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Caderno de Estudos · Estudo nº 035 · 404 versículos em 404 dias

Estudo de Apocalipse 2:15: caderno completo e PDF grátis

Leia primeiro. Assista depois. Guarde para sempre.

✦Onde paramos

Ontem, no versículo 14, Jesus começou a dizer o que tinha contra Pérgamo, e chamou o problema por um nome antigo: a doutrina de Balaão. Vimos a história do profeta contratado para amaldiçoar Israel, que não conseguiu, e que então ensinou outro caminho: não atacar, convidar.

Hoje o versículo 15 fecha a frase. É um versículo curto, de uma linha só, e por isso muita gente passa por ele rápido. Mas ele carrega três coisas que valem um caderno inteiro: um pronome que quase toda tradução esconde, um verbo que aparece três vezes na mesma carta e um nome sobre o qual a Bíblia se cala de propósito.

Este caderno não repete o vídeo. Aqui a gente abre o texto grego palavra por palavra, percorre as fontes antigas com nome e obra, compara Éfeso com Pérgamo lado a lado, e separa com honestidade o que o texto afirma do que é reconstrução histórica.

✦Como usar este caderno

Este caderno é para todo mundo: para quem nunca estudou o Apocalipse, para quem sempre quis entender e achou difícil, e para quem já conhece o livro e quer ir mais fundo. Você não precisa saber grego nem história antiga. Tudo vem explicado e transcrito.

  1. Ore. Faça a oração de abertura ou converse com Deus com as suas palavras.
  2. Leia o versículo. Devagar, duas vezes. Se puder, em voz alta.
  3. Estude. Sublinhe, marque, escreva nas margens. Este caderno é seu.
  4. Confira. Toda referência aqui tem capítulo e versículo, ou nome de autor e obra. Confira você mesma.
  5. Anote. No fim há uma página para as suas anotações e outra para a sua oração.

Este estudo tem uma parte de manuscritos e uma parte de fontes antigas mais detalhadas do que o normal. Isso é de propósito: o nome “nicolaítas” é um dos que mais geram afirmação sem base, e a melhor defesa contra isso é saber exatamente de onde vem cada informação.

✦Oração de abertura

Senhor, mostra-me a minha mão. O que eu estou segurando junto contigo sem perceber? Dá-me coragem para largar o que não é teu, e cuidado para não afirmar o que a tua Palavra não afirma. Amém.

✦O versículo de hoje

Apocalipse 2:15
“Outrossim, também tu tens os que da mesma forma sustentam a doutrina dos nicolaítas.”
Almeida Revista e Atualizada (ARA)

Três palavras da tradução merecem tradução própria antes de qualquer coisa:

  1. Outrossim: palavra antiga do português, hoje quase fora de uso. Quer dizer “além disso”, “do mesmo modo”.
  2. Sustentam: aqui não é sustentar financeiramente nem defender uma tese. É segurar firme, manter na mão, não deixar cair.
  3. Doutrina: ensino. O conjunto de ideias que alguém ensina e outros aceitam como verdade.

Em português de hoje: “Além disso, você também tem aí dentro gente que, do mesmo jeito, segura o ensino dos nicolaítas.”

✦1. O versículo palavra por palavra no grego

Você não precisa saber grego. Cada palavra vem com o som aproximado, o sentido e o número Strong, que é o código usado em qualquer concordância bíblica para você conferir sozinha.

  1. οὕτως (hoútōs, G3779): “assim”, “deste modo”. É a palavra que a ARA traduziu por “outrossim”. Ela liga este versículo ao anterior: o que vem agora é do mesmo tipo do que veio antes.
  2. ἔχεις (écheis, G2192): “tens”. Verbo simples de posse: ter, haver dentro de si.
  3. καὶ σύ (kaì sý, G2532 + G4771): “também tu”. E aqui está um detalhe que quase nenhuma tradução consegue mostrar: em grego, o verbo já carrega o sujeito. “Écheis” sozinho já significa “tu tens”. Quando o escritor acrescenta o pronome “σύ” separado, ele está fazendo força na palavra. É como se, em português, alguém dissesse: “Você também tem.” Com o dedo apontado.
  4. κρατοῦντας (kratoúntas, de krateō, G2902): “os que seguram”. É um particípio no presente, e no grego o presente indica ação em andamento, contínua. Não é “os que um dia seguraram”. É “os que estão segurando, agora, e continuam segurando”.
  5. τὴν διδαχήν (tēn didachḗn, G1322): “o ensino”, “a doutrina”. Dessa palavra vem o nome de um documento cristão muito antigo, a Didaquê, que quer dizer simplesmente “o ensino”.
  6. τῶν Νικολαϊτῶν (tōn Nikolaïtōn, G3531): “dos nicolaítas”.
  7. ὁμοίως (homoíōs, G3668): “da mesma forma”, “semelhantemente”. É a palavra que amarra tudo: os dois grupos são diferentes, o erro é do mesmo tipo.

