Pular para o conteúdo
Caderno de Estudos · Estudo nº 035 · 404 versículos em 404 dias

Estudo de Apocalipse 2:15 — caderno completo e PDF grátis

Leia primeiro. Assista depois. Guarde para sempre.

Onde paramos

Ontem, no versículo 14, Jesus começou a dizer o que tinha contra Pérgamo, e chamou o problema por um nome antigo: a doutrina de Balaão. Vimos a história do profeta contratado para amaldiçoar Israel, que não conseguiu, e que então ensinou outro caminho: não atacar, convidar.

Hoje o versículo 15 fecha a frase. É um versículo curto, de uma linha só, e por isso muita gente passa por ele rápido. Mas ele carrega três coisas que valem um caderno inteiro: um pronome que quase toda tradução esconde, um verbo que aparece três vezes na mesma carta e um nome sobre o qual a Bíblia se cala de propósito.

Este caderno não repete o vídeo. Aqui a gente abre o texto grego palavra por palavra, percorre as fontes antigas com nome e obra, compara Éfeso com Pérgamo lado a lado, e separa com honestidade o que o texto afirma do que é reconstrução histórica.

Como usar este caderno

Este caderno é para todo mundo: para quem nunca estudou o Apocalipse, para quem sempre quis entender e achou difícil, e para quem já conhece o livro e quer ir mais fundo. Você não precisa saber grego nem história antiga. Tudo vem explicado e transcrito.

  1. Ore. Faça a oração de abertura ou converse com Deus com as suas palavras.
  2. Leia o versículo. Devagar, duas vezes. Se puder, em voz alta.
  3. Estude. Sublinhe, marque, escreva nas margens. Este caderno é seu.
  4. Confira. Toda referência aqui tem capítulo e versículo, ou nome de autor e obra. Confira você mesma.
  5. Anote. No fim há uma página para as suas anotações e outra para a sua oração.

Este estudo tem uma parte de manuscritos e uma parte de fontes antigas mais detalhadas do que o normal. Isso é de propósito: o nome “nicolaítas” é um dos que mais geram afirmação sem base, e a melhor defesa contra isso é saber exatamente de onde vem cada informação.

Oração de abertura

Senhor, mostra-me a minha mão. O que eu estou segurando junto contigo sem perceber? Dá-me coragem para largar o que não é teu, e cuidado para não afirmar o que a tua Palavra não afirma. Amém.

O versículo de hoje

Apocalipse 2:15
“Outrossim, também tu tens os que da mesma forma sustentam a doutrina dos nicolaítas.”
Almeida Revista e Atualizada (ARA)

Três palavras da tradução merecem tradução própria antes de qualquer coisa:

  1. Outrossim — palavra antiga do português, hoje quase fora de uso. Quer dizer “além disso”, “do mesmo modo”.
  2. Sustentam — aqui não é sustentar financeiramente nem defender uma tese. É segurar firme, manter na mão, não deixar cair.
  3. Doutrina — ensino. O conjunto de ideias que alguém ensina e outros aceitam como verdade.

Em português de hoje: “Além disso, você também tem aí dentro gente que, do mesmo jeito, segura o ensino dos nicolaítas.”

1. O versículo palavra por palavra no grego

Você não precisa saber grego. Cada palavra vem com o som aproximado, o sentido e o número Strong, que é o código usado em qualquer concordância bíblica para você conferir sozinha.

  1. οὕτως (hoútōs, G3779) — “assim”, “deste modo”. É a palavra que a ARA traduziu por “outrossim”. Ela liga este versículo ao anterior: o que vem agora é do mesmo tipo do que veio antes.
  2. ἔχεις (écheis, G2192) — “tens”. Verbo simples de posse: ter, haver dentro de si.
  3. καὶ σύ (kaì sý, G2532 + G4771) — “também tu”. E aqui está um detalhe que quase nenhuma tradução consegue mostrar: em grego, o verbo já carrega o sujeito. “Écheis” sozinho já significa “tu tens”. Quando o escritor acrescenta o pronome “σύ” separado, ele está fazendo força na palavra. É como se, em português, alguém dissesse: “Você também tem.” Com o dedo apontado.
  4. κρατοῦντας (kratoúntas, de krateō, G2902) — “os que seguram”. É um particípio no presente, e no grego o presente indica ação em andamento, contínua. Não é “os que um dia seguraram”. É “os que estão segurando, agora, e continuam segurando”.
  5. τὴν διδαχήν (tēn didachḗn, G1322) — “o ensino”, “a doutrina”. Dessa palavra vem o nome de um documento cristão muito antigo, a Didaquê, que quer dizer simplesmente “o ensino”.
  6. τῶν Νικολαϊτῶν (tōn Nikolaïtōn, G3531) — “dos nicolaítas”.
  7. ὁμοίως (homoíōs, G3668) — “da mesma forma”, “semelhantemente”. É a palavra que amarra tudo: os dois grupos são diferentes, o erro é do mesmo tipo.

