesmo verbo de ouvir. E no grego, obedecer é “ouvir debaixo”.
A frase vem das parábolas de Jesus, ecoa Isaías 6 e o Salmo 115, sobre ídolos que têm ouvidos e não ouvem, e lembra que cada igreja devia ouvir os recados de todas.
Vídeo do estudo de Apocalipse 3:13 no canal Entre Revelações
No versículo 12 Jesus prometeu ao vencedor de Filadélfia uma coluna no santuário de Deus e três nomes escritos sobre ele. A coluna fala de firmeza e permanência; os nomes, de identidade e pertencimento. Agora a carta termina com uma frase curta, que de tão conhecida é fácil de pular.
"Quem tem ouvidos, ouça o que o Espírito diz às igrejas." (Apocalipse 3:13, ARA)
Por que Jesus manda ouvir, se todo mundo tem ouvidos?
Porque ter ouvidos e ouvir não são a mesma coisa. Todo mundo já conversou com alguém que balançava a cabeça olhando o celular e, cinco minutos depois, perguntava o que tinha acabado de ouvir. O som chegou; a mensagem não ficou. Jesus repete a frase nas sete cartas, com as mesmas palavras, porque o perigo das igrejas não era a falta de ouvidos. Era ouvir sem guardar.
Como as igrejas recebiam o Apocalipse?
Pelos ouvidos. Os livros eram copiados à mão e a maioria das pessoas não sabia ler. O historiador William Harris (Ancient Literacy, 1989) estimou que, no Império Romano como um todo, só por volta de 10 em cada 100 pessoas sabiam ler. Uma pessoa lia o rolo em voz alta e a igreja ouvia. Apocalipse 1:3 descreve exatamente isso: “Bem-aventurados aqueles que leem e aqueles que ouvem as palavras da profecia e guardam as coisas nela escritas”. No grego, “aquele que lê” está no singular; “os que ouvem” e “os que guardam”, no plural.
Por que “às igrejas”, no plural?
Porque o Apocalipse era um livro só, mandado a sete cidades: “O que vês escreve em livro e manda às sete igrejas: Éfeso, Esmirna, Pérgamo, Tiatira, Sardes, Filadélfia e Laodiceia” (1:11). Tudo indica que cada igreja ouvia o livro inteiro. Filadélfia ouviu os elogios dela, mas também a carta a Éfeso, que abandonou o primeiro amor, e a de Sardes, que tinha nome de que vivia e estava morta. Cada recado tinha um endereço, e todos eram para todos. Por isso a carta a Filadélfia também é para quem lê hoje.
De onde vem a frase “quem tem ouvidos, ouça”?
Dos lábios de Jesus nos Evangelhos. Ele a dizia ao terminar parábolas, como a do semeador (Mateus 13:9). E explicou por que muitos não entendiam: “vendo, não veem; e, ouvindo, não ouvem, nem entendem” (Mateus 13:13). Na parábola, os quatro terrenos recebem a mesma semente: todos ouvem. À beira do caminho a palavra é arrancada antes de entrar; no chão de pedra ela não cria raiz; entre os espinhos, “os cuidados do mundo e a fascinação das riquezas sufocam a palavra” (13:22), e aqui “mundo” é o jeito de viver longe de Deus. Só a terra boa “ouve a palavra e a compreende; este frutifica” (13:23).
O que Isaías 6 e o Salmo 115 têm a ver com ouvir?
Jesus cita Isaías 6:9-10, onde Deus avisa o profeta de que vai falar a um povo de ouvidos endurecidos. A terra estava “está cheia a sua terra de ídolos”, e o povo adorava “a obra das suas mãos” (Isaías 2:8). O Salmo 115 descreve esses ídolos: “têm ouvidos e não ouvem”, e conclui: “Tornem-se semelhantes a eles os que os fazem e quantos neles confiam” (115:6, 8). Ninguém vira pedra; a pessoa fica parecida com o ídolo por dentro, surda para Deus. O estudioso G. K. Beale defende, em We Become What We Worship, que nos tornamos parecidos com o que adoramos e que o “quem tem ouvidos” do Apocalipse puxa essa linha. É a leitura de um estudioso: o Apocalipse não cita o Salmo 115 com todas as letras, mas a imagem dos ouvidos que não ouvem está no salmo, em Isaías e em Mateus.
Ouvir é o mesmo que obedecer na Bíblia?
No sentido bíblico, sim. Deuteronômio 6:4 começa com “Ouve, Israel”. O rabino Jonathan Sacks lembra que no hebraico bíblico não existe um verbo separado para “obedecer”: quando Deus pede obediência, o texto usa o mesmo verbo de ouvir, cuja raiz aparece 92 vezes só em Deuteronômio. No grego, “obedecer” é hypakoúō (G5219), feito de “debaixo” e “ouvir”: ouvir colocando-se debaixo do que foi dito. Por isso Apocalipse 1:3 não para no ouvir: felizes os que ouvem e guardam.