✦ Uma diferença entre Bíblias que vale você conferir

Se você abrir a Almeida Corrigida Fiel, a King James em português ou algumas Bíblias mais antigas, vai encontrar no fim do versículo 15 uma frase a mais: algo como “…a doutrina dos nicolaítas, o que eu aborreço”. A Almeida Revista e Atualizada, a Nova Almeida Atualizada e a NVI não trazem essa frase.

Não é erro de ninguém. É diferença entre famílias de manuscritos gregos: as edições mais antigas usadas pelas traduções recentes não trazem essa expressão aqui, e as edições que estavam disponíveis no tempo das traduções mais antigas traziam. Confira nas Bíblias que você tem em casa e veja com os seus olhos.

E repare: mesmo sem essa frase no versículo 15, a mesma ideia já está dita por Jesus na carta de Éfeso, com todas as letras: “as quais eu também odeio” (Apocalipse 2:6). O sentido do estudo não muda.

✦2. O pronome que muda o alvo da acusação

Vamos parar naquele “σύ” enfático, porque ele decide com quem Jesus está falando.

Existe uma leitura muito comum desse versículo, e ela é errada: a de que Jesus está brigando com os nicolaítas. Não está. Ele está falando com a igreja. O “tu” do versículo é o mesmo “tu” do versículo 13, quando Ele elogia: “conservas o meu nome”, “não negaste a minha fé”.

Ou seja: a mesma pessoa que recebeu o elogio recebe a cobrança. Não são dois interlocutores. É um só.

E o que Jesus diz que essa igreja faz? Ela tem. Não “ensina”, não “prega”, não “inventou”. Tem. A acusação é de posse, de convivência, de abrigo.

Jesus não disse “tu pregas”. Disse “tu tens”.

✦3. O verbo “segurar” no Apocalipse inteiro

Este é o achado central deste versículo, e ele só aparece quando a gente sai da tradução e olha o original.

O verbo krateō (κρατέω, G2902) significa segurar com força, agarrar, prender, não soltar. É o mesmo verbo usado quando Jesus toma pela mão a menina para levantá-la (Marcos 5:41) e quando os homens prendem Jesus no Getsêmani (Mateus 26:50).

Na carta de Pérgamo ele aparece três vezes em três versículos seguidos, e a Almeida traduziu de dois jeitos diferentes, o que faz o leitor de português perder a ligação:

  1. Apocalipse 2:13: “conservas o meu nome” → o que estava sendo segurado: Jesus.
  2. Apocalipse 2:14: “sustentam a doutrina de Balaão” → o que estava sendo segurado: o ensino errado.
  3. Apocalipse 2:15: “sustentam a doutrina dos nicolaítas” → o que estava sendo segurado: o ensino errado.

Uma vez para Jesus. Duas para o erro. O elogio e a cobrança usam o mesmo verbo, na mesma carta, para a mesma igreja.

A mesma mão que segurava Jesus segurava o erro junto.

E vale ampliar o olhar, porque esse verbo atravessa o livro inteiro e sempre em momentos de peso:

  1. Apocalipse 2:1: Jesus é “aquele que tem na sua destra as sete estrelas”. É o mesmo verbo: Ele segura as igrejas.
  2. Apocalipse 2:25: a Tiatira: “conservai o que tendes, até que eu venha”.
  3. Apocalipse 3:11: a Filadélfia: “conserva o que tens, para que ninguém tome a tua coroa”.
  4. Apocalipse 7:1: os anjos “seguravam os quatro ventos da terra”.
  5. Apocalipse 20:2: o anjo “segurou o dragão”.

Junte as pontas: Jesus segura as igrejas na mão dEle. Ele pede que as igrejas segurem o que receberam. E em Pérgamo, a mão que O segurava segurava outra coisa junto. A imagem da carta inteira é de mãos.

