Em Apocalipse 2:15 Jesus termina de dizer o que tem contra Pérgamo: dentro daquela igreja fiel havia gente “sustentando a doutrina dos nicolaítas”. A Bíblia não descreve o que os nicolaítas ensinavam; o que ela deixa claro é o tipo de erro, o mesmo do versículo anterior: dava para seguir Jesus e continuar nas festas dos ídolos. Jesus e mais alguma coisa.
O detalhe que amarra tudo está no verbo. “Conservas o meu nome” (2:13) e “sustentam a doutrina” (2:14 e 2:15) são, no grego, a mesma palavra: krateō (κρατέω), segurar firme. A mesma mão que segurava Jesus segurava o erro junto.
E repare com quem Jesus fala: com a igreja, “tu tens”. Ela não pregava aquilo, só deixava. E, segundo 2 João 11, quem dá as boas-vindas ao ensino errado se faz cúmplice dele.
Tem uma igreja no Apocalipse que fez quase tudo certo. Não negou Jesus. Viu um irmão morrer pela fé e não recuou. Morava no lugar mais difícil de ser cristão em toda a província. E mesmo assim ouviu de Jesus: “tenho contra ti”.
"Outrossim, também tu tens os que da mesma forma sustentam a doutrina dos nicolaítas."
APOCALIPSE 2:15 · Almeida Revista e AtualizadaPrimeiro, o que Pérgamo tinha de bom
Antes de falar do erro é preciso lembrar do elogio, porque sem ele o erro não faz sentido. Dois versículos antes, Jesus diz: “Conheço o lugar em que habitas, onde está o trono de Satanás, e que conservas o meu nome e não negaste a minha fé, ainda mesmo nos dias de Antipas, minha testemunha, meu fiel, o qual foi morto entre vós” (Ap 2:13).
Pérgamo tinha um enorme altar a Zeus, um templo de Asclépio e foi a primeira cidade da Ásia a erguer um templo dedicado ao culto do imperador. Ser cristão ali era ser diferente de todo mundo, todo dia. E eles foram. Até com Antipas morto, a igreja não recuou.
É uma igreja corajosa. É por isso que o “tenho contra ti” pesa tanto.
O problema não vinha de fora
No versículo 14 vem o “todavia”. E olhe de onde vem o problema: “tens aí os que…”. Não é perseguição, não é o imperador, não é o templo vizinho. Está dentro da igreja. E a igreja sabia.
O que o ensino errado dizia, na vida real
Em Pérgamo, como em todo o mundo greco-romano, a vida social passava pelos templos. As associações de trabalho, uma espécie de sindicato de artesãos e comerciantes, faziam reuniões e festas nos recintos sagrados. Casamento, aniversário, negócio fechado: tinha sacrifício, tinha a refeição com a carne oferecida ao ídolo e tinha a festa depois. Quem não ia perdia negócio, amizade e lugar na sociedade.
Foi aí que apareceu um ensino muito sedutor dentro da igreja: você pode seguir Jesus e continuar indo nas festas. Pode comer na mesa dos ídolos. Uma coisa não atrapalha a outra.
Repare que esse ensino não mandava ninguém largar Jesus. Era Jesus, mais alguma coisa. Esse era o erro. E é isso que o torna perigoso: o erro mais comum quase nunca é “abandone Jesus”, é “fique com Jesus e não precisa abrir mão de nada”.
Isso já tinha acontecido antes: a doutrina de Balaão
Jesus não inventou uma acusação nova. Ele chama o ensino de “doutrina de Balaão” e manda a igreja abrir o livro de Números.
Balaque, rei de Moabe, contratou o profeta Balaão para amaldiçoar Israel (Nm 22:1-6). Balaão tentou três vezes e as três vezes Deus transformou a maldição em bênção. Ele não conseguiu. Então veio o outro caminho: em Números 25:1-3, Israel é convidado para as festas e os sacrifícios de Moabe, come e se curva diante de Baal-Peor. E Números 31:16 diz de quem foi a ideia: “por conselho de Balaão”.
O que a maldição não derrubou, o convite derrubou. Nenhuma espada foi levantada.
Por que o “também” muda a leitura
O versículo 15 começa com duas palavras que parecem enfeite: “outrossim, também”. Não são. Jesus já tinha falado de um grupo, o de Balaão. Se fosse o mesmo, não precisaria do “também”. Em Pérgamo havia mais de um grupo, com nomes diferentes.
Mas ele acrescenta “da mesma forma”: nomes diferentes, o mesmo tipo de erro.
O nome nicolaítas já tinha aparecido na carta de Éfeso: “odeias as obras dos nicolaítas, as quais eu também odeio” (Ap 2:6). E aqui está uma diferença que vale reparar. Em Éfeso, Jesus fala das obras dos nicolaítas e a igreja rejeitou: virou elogio. Em Pérgamo, ele fala da doutrina dos nicolaítas e a igreja deixou: virou “tenho contra ti”. O erro subiu de nível.
Uma honestidade necessária: a Bíblia cita o nome dos nicolaítas duas vezes e nunca descreve o que eles ensinavam. As descrições que existem vêm de Irineu (século II) e Clemente de Alexandria (século III), e são tradição posterior, não texto bíblico.
O verbo que aparece três vezes na mesma carta
Este é o detalhe que muda a leitura da carta inteira.
No grego, o verbo traduzido por “conservas” no versículo 13 e o verbo traduzido por “sustentam” nos versículos 14 e 15 são a mesma palavra: krateō (κρατέω, Strong G2902), que significa segurar com força, agarrar, não soltar. É o mesmo verbo usado quando Jesus segura a mão da menina para levantá-la (Mc 5:41).
- 2:13 — “conservas o meu nome” → segurava Jesus.
- 2:14 — “sustentam a doutrina de Balaão” → segurava o erro.
- 2:15 — “sustentam a doutrina dos nicolaítas” → segurava o erro.
Uma vez para Jesus, duas para o erro. O elogio e a reclamação usam o mesmo verbo. E a mesma mão.
Pérgamo não era uma igreja de mão fraca, que soltou Jesus. Era uma igreja de mão cheia.
“Mas eu não prego isso”
Aqui vale separar três coisas que a gente costuma misturar. Doutrina é o ensino, a ideia. Pregar é sair espalhando a ideia. Sustentar é o que fica no meio: a pessoa ouviu, achou que fazia sentido, guardou para si e passou a viver de acordo. Não prega, mas não larga.
Em Pérgamo havia as três camadas: quem ensinava, quem segurava, e a igreja que sabia e deixava. E repare com quem Jesus fala: “tu tens”. Ele não disse “tu pregas”.
O próprio João, que escreveu o Apocalipse, tinha escrito numa carta curta o que fazer quando chega um pregador com outro ensino: “não o recebais em casa, nem lhe deis as boas-vindas. Porquanto aquele que lhe dá boas-vindas faz-se cúmplice das suas obras más” (2 João 10-11).
Cúmplice. Quem abre a porta participa. Porque o erro não fica parado no canto: cresce, ganha gente, ganha lugar. E um dia a igreja que só deixava vira a igreja que ensina. Foi assim com Israel em Moabe: ninguém largou Deus, só sentaram na mesa errada.
O que fica
Pérgamo não largou Jesus. O erro dela não foi largar. Foi não largar o resto.
E esse talvez seja o erro mais comum de quem já segue Jesus. A gente não nega Ele. A gente só vai juntando coisas: Jesus e aquele hábito, Jesus e aquela mesa, Jesus e aquele ensino que a gente sabe que não é dEle, mas deixa ficar porque é gente querida, porque dá trabalho, porque parece duro demais mexer.
Pérgamo também achava.
No próximo versículo, o 2:16, Jesus dá uma ordem de uma palavra só e faz um aviso: vai “pelejar” com a espada da sua boca. Mas repare: “venho a ti” e “pelejarei contra eles”. Quem é “ti”? Quem é “eles”?
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