Em Apocalipse 2:24 Jesus se vira para o outro grupo de Tiatira, os que não seguiram aquele ensino, e diz: "Outra carga não jogarei sobre vós". A expressão "as coisas profundas de Satanás" vem marcada com três palavrinhas, "como eles dizem", que mostram que o nome era do grupo, não de Jesus. E a palavra grega traduzida por "carga" aparece só seis vezes no Novo Testamento, uma delas em Atos 15:28, na carta que os apóstolos escreveram às igrejas.
"Não conheceram" não quer dizer ignorância: quer dizer que eles não entraram, não experimentaram. Não é preciso pôr a mão no fogo para saber que o fogo queima.
No versículo 23, Jesus disse "eu sou aquele que sonda mentes e corações", e vimos que a palavra traduzida por "mentes" é, no original, rins: o órgão mais escondido do corpo, o jeito que aquele povo tinha de dizer "o lugar mais fundo de você". Isso prepara o versículo de hoje, porque agora Ele vai falar de gente que dizia conhecer coisas profundas. Só que o mais fundo de cada pessoa, quem conhece de verdade, é Ele.
"Digo, todavia, a vós outros, os demais de Tiatira, a tantos quantos não têm essa doutrina e que não conheceram, como eles dizem, as coisas profundas de Satanás: Outra carga não jogarei sobre vós;" (Apocalipse 2:24, ARA)
"Digo, todavia": a virada
"Todavia" é uma palavra antiga. Hoje diríamos "mas". E "mas" é palavra de virada.
Pense numa sala de aula. A professora descobre que alguns alunos colaram na prova e chama a atenção deles. Depois se vira para o resto da turma: "mas vocês, que fizeram a prova direitinho...". É isso que Jesus faz aqui. Ele estava falando de um grupo. Agora se vira para outro.
"Os demais de Tiatira": quem são e o que custava ficar
"Os demais" quer dizer "o resto". Mas o resto de quem? Para saber quem ficou fiel, é preciso saber o que estava sendo oferecido, e isso depende de entender a vida naquela cidade.
Tiatira era uma cidade de trabalhadores. Tintureiros, gente do bronze, do couro, da cerâmica. As inscrições da cidade mostram muitas associações de profissão (William Ramsay, 1904; Colin Hemer, 1986), mais ou menos como um sindicato hoje, e elas faziam refeições ligadas a algum deus protetor. Nesses banquetes, a carne podia ter sido oferecida primeiro ao ídolo.
Agora se coloque no lugar de um cristão dali. Você é tintureiro e chega o convite. Se você vai, senta numa mesa dedicada a um ídolo. Se você não vai, é provável que parem de te mandar cliente, e você pode perder amizade, trabalho, dinheiro. Era esse o aperto.
Uma leitura, de William Ramsay, é que foi nesse aperto que apareceu o ensino que a carta chama pelo nome de Jezabel: podia ir à festa, podia comer daquela carne, podia participar. Para quem estava perdendo cliente, aquilo soava como alívio. "Os demais" são os que não foram atrás. A igreja não estava toda perdida.
"Não conheceram" não é ignorância
Jesus diz que esses fiéis "não conheceram". E a frase pode confundir: então eles eram desinformados?
Não. Aqui "conhecer" não é ler sobre um assunto: é entrar nele, experimentar por dentro. Você não precisa pôr a mão no fogo para saber que o fogo queima, e quem nunca pôs não é bobo. Jesus não está elogiando gente que não sabe das coisas. Está elogiando gente que não pôs a mão no fogo.
"Como eles dizem": de quem é a frase?
Antes de dizer "as coisas profundas", Jesus avisa: "como eles dizem". É o equivalente a fazer aspas com os dedos. Ele está dizendo: esse nome não sou eu que dou, são eles.
E aí vem uma pergunta boa: eles falavam só "coisas profundas", ou falavam "coisas profundas de Satanás"?
Pense comigo. Aquele grupo queria convencer cristãos, gente que amava Jesus. Ninguém vende um produto com o nome do inimigo na embalagem. Faz mais sentido que eles chamassem aquilo só de "coisas profundas", um nome bonito, um nome que dá vontade de conhecer. E que dissessem mais ou menos assim: os outros ficam na superfície, nós fomos mais fundo. Quem não entrava era visto como raso, atrasado, simples demais.
Aí Jesus pega o nome bonito e completa: profundas? Sim. De Satanás. É como pegar um vidro com um rótulo lindo escrito "remédio", olhar dentro e descobrir que é veneno.
Há três leituras desta frase, e vale registrar as três. A primeira: o grupo dizia apenas "coisas profundas", e Cristo acrescenta "de Satanás" com indignação. A segunda: o grupo dizia mesmo "de Satanás", com a ideia de que, para vencer o inimigo, é preciso entrar no território dele sem se sujar. A terceira: o "como eles dizem" não se refere à frase anterior, mas à seguinte, a promessa de não impor outra carga. A Bíblia não conta como eles falavam. Mas repare que nas duas primeiras a conclusão é a mesma: o que era vendido como conhecimento profundo vinha do inimigo de Deus.
E Jesus faz isso mais de uma vez nessas cartas. Em Éfeso havia quem dissesse ser apóstolo e não era. Em Esmirna, quem dissesse ser do povo de Deus e não era. Aqui, uma mulher que se declarava profetisa e um grupo que dizia ter coisas profundas.
A isca mais antiga do mundo
Mas por que alguém cairia numa isca dessas? Porque essa isca é muito antiga.
"Porque Deus sabe que no dia em que dele comerdes se vos abrirão os olhos e, como Deus, sereis conhecedores do bem e do mal." (Gênesis 3:5, ARA)
A serpente não disse "desobedeçam". Ela disse: tem um conhecimento maior do lado de lá, e vocês estão perdendo. E o texto conta o que Eva viu na árvore: que era boa para comer, agradável aos olhos e desejável para dar entendimento (Gênesis 3:6). Repare nessa última: a promessa de ficar mais sábia.
Ela comeu, deu ao marido, e os olhos deles realmente se abriram. Só que não para o que a serpente prometeu: eles conheceram o mal por dentro, e o que veio foi vergonha, medo e distância de Deus.
Agora coloque as duas cenas lado a lado. No Éden: "come, que você vai saber mais". Em Tiatira: "entra, que você vai conhecer as coisas profundas". A isca era uma fruta, depois foi a mesa dos ídolos. O anzol era o mesmo.
Uma honestidade aqui: o versículo 24 não cita Gênesis 3. A ponte entre as duas cenas é uma leitura por comparação. Ela tem base dentro do próprio Apocalipse, que mais à frente chama Satanás de "a antiga serpente" (12:9), ligando as duas figuras, mas a comparação com a isca do Éden aplicada a Tiatira é leitura, não afirmação do texto.
"Outra carga não jogarei sobre vós"
E o que Jesus diz para quem não caiu na isca? Ele diz que não vai colocar mais pedra na mochila. Aqui "carga" não é castigo: é o contrário, é alívio.
Mas outra carga? Outra em relação a qual? No começo da igreja, quase todos os que seguiam Jesus eram judeus, criados guardando a lei de Moisés. Quando a mensagem começou a chegar a quem não era judeu, surgiu a discussão: essa gente precisa guardar tudo o que o judeu guarda? Os apóstolos se reuniram em Jerusalém, e a carta que saiu dali dizia assim:
"Pois pareceu bem ao Espírito Santo e a nós não vos impor maior encargo além destas coisas essenciais:" (Atos 15:28, ARA)
Onde a ARA escreve "encargo" está, no original, exatamente a mesma palavra que Jesus usa aqui em Apocalipse quando fala de "carga". E a lista que vem em seguida é curta: abster-se do que foi sacrificado a ídolos, do sangue, da carne de animais sufocados e das relações sexuais ilícitas (Atos 15:29).
Agora repare numa coisa. Nessa lista curta há duas coisas que já apareceram neste estudo: não comer do que foi oferecido aos ídolos e fugir da imoralidade. São exatamente as duas que o ensino de Jezabel mandava quebrar, segundo o versículo 20. Olha o tamanho do problema: a igreja tinha recebido pouquíssimas regras, e justamente essas poucas estavam sendo desfeitas por dentro.
Então a frase ganha sentido inteiro: vocês já estão levando o que precisam, não vou inventar regra nova nem exigir conhecimento secreto. E há o outro lado: ficar fiel em Tiatira já era pesado, custava dinheiro, amizade e trabalho. Jesus não diz "agora provem mais". Ele diz: o peso que vocês já carregam por minha causa, eu vejo.
Vale registrar que essa ligação com Atos 15 é uma leitura, e há quem a conteste: Apocalipse 2:24 não repete os itens da lista de Atos, e "carga" era palavra comum o bastante para ser usada sem citação. O que o texto garante é o sentido, e ele não depende da ligação.