Sobre o número Strong G2902: se você quiser conferir cada uma dessas ocorrências, procure “krateo 2902” em qualquer concordância on-line gratuita e ela lista todas as vezes em que a palavra aparece no Novo Testamento.

✦4. A palavra “doutrina” no Apocalipse

Vale um segundo levantamento, curto e revelador. A palavra didachē (ensino, doutrina) aparece três vezes em todo o Apocalipse, e as três estão no capítulo 2, nas cartas:

  1. 2:14: “a doutrina de Balaão”.
  2. 2:15: “a doutrina dos nicolaítas”.
  3. 2:24: a Tiatira: “quantos não têm essa doutrina…”.

As três vezes que o Apocalipse fala de “doutrina”, é para apontar ensino errado dentro da igreja. Não é coincidência de vocabulário: é o assunto das cartas. O livro que a gente associa a feras e trombetas começa tratando de um problema muito mais doméstico, o que se ensina e o que se tolera na comunidade.

✦5. Éfeso e Pérgamo lado a lado

O nome “nicolaítas” aparece duas vezes na Bíblia, e as duas no Apocalipse. A primeira é na carta de Éfeso:

Apocalipse 2:6
“Tens, contudo, a teu favor que odeias as obras dos nicolaítas, as quais eu também odeio.”
Almeida Revista e Atualizada (ARA)

Comparando as duas cartas, a diferença salta:

  1. Em Éfeso, Jesus fala das obras dos nicolaítas. Coisas que eles faziam. A igreja odiava aquilo. Resultado: elogio (“tens a teu favor”).
  2. Em Pérgamo, Jesus fala da doutrina dos nicolaítas. Coisas que eles ensinavam. A igreja tinha gente segurando aquilo. Resultado: “tenho contra ti”.

São dois eixos de mudança, e os dois pioram:

  1. O erro mudou de nível: de prática (“obras”) para ensino (“doutrina”). Prática errada uma pessoa faz e sente peso. Ensino errado explica por que não precisa sentir peso. É a prática ganhando justificativa.
  2. A igreja mudou de postura: de rejeição (“odeias”) para convivência (“tens”). E repare que a palavra que Jesus elogia em Éfeso é forte: odiar. Não é “discordar educadamente”. Éfeso tinha uma clareza que Pérgamo perdeu.

Uma nota de justiça com Éfeso: a mesma carta que elogia esse ódio ao erro é a carta que repreende Éfeso por ter deixado o primeiro amor (Apocalipse 2:4). As duas igrejas tinham metade da coisa. Éfeso tinha a firmeza sem o amor; Pérgamo tinha a coragem sem a firmeza. Nenhuma das duas está sendo apresentada como modelo completo.

✦6. Quem eram os nicolaítas: o que a Bíblia diz e o que ela não diz

Aqui é onde é preciso ter mais cuidado, porque este é um dos assuntos em que mais se afirma coisa sem base.

O que a Bíblia diz: o nome aparece duas vezes (Apocalipse 2:6 e 2:15). Nas duas, Jesus reprova. Em 2:6 Ele diz que odeia as obras deles. Em 2:15 Ele diz que o ensino deles é “da mesma forma” que o de Balaão. É isso.

O que a Bíblia não diz: quem fundou o grupo, quantos eram, o que exatamente ensinavam, se tinham escritos, se ainda existiam depois. Nada disso está no texto.

Tudo o que se diz além disso vem de escritores cristãos dos séculos seguintes, e eles não concordam entre si:

  1. Ireneu de Lyon, por volta do ano 180, liga os nicolaítas a Nicolau, um dos sete escolhidos em Atos 6:5, e diz que eles ensinavam que adultério e carne oferecida a ídolo não tinham importância (Contra as Heresias 1.26.3). Ele não diz de onde tirou essa ligação.
  2. Clemente de Alexandria (Stromata, livro III, capítulo 4), por volta do ano 200, conta uma história bem diferente: para ele, Nicolau era um homem íntegro, e uma frase dele foi mal interpretada por gente que quis usá-la para justificar a própria imoralidade. Ou seja: o grupo teria pegado o nome de alguém que não pregava aquilo.
  3. Eusébio de Cesareia, por volta do ano 325, repete a história de Clemente e diz que a seita dos nicolaítas “durou muito pouco tempo” (História Eclesiástica 3.29).
  4. Existe ainda uma explicação pelo significado do nome, muito repetida em pregações: “Nicolau” em grego junta nikáō (vencer) e laós (povo), e daí se conclui que os nicolaítas seriam “os que dominam o povo”. Isso é um jogo de palavras possível, mas nenhum dos autores antigos citados aqui (Ireneu, Clemente, Eusébio) faz essa ligação, e o nome Nicolau era um nome comum de pessoa naquela época, como João ou Pedro hoje. Este caderno registra a hipótese e não a usa como base para nada.

✦ Por que isso importa para você

Se um dia alguém te disser com muita segurança “os nicolaítas eram tal coisa”, agora você sabe o tamanho exato da base: duas menções na Bíblia, sem descrição, e dois autores do século II e III que discordam entre si. Dá para estudar, dá para comparar, mas não dá para afirmar como se estivesse escrito.

E a boa notícia é esta: para entender Apocalipse 2:15, você não precisa saber quem eles eram. Jesus já disse o que importa quando escreveu “da mesma forma”. O erro dos nicolaítas era do mesmo tipo do erro de Balaão. E esse, o texto descreve inteiro.

✦7. O erro descrito: o convite, não o ataque

Volte ao versículo anterior, porque é lá que o erro está descrito:

Apocalipse 2:14
“Tenho, todavia, contra ti algumas coisas, pois que tens aí os que sustentam a doutrina de Balaão, o qual ensinava a Balaque a armar ciladas diante dos filhos de Israel para comerem coisas sacrificadas aos ídolos e praticarem a prostituição.”
Almeida Revista e Atualizada (ARA)

Duas marcas, então: comer coisas sacrificadas aos ídolos e praticar a prostituição. E essas duas marcas não estão juntas por acaso. Elas já vinham juntas, na mesma ordem, num texto muito antigo:

Êxodo 34:15-16
“…para que não faças aliança com os moradores da terra, e, quando eles se prostituírem após os seus deuses e sacrificarem aos seus deuses, alguém te convide, e comas dos seus sacrifícios…”
Almeida Revista e Atualizada (ARA)

Repare no verbo do meio: “alguém te convide”. Décadas antes de Balaão e mais de mil anos antes de Pérgamo, o aviso já estava dado, e o mecanismo já estava nomeado: não é invasão, é convite.

É exatamente o que Balaão descobriu. A história está em Números 22 a 25: Balaque contrata o profeta para amaldiçoar Israel (22:1-6); Balaão tenta três vezes e três vezes a maldição vira bênção (23 e 24); e então, em Números 25:1-3, sem nenhuma espada, Israel é convidado, come dos sacrifícios e se curva diante de Baal-Peor. Quem ligou uma coisa à outra foi o próprio texto bíblico, mais adiante:

Números 31:16
“Eis que estas, por conselho de Balaão, fizeram prevaricar os filhos de Israel contra o SENHOR…”
Almeida Revista e Atualizada (ARA)
O que a maldição não derrubou, o convite derrubou.

Sobre “prostituição”: no Antigo Testamento, esse verbo é usado tanto no sentido literal quanto como imagem de idolatria (é assim em Êxodo 34:15-16, em Oseias e em vários profetas). Em Números 25 as duas coisas aparecem juntas, o que dificulta separar. Este caderno mantém as duas leituras em pé, porque o texto não escolhe uma.

✦8. “Coisas sacrificadas aos ídolos”: o que era isso no dia a dia

Para o leitor de hoje, “carne sacrificada a ídolo” soa como um problema exótico. Para quem morava em Pérgamo, era o problema de todo mês.

A palavra grega é eidōlóthyton (εἰδωλόθυτον, G1494), literalmente “o que foi sacrificado a um ídolo”. Na prática, funcionava assim: o animal era abatido no templo, uma parte era queimada, uma parte ficava com os sacerdotes e o restante ia para o banquete ali mesmo ou para o açougue do mercado. Parte da carne vendida no mercado tinha passado por um altar, tanto que Paulo precisou orientar sobre ela (1 Coríntios 10:25).

E havia as associações de ofício, uma espécie de sindicato de artesãos e comerciantes. Elas se reuniam para refeições ligadas ao deus protetor da associação: sacrifício, comida e bebida. O pesquisador William Ramsay (1904), estudando as inscrições da região, achava que um comerciante dificilmente se mantinha fora delas, e ele mesmo não traz fonte antiga para isso.

Se ele estiver certo, quem não participava não estava fazendo um gesto discreto de fé. Estava arriscando cliente, sócio, convite e reputação. Recusar podia ter preço, em dinheiro e em lugar social.

Por isso a pergunta apareceu tantas vezes na igreja do primeiro século, e recebeu respostas com pesos diferentes:

  1. Atos 15:29: a decisão do concílio de Jerusalém pede que os cristãos se abstenham “das coisas sacrificadas aos ídolos”.
  2. 1 Coríntios 8 e 10: Paulo trata do caso com nuance: o ídolo não é nada, e comida em si não aproxima nem afasta de Deus; mas existe a consciência do irmão mais fraco, e existe uma linha que não se atravessa, a de participar da mesa como culto (1 Coríntios 10:20-21).
  3. Apocalipse 2:14 e 2:20: em Pérgamo e em Tiatira, Jesus aponta a mesma prática, sem nuance, como acusação.

Como conciliar? A leitura mais direta é que Paulo e o Apocalipse tratam de situações diferentes: Paulo discute carne comprada no mercado, longe do templo, e diz que aí a consciência decide; o Apocalipse trata de participar da festa, dentro do culto, com tudo o que vinha junto. Não é a mesma pergunta.

Curiosidade que ajuda a datar o problema: a Didaquê, um manual cristão muito antigo (o nome quer dizer “o ensino”), também traz uma orientação sobre comida sacrificada a ídolos. E o governador romano Plínio, o Jovem, escrevendo ao imperador Trajano por volta do ano 112 sobre os cristãos da sua província, comenta que os templos, quase abandonados, voltaram a ser frequentados, e que os animais para sacrifício (ou a ração deles, conforme a edição do texto latino), que quase ninguém comprava, voltaram a ter compradores. Ou seja: na visão do governador, a presença cristã tinha esvaziado os templos a ponto de pesar no comércio deles. (Plínio, Cartas, livro X, carta 96: a província dele era a Bitínia, não Pérgamo, mas o retrato é do mesmo mundo.)

✦9. Doutrina, pregar e sustentar: três coisas diferentes

Uma pergunta honesta que esse versículo levanta: se a igreja não ensinava aquilo, por que Jesus cobra dela?

A resposta está em separar três coisas que a gente costuma juntar:

  1. Doutrina é o ensino, o conteúdo, a ideia.
  2. Pregar é sair espalhando a ideia. É ato público.
  3. Sustentar (krateō) é o que fica no meio: a pessoa ouviu, achou que fazia sentido, guardou para si e passou a viver de acordo. Não prega. Mas não larga.

Em Pérgamo havia, portanto, três camadas: quem ensinava; quem segurava o ensino como seu, sem ensinar; e a igreja, que sabia das duas coisas e seguia com elas dentro. O “tu tens” de Jesus atinge a terceira camada.

E não é uma cobrança inventada. O mesmo João que escreveu o Apocalipse já tinha escrito, numa carta curta, o que fazer quando um pregador chega com outro ensino:

2 João 10-11
“Se alguém vem ter convosco e não traz este ensino, não o recebais em casa, nem lhe deis as boas-vindas. Porquanto aquele que lhe dá boas-vindas faz-se cúmplice das suas obras más.”
Almeida Revista e Atualizada (ARA)

E aqui tem um detalhe de vocabulário que fecha o raciocínio. O verbo traduzido por “faz-se cúmplice” é koinōnéō (κοινωνέω, G2841): ter parte, compartilhar, ter comunhão. É da mesma família de koinōnía, a palavra que o Novo Testamento usa para a comunhão dos cristãos, a mais bonita das palavras de igreja.

Ou seja, João usa a palavra da comunhão para descrever o que acontece quando alguém abre a porta para o erro: você entra em comunhão com aquilo. Não como acusação exagerada. Como descrição do que de fato acontece.

Tolerar não é neutro. É uma forma de ter parte.

E há um motivo prático para Jesus não deixar passar: o erro não fica parado. Em Éfeso era prática e a igreja rejeitou. Em Pérgamo virou ensino e a igreja deixou. Na carta seguinte, a de Tiatira, já existe alguém ensinando com autoridade reconhecida dentro da igreja (Apocalipse 2:20). Lidas em sequência, as três cartas mostram a mesma coisa crescendo, uma carta depois da outra.