✦ Uma diferença entre Bíblias que vale você conferir

Se você abrir a Almeida Corrigida Fiel, a King James em português ou algumas Bíblias mais antigas, vai encontrar no fim do versículo 15 uma frase a mais: algo como “…a doutrina dos nicolaítas, o que eu aborreço. A Almeida Revista e Atualizada, a Nova Almeida Atualizada e a NVI não trazem essa frase.

Não é erro de ninguém. É diferença entre famílias de manuscritos gregos: as edições mais antigas usadas pelas traduções recentes não trazem essa expressão aqui, e as edições que estavam disponíveis no tempo das traduções mais antigas traziam. Confira nas Bíblias que você tem em casa e veja com os seus olhos.

E repare: mesmo sem essa frase no versículo 15, a mesma ideia já está dita por Jesus na carta de Éfeso, com todas as letras: “as quais eu também odeio” (Apocalipse 2:6). O sentido do estudo não muda.

2. O pronome que muda o alvo da acusação

Vamos parar naquele “σύ” enfático, porque ele decide com quem Jesus está falando.

Existe uma leitura muito comum desse versículo, e ela é errada: a de que Jesus está brigando com os nicolaítas. Não está. Ele está falando com a igreja. O “tu” do versículo é o mesmo “tu” do versículo 13, quando Ele elogia: “conservas o meu nome”, “não negaste a minha fé”.

Ou seja: a mesma pessoa que recebeu o elogio recebe a cobrança. Não são dois interlocutores. É um só.

E o que Jesus diz que essa igreja faz? Ela tem. Não “ensina”, não “prega”, não “inventou”. Tem. A acusação é de posse, de convivência, de abrigo.

Jesus não disse “tu pregas”. Disse “tu tens”.

3. O verbo “segurar” no Apocalipse inteiro

Este é o achado central deste versículo, e ele só aparece quando a gente sai da tradução e olha o original.

O verbo krateō (κρατέω, G2902) significa segurar com força, agarrar, prender, não soltar. É o mesmo verbo usado quando Jesus toma pela mão a menina para levantá-la (Marcos 5:41) e quando os homens prendem Jesus no Getsêmani (Mateus 26:50).

Na carta de Pérgamo ele aparece três vezes em três versículos seguidos, e a Almeida traduziu de dois jeitos diferentes, o que faz o leitor de português perder a ligação:

  1. Apocalipse 2:13 — “conservas o meu nome” → o que estava sendo segurado: Jesus.
  2. Apocalipse 2:14 — “sustentam a doutrina de Balaão” → o que estava sendo segurado: o ensino errado.
  3. Apocalipse 2:15 — “sustentam a doutrina dos nicolaítas” → o que estava sendo segurado: o ensino errado.

Uma vez para Jesus. Duas para o erro. O elogio e a cobrança usam o mesmo verbo, na mesma carta, para a mesma igreja.

A mesma mão que segurava Jesus segurava o erro junto.

E vale ampliar o olhar, porque esse verbo atravessa o livro inteiro e sempre em momentos de peso:

  1. Apocalipse 2:1 — Jesus é “aquele que tem na sua destra as sete estrelas”. É o mesmo verbo: Ele segura as igrejas.
  2. Apocalipse 2:25 — a Tiatira: “conservai o que tendes, até que eu venha”.
  3. Apocalipse 3:11 — a Filadélfia: “conserva o que tens, para que ninguém tome a tua coroa”.
  4. Apocalipse 7:1 — os anjos “seguravam os quatro ventos da terra”.
  5. Apocalipse 20:2 — o anjo “segurou o dragão”.

Junte as pontas: Jesus segura as igrejas na mão dEle. Ele pede que as igrejas segurem o que receberam. E em Pérgamo, a mão que O segurava segurava outra coisa junto. A imagem da carta inteira é de mãos.