O que este versículo mostra sobre Jesus
Jesus sabe separar as pessoas. Ele não pune a igreja inteira por causa de alguns. É o mesmo olhar que sonda mentes e corações, no versículo anterior, agora trabalhando a favor dos fiéis.
Jesus não se engana com nome bonito. O grupo dizia "profundo"; Ele mostrou de onde aquilo vinha. Ele não olha o rótulo, olha o que tem dentro do vidro.
Jesus não complica a vida de quem está sendo fiel. O caminho dele não é um segredo que só alguns descobrem. O que Ele pede, Ele já deu.
O que isso muda hoje
Essa isca continua sendo jogada. Talvez você já tenha ouvido alguma destas frases: "você é muito certinho", "você precisa experimentar para saber como é", "tem uma verdade mais profunda que a sua igreja não te conta". Toda vez que alguém oferecer um conhecimento maior do lado de fora do caminho de Deus, lembre do Éden.
"Pois a vossa obediência é conhecida por todos; por isso, me alegro a vosso respeito; e quero que sejais sábios para o bem e símplices para o mal." (Romanos 16:19, ARA)
Não conhecer o mal por dentro não é atraso. É proteção. Você não precisa pôr a mão no fogo.
E se você está perdendo alguma coisa porque não entrou onde todo mundo entrou, lembre dos demais de Tiatira. Eles também perdiam, e Jesus viu cada um deles. Ele vê você também, e não vai colocar mais pedra na sua mochila.
O que este estudo não está dizendo
Não está dizendo que ser fiel é fácil, nem que Deus tira o custo: os demais de Tiatira podiam continuar pagando um preço, e o que o versículo promete é que outro peso não será acrescentado.
Também não está dizendo que estudar a fundo é errado, porque o problema não era profundidade, era a origem do que estava sendo vendido como profundo. E não está dizendo que o versículo cita Gênesis 3 ou Atos 15 de forma expressa: ele não cita nenhum dos dois.
Perguntas frequentes
O que são "as coisas profundas de Satanás" em Apocalipse 2:24?
É uma expressão marcada por Jesus com as palavras "como eles dizem", ou seja, era o nome que o próprio grupo de Tiatira usava. Há três leituras: que eles diziam apenas "coisas profundas" e Cristo acrescentou "de Satanás" para desmascarar a propaganda; que eles diziam mesmo "de Satanás", com a ideia de entrar no território do inimigo sem se sujar; ou que o "como eles dizem" aponta para a frase seguinte.
Quem são "os demais de Tiatira"?
São os cristãos daquela igreja que não seguiram o ensino que a carta chama pelo nome de Jezabel. A expressão mostra que a igreja não estava toda perdida: no meio da confusão havia gente que continuou fiel, mesmo que isso pudesse ter um preço.
"Não conheceram" quer dizer que eles eram ignorantes?
Não. Aqui "conhecer" não é ler sobre um assunto, é entrar nele e experimentar por dentro. Jesus não está elogiando gente desinformada, e sim gente que não pôs a mão no fogo. É o mesmo sentido de Romanos 16:19, quando Paulo diz que quer os cristãos sábios para o bem e símplices para o mal.
O que significa "outra carga não jogarei sobre vós"?
Carga é peso, o que se carrega nas costas. A frase não é ameaça, é alívio: Jesus está dizendo que não vai acrescentar mais peso àqueles que já pagavam um preço por ser fiéis, nem exigir deles nenhum conhecimento secreto.
Qual é a ligação entre Apocalipse 2:24 e Atos 15?
A palavra grega traduzida por "carga" em Apocalipse 2:24 é a mesma que a ARA traduz por "encargo" em Atos 15:28, e aparece só seis vezes no Novo Testamento. A lista curta de Atos 15:29 inclui justamente as duas práticas que o ensino de Jezabel liberava. A ligação é uma leitura, e há quem a conteste, porque o versículo não repete os itens daquela lista.
Apocalipse 2:24 tem relação com Gênesis 3?
O versículo não cita Gênesis 3. A comparação é uma leitura: no Éden a promessa era "sereis conhecedores do bem e do mal", e em Tiatira era "venham conhecer as coisas profundas". Ela tem base no próprio Apocalipse, que chama Satanás de "a antiga serpente" em 12:9, mas continua sendo comparação, não afirmação do texto.
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