A Bíblia não explica quem eram os nicolaítas: o grupo aparece só em Apocalipse 2:6 e 2:15. O que sabemos vem de duas direções: a pista bíblica (em 2:14-15 eles aparecem "de igual modo" ao lado da doutrina de Balaão, comida sacrificada a ídolos e imoralidade) e o contexto histórico: Irineu liga o nome a Nicolau, um dos sete diáconos de Atos 6, e Clemente de Alexandria defende Nicolau, explicando que os seguidores distorceram as palavras dele.
Dois pontos que ajudam: (1) Jesus diz que odeia as obras dos nicolaítas: as práticas, nunca as pessoas; (2) o padrão do erro é o de Balaão: o que o ataque de frente não consegue, o convite atraente consegue.
Depois do aviso mais sério da carta, o que você esperaria? Mais cobrança? Pois é aqui que a carta surpreende: Jesus volta a elogiar. E, no meio do elogio, aparece um dos maiores mistérios do livro.
"Tens, contudo, a teu favor que odeias as obras dos nicolaítas, as quais eu também odeio."
APOCALIPSE 2:6 · Almeida Revista e AtualizadaA estrutura da carta
Elogios nos versículos 2 e 3, correção nos versículos 4 e 5, e agora, antes de encerrar, o elogio de novo. A correção ficou no meio, cercada de reconhecimento dos dois lados. O erro de Éfeso era grave; nem por isso Jesus apagou o que ainda estava certo.
Quem eram os nicolaítas?
Com toda a honestidade: a Bíblia não fala nada sobre eles. O grupo aparece duas vezes, aqui e na carta a Pérgamo, e, nas duas, Jesus fala como quem menciona algo que aquelas igrejas conheciam bem.
O nome, porém, tem um formato conhecido: na época, um grupo era chamado pelo nome do fundador. "Nicolaítas" soa como "os de Nicolau", e o único Nicolau da Bíblia é um dos sete primeiros diáconos, escolhido para servir às mesas, descrito em Atos 6 como homem de boa reputação, cheio do Espírito Santo e de sabedoria. Nenhuma palavra negativa sobre ele.
O que Irineu escreveu
Ninguém sabe o ano exato em que Irineu nasceu: as estimativas vão de 120 a 140. Ele passou a infância na região das sete igrejas: ele mesmo conta, numa carta a um amigo chamado Florino, que ainda menino ouvia Policarpo, de Esmirna, ensinar ali (Eusébio, História Eclesiástica 5.20.5-7). E Policarpo, segundo o próprio Irineu, tinha convivido com o apóstolo João (Eusébio, História Eclesiástica 5.20.6; Contra as Heresias 3.3.4). Ou seja: Irineu estava a duas gerações do autor do Apocalipse. Por volta de 180, já líder da igreja de Lyon, escreveu o Contra as Heresias, e ali diz que os nicolaítas "tiveram por mestre Nicolau, um dos sete primeiros diáconos", que "vivem desordenadamente" e ensinam que a imoralidade e o comer carne sacrificada aos ídolos "são coisas indiferentes" (Contra as Heresias, I.26.3), citando exatamente Apocalipse 2:6.
Detalhe importante: Irineu criticou as obras do grupo, mas não acusou o Nicolau pessoa. Apontou de onde o nome teria vindo, e parou por aí. E ele não diz de onde tirou essa ligação.
A defesa de Clemente
Clemente de Alexandria, que escreveu por volta do ano 200, completa a história na obra Stromata (livro 3, capítulo 4), relato que Eusébio repetiu depois (História Eclesiástica 3.29.2-3): defendeu Nicolau como homem íntegro e explicou que os seguidores distorceram as palavras dele. Nicolau teria dito algo como "é preciso maltratar a carne": querendo dizer disciplina: dominar os desejos do corpo para viver em santidade. O grupo torceu o sentido: "se o corpo não vale nada, tanto faz o que faço com ele", pode tudo, sem limite.
Um levava para a disciplina. O outro, para a libertinagem.
E repare: as duas informações não se contradizem. Irineu diz de onde o nome veio; Clemente explica como um grupo errado pode ter nascido do nome de um homem certo.
Mas nem todos os antigos pensavam como Clemente. Hipólito de Roma, por volta do ano 225, diz que o próprio Nicolau se desviou e ensinou que tanto faz como se vive (Refutação de Todas as Heresias, livro 7). Epifânio, por volta de 375, também o acusa (Panarion 25). Ou seja: os antigos se dividiram sobre o Nicolau pessoa, e o leitor pode ver os dois lados.
A pista que a Bíblia deixou: Balaão
Na carta a Pérgamo, os nicolaítas aparecem "de igual modo" ao lado da doutrina de Balaão (Apocalipse 2:14-15). E essa história é forte: contratado para amaldiçoar Israel, Balaão não conseguiu, toda vez que abria a boca, saía bênção. Sem querer perder o pagamento, deu ao rei Balaque o conselho da cilada: se não dá para amaldiçoar por fora, dá para fazer cair por dentro. As mulheres de Moabe convidaram os homens de Israel para as festas dos seus deuses, comida sacrificada, imoralidade, e o povo que nenhum exército vencera caiu num convite para festa. Vinte e quatro mil pessoas morreram na praga (Números 25); a Bíblia registra que foi "por conselho de Balaão" (Números 31:16), e ele mesmo acabou morto à espada.
Agora encaixe em Éfeso: lá havia associações de profissões, como a dos ourives de Demétrio (Atos 19:24-25), e William Ramsay (1904) achava que essas associações faziam refeições e festas ligadas a deuses. Um ensino como o de Balaão diria o que muita gente queria ouvir: "pode participar, Deus entende". Éfeso recusou o atalho, mesmo custando caro. E Jesus elogiou.
As obras, não as pessoas
Jesus não diz "odeias os nicolaítas". Diz "odeias as obras". E que Ele também as odeia. Deus odeia o que destrói as pessoas que Ele ama: exatamente porque ama as pessoas. Um médico odeia a doença porque ama o paciente. ♡
Perguntas frequentes
Quem eram os nicolaítas?
A Bíblia não os descreve: eles aparecem só em Apocalipse 2:6 e 2:15. Pela pista de 2:14-15, ensinavam algo "de igual modo" à doutrina de Balaão: tratar a comida sacrificada a ídolos e a imoralidade como coisas indiferentes. Irineu, no século II, liga o grupo ao nome de Nicolau, um dos sete diáconos de Atos 6.
Nicolau, o diácono de Atos 6, fundou os nicolaítas?
Não é possível afirmar. Irineu diz que o grupo o teve "por mestre", mas não acusa o caráter dele; Clemente de Alexandria o defende como homem íntegro, cujas palavras ("é preciso maltratar a carne", no sentido de disciplina) foram distorcidas pelos seguidores para justificar libertinagem. Já Hipólito de Roma e Epifânio acusam o próprio Nicolau. Os antigos se dividiram, e a Bíblia mesma nada afirma.
O que é a doutrina de Balaão?
É a estratégia de fazer o povo de Deus cair por dentro, com um convite, quando o ataque de fora falha. Balaão, impedido de amaldiçoar Israel, aconselhou Balaque a atrair os israelitas para as festas dos deuses de Moabe: comida sacrificada e imoralidade (Números 25; 31:16). Em Apocalipse 2:14 ela reaparece como figura de todo ensino que "libera" a infidelidade.
Jesus odeia? Como isso combina com o amor de Deus?
O versículo mira as obras, nunca as pessoas: "odeias as obras dos nicolaítas, as quais eu também odeio". Quem ama de verdade odeia o que destrói quem ele ama, como o médico odeia a doença porque ama o paciente (ver Salmo 97:10; Romanos 12:9).
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