Quem fala: Jesus ou o Espírito?
A carta começa com “Estas coisas diz o santo, o verdadeiro” (3:7), a voz de Jesus, e termina com “o que o Espírito diz”. Não são duas mensagens: o que Jesus diz, o Espírito diz às igrejas. O versículo não explica como isso acontece, e não é preciso ir além dele. O que fica claro é que a carta não é conselho de homem. É Deus falando com o seu povo.
Por que a frase muda de lugar nas cartas?
Em Éfeso, Esmirna e Pérgamo ela vem antes da promessa ao vencedor (2:7, 11, 17). Em Tiatira, Sardes, Filadélfia e Laodiceia vem depois (2:29; 3:6, 13, 22). O texto não explica a mudança, e as explicações dos estudiosos são hipóteses. O certo é que ela está nas sete: nenhuma igreja ficou sem o chamado, nem Filadélfia, que não recebeu repreensão nenhuma. A igreja firme hoje também precisa ouvir amanhã.
A frase aparece de novo no Apocalipse?
Uma vez, mais curta: “Se alguém tem ouvidos, ouça” (13:9), no meio da visão da besta, o poder que exige adoração. Esse capítulo será estudado no seu lugar. Por enquanto, vale notar que o chamado para ouvir volta justamente quando o livro mostra quem quer ser adorado.
O que este versículo mostra sobre Jesus?
Que Ele não fala só para ser admirado; fala para ser ouvido. E que Ele não desiste de chamar: sete cartas, o mesmo convite, para a igreja que perdeu o primeiro amor, a perseguida, a que parecia viva e estava morta, a fraca e fiel, a morna.
O que isso muda hoje?
Pense em quantas vozes você ouve num dia: celular, notícias, opiniões. O princípio do Salmo 115 vale aqui: a gente fica parecido com aquilo em que confia, e o que ouvimos todo dia molda o que pensamos, tememos e desejamos. Jesus não pede só que você tenha ouvidos. Pede que abra a Bíblia, leia, pare e deixe a palavra mudar alguma coisa, mesmo pequena, mesmo com pouca força. Na Bíblia, ouvir não é escutar e esquecer. É deixar a palavra mudar o que você faz.
Perguntas frequentes
O que significa “quem tem ouvidos, ouça” em Apocalipse 3:13?
É o chamado com que Jesus fecha a carta a Filadélfia e que aparece em cada uma das sete cartas. Todo mundo tem ouvidos; Ele pede que a palavra seja ouvida do jeito da Bíblia: entendida, guardada e posta em prática. Ouvir, na Bíblia, não é escutar e esquecer.
Por que a frase diz “às igrejas”, no plural?
Porque o Apocalipse era um livro só, mandado às sete igrejas (1:11). Tudo indica que cada igreja ouvia o livro inteiro, inclusive os recados das outras. Por isso a carta a Filadélfia vale também para quem lê hoje.
Por que as igrejas ouviam o Apocalipse em vez de ler?
Porque os livros eram copiados à mão e a maioria das pessoas não sabia ler. O historiador William Harris estimou que, no Império Romano como um todo, só por volta de 10 em cada 100 pessoas sabiam ler. Apocalipse 1:3 mostra a cena: “aquele que lê”, no singular, e “os que ouvem” e “guardam”, no plural.
De onde vem a expressão “quem tem ouvidos, ouça”?
Das parábolas de Jesus nos Evangelhos, como a do semeador (Mateus 13:9). Na parábola os quatro terrenos ouvem a palavra, mas só a terra boa “ouve a palavra e a compreende” e dá fruto (13:23).
O que o Salmo 115 tem a ver com Apocalipse 3:13?
O Salmo 115 diz que os ídolos “têm ouvidos e não ouvem” e que quem confia neles fica semelhante a eles. Isaías 6, citado por Jesus em Mateus 13, fala de um povo de ouvidos endurecidos numa terra cheia de ídolos. O estudioso G. K. Beale lê o “quem tem ouvidos” do Apocalipse nessa linha; é leitura de um estudioso, porque o Apocalipse não cita o Salmo 115 diretamente.
Ouvir e obedecer são a mesma coisa na Bíblia?
No hebraico bíblico não há verbo separado para obedecer: usa-se o mesmo verbo de ouvir, cuja raiz aparece 92 vezes em Deuteronômio, segundo o rabino Jonathan Sacks. No grego, obedecer é hypakoúō, “ouvir debaixo”. Por isso Apocalipse 1:3 chama de felizes os que ouvem e guardam.
Por que a frase muda de lugar nas sete cartas?
Nas três primeiras cartas ela vem antes da promessa ao vencedor; nas quatro últimas, depois. O texto não explica a mudança, e as explicações dos estudiosos são hipóteses. O que é certo é que a frase está nas sete: nenhuma igreja ficou sem esse chamado.
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