✦O que este versículo está me mostrando sobre Jesus?

  1. Ele lê a igreja inteira, não só a parte visível. Viu a coragem de Pérgamo debaixo da pressão da cidade e elogiou. Viu o ensino errado circulando na sala ao lado e apontou. As duas coisas, no mesmo fôlego.
  2. Ele usa a mesma palavra para o elogio e para a cobrança. Não separa o cristão “bom” do cristão “problemático”: mostra que era a mesma mão. É uma correção sem desprezo.
  3. Ele não aceita dividir lugar. Não por ciúme, mas porque conhece o fim da história. Ele mesmo abriu Números para mostrar a Pérgamo onde aquilo tinha terminado da última vez.
  4. Ele avisa antes de agir. Nomeia o erro, dá o exemplo histórico, e só então, no versículo seguinte, pede a mudança. Quem não se importa não avisa.

✦Aplicação para a minha vida

Pérgamo não largou Jesus. O erro dela não foi largar. Foi não largar o resto.

E talvez esse seja o erro mais comum de quem já anda com Jesus há tempo. A gente não nega. A gente vai juntando. Jesus e aquele hábito. Jesus e aquela mesa. Jesus e aquele ensino que a gente sabe que não é dEle, mas que a gente deixa ficar porque é gente querida, porque dá trabalho, porque parece duro demais mexer.

Note que Jesus não pediu a Pérgamo que expulsasse ninguém neste versículo. Ele descreveu. No versículo 16 Ele vai pedir uma coisa só, e vamos ver amanhã qual é. Por hoje, a pergunta é mais simples e mais difícil: o que está na sua mão junto com Ele?

Pérgamo não largou Jesus. Só não largou o resto.

✦Resumo do estudo

  1. O versículo 15 fecha uma frase iniciada no 14: os dois precisam ser lidos juntos.
  2. No grego, o pronome “σύ” (tu) vem solto e enfático: Jesus está falando com a igreja, não com o grupo errado.
  3. O verbo é “ter”, não “ensinar”. A acusação é de convivência, não de pregação.
  4. Kratoúntas é particípio presente: ação em andamento, gente segurando e continuando a segurar.
  5. Krateō (G2902) aparece três vezes na carta: uma para o nome de Jesus (2:13) e duas para o ensino errado (2:14 e 2:15). A mesma mão.
  6. O mesmo verbo atravessa o livro: Jesus segura as igrejas (2:1), pede que elas segurem o que têm (2:25; 3:11), e o anjo segura o dragão (20:2).
  7. Didachē (doutrina) aparece três vezes no Apocalipse, todas no capítulo 2 e todas apontando ensino errado.
  8. Em Éfeso eram “obras” e a igreja odiava: elogio. Em Pérgamo virou “doutrina” e a igreja tinha: “tenho contra ti”. O erro subiu e a postura desceu.
  9. A Bíblia nunca descreve o que os nicolaítas ensinavam. Ireneu e Clemente de Alexandria contam versões diferentes; a etimologia “vencer o povo” não aparece em Ireneu, Clemente nem Eusébio.
  10. “Da mesma forma” (homoíōs) é a chave: o erro deles era do mesmo tipo do de Balaão, e esse o texto descreve inteiro.
  11. Êxodo 34:15-16 já unia convite, sacrifício e prostituição, séculos antes: o mecanismo do erro é antigo.
  12. “Coisas sacrificadas aos ídolos” incluía carne do mercado (1 Coríntios 10:25) e a mesa das associações de ofício; para William Ramsay, recusar podia custar dinheiro e lugar social.
  13. Em 2 João 11, “faz-se cúmplice” é koinōnéō, da família de koinōnía, comunhão. Tolerar é ter parte.

✦Versículos para ler junto

  1. Apocalipse 2:12-17: a carta a Pérgamo inteira.
  2. Apocalipse 2:1-7: Éfeso: os nicolaítas em 2:6 e a repreensão do primeiro amor em 2:4.
  3. Apocalipse 2:20 e 2:24: Tiatira: o passo seguinte do mesmo problema.
  4. Apocalipse 2:25 · 3:11 · 2:1 · 20:2: o verbo “segurar” em outros pontos do livro.
  5. Êxodo 34:15-16: o convite, o sacrifício e a prostituição, juntos, no Antigo Testamento.
  6. Números 22:1-6; 23; 24: a contratação de Balaão e as bênçãos.
  7. Números 25:1-3 · 31:16: a queda em Baal-Peor e de quem foi o conselho.
  8. Josué 13:22 · Deuteronômio 23:4-5 · Neemias 13:2 · Miqueias 6:5: a memória de Israel sobre Balaão.
  9. 2 Pedro 2:15 · Judas 11: o caminho e o erro de Balaão no Novo Testamento.
  10. Atos 6:5: o único Nicolau que aparece na Bíblia.
  11. Atos 15:29 · 1 Coríntios 8; 10:20-21: a carne sacrificada na igreja primitiva.
  12. 2 João 10-11: dar as boas-vindas e ter parte.
  13. Marcos 5:41 · Mateus 26:50: o verbo “segurar” em cenas do evangelho.

✦Fontes e referências deste estudo

Tudo o que este caderno afirma vem de uma destas fontes. Onde havia dúvida, ela está dita.

  1. Texto bíblico: Almeida Revista e Atualizada (ARA).
  2. Texto grego: Novo Testamento Grego, 28ª edição (Nestle-Aland). Os números Strong usados aqui (G3779, G2192, G2532, G4771, G2902, G1322, G3531, G3668, G1494, G2841) permitem conferir cada palavra em qualquer concordância.
  3. Diferença entre manuscritos no fim do versículo 15: comparação entre as edições críticas modernas e o texto usado por traduções mais antigas. Confira você mesma abrindo duas Bíblias de famílias diferentes, por exemplo a Almeida Revista e Atualizada e a Almeida Corrigida Fiel.
  4. Ireneu de Lyon, Contra as Heresias 1.26.3 (c. 180 d.C.).
  5. Eusébio de Cesareia, História Eclesiástica 3.29 (c. 325 d.C.).
  6. Clemente de Alexandria, Stromata, livro III, capítulo 4 (c. 200 d.C.).
  7. Plínio, o Jovem, Cartas, livro X, carta 96, ao imperador Trajano (c. 112 d.C.), sobre os cristãos e a volta do comércio de animais para sacrifício na Bitínia.
  8. Didaquê (O Ensino dos Doze Apóstolos), documento cristão antigo, com orientação sobre comida sacrificada a ídolos.
  9. Vida social e associações de ofício: a descrição segue o que o próprio Novo Testamento pressupõe em Atos 15, 1 Coríntios 8 e 10 e Apocalipse 2, somada à leitura de W. M. Ramsay, The Letters to the Seven Churches of Asia (1904), cap. 24, que acha “hardly possible” um comerciante manter o negócio fora da associação, sem fonte antiga para isso.

✦ Duas honestidades deste caderno

1. Que Pérgamo tinha dois grupos distintos (o de Balaão e o dos nicolaítas) é a leitura mais direta do “também” e do “da mesma forma”, e é a que este caderno segue. Há quem leia os dois nomes como duas descrições do mesmo grupo. O texto não fecha a questão, e ela não muda o que Jesus está cobrando.

2. A reconstrução do dia a dia de Pérgamo (o açougue, as associações de ofício, o custo social de recusar) é história, não versículo. Ela ajuda a entender o peso da decisão daquela gente, mas o que Jesus afirma é apenas o que está escrito em 2:14-15.

✦Para refletir

Escreva com sinceridade. Ninguém vai ler além de você e de Deus.

1. O que eu estou segurando junto com Jesus que Ele não segura comigo?

2. Éfeso odiava o erro e perdeu o amor; Pérgamo tinha amor e coragem e perdeu a firmeza. Em qual das duas eu me pareço mais hoje?

3. Existe algum ensino que eu não pregaria, mas que eu deixo ficar porque discordar custaria caro?

4. “Faz-se cúmplice” é a palavra de comunhão. Com o que eu ando em comunhão sem ter percebido?

✦Minhas anotações sobre Apocalipse 2:15

✦Minha oração

Escreva aqui a sua oração sobre este versículo.

✦No próximo estudo

Apocalipse 2:16. Depois de descrever o problema, Jesus dá uma ordem de uma palavra só e faz um aviso: vai “pelejar” com a espada da sua boca. Mas repare no detalhe que muda tudo: Ele diz “venho a ti” e “pelejarei contra eles”. Quem é “ti”? Quem é “eles”? E o que significa uma guerra travada com palavras?

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