Sobre o número Strong G2902: se você quiser conferir cada uma dessas ocorrências, procure “krateo 2902” em qualquer concordância on-line gratuita e ela lista todas as vezes em que a palavra aparece no Novo Testamento.

4. A palavra “doutrina” no Apocalipse

Vale um segundo levantamento, curto e revelador. A palavra didachē (ensino, doutrina) aparece três vezes em todo o Apocalipse, e as três estão no capítulo 2, nas cartas:

  1. 2:14 — “a doutrina de Balaão”.
  2. 2:15 — “a doutrina dos nicolaítas”.
  3. 2:24 — a Tiatira: “quantos não têm essa doutrina…”.

As três vezes que o Apocalipse fala de “doutrina”, é para apontar ensino errado dentro da igreja. Não é coincidência de vocabulário: é o assunto das cartas. O livro que a gente associa a feras e trombetas começa tratando de um problema muito mais doméstico, o que se ensina e o que se tolera na comunidade.

5. Éfeso e Pérgamo lado a lado

O nome “nicolaítas” aparece duas vezes na Bíblia, e as duas no Apocalipse. A primeira é na carta de Éfeso:

Apocalipse 2:6
“Tens, contudo, a teu favor que odeias as obras dos nicolaítas, as quais eu também odeio.”
Almeida Revista e Atualizada (ARA)

Comparando as duas cartas, a diferença salta:

  1. Em Éfeso, Jesus fala das obras dos nicolaítas. Coisas que eles faziam. A igreja odiava aquilo. Resultado: elogio (“tens a teu favor”).
  2. Em Pérgamo, Jesus fala da doutrina dos nicolaítas. Coisas que eles ensinavam. A igreja tinha gente segurando aquilo. Resultado: “tenho contra ti”.

São dois eixos de mudança, e os dois pioram:

  1. O erro mudou de nível: de prática (“obras”) para ensino (“doutrina”). Prática errada uma pessoa faz e sente peso. Ensino errado explica por que não precisa sentir peso. É a prática ganhando justificativa.
  2. A igreja mudou de postura: de rejeição (“odeias”) para convivência (“tens”). E repare que a palavra que Jesus elogia em Éfeso é forte: odiar. Não é “discordar educadamente”. Éfeso tinha uma clareza que Pérgamo perdeu.

Uma nota de justiça com Éfeso: a mesma carta que elogia esse ódio ao erro é a carta que repreende Éfeso por ter deixado o primeiro amor (Apocalipse 2:4). As duas igrejas tinham metade da coisa. Éfeso tinha a firmeza sem o amor; Pérgamo tinha a coragem sem a firmeza. Nenhuma das duas está sendo apresentada como modelo completo.

6. Quem eram os nicolaítas: o que a Bíblia diz e o que ela não diz

Aqui é onde é preciso ter mais cuidado, porque este é um dos assuntos em que mais se afirma coisa sem base.

O que a Bíblia diz: o nome aparece duas vezes (Apocalipse 2:6 e 2:15). Nas duas, Jesus reprova. Em 2:6 Ele diz que odeia as obras deles. Em 2:15 Ele diz que o ensino deles é “da mesma forma” que o de Balaão. É isso.

O que a Bíblia não diz: quem fundou o grupo, quantos eram, o que exatamente ensinavam, se tinham escritos, se ainda existiam depois. Nada disso está no texto.

Tudo o que se diz além disso vem de escritores cristãos dos séculos seguintes, e eles não concordam entre si:

  1. Irineu de Lyon (Contra as Heresias, livro I, capítulo 26), por volta do ano 180, liga os nicolaítas a Nicolau, um dos sete escolhidos em Atos 6:5, e os descreve vivendo em desregramento.
  2. Clemente de Alexandria (Stromata, livro III, capítulo 4), por volta do ano 200, conta uma história bem diferente: para ele, Nicolau era um homem íntegro, e uma frase dele foi mal interpretada por gente que quis usá-la para justificar a própria imoralidade. Ou seja: o grupo teria pegado o nome de alguém que não pregava aquilo.
  3. Existe ainda uma explicação pelo significado do nome, muito repetida em pregações: “Nicolau” em grego junta nikáō (vencer) e laós (povo), e daí se conclui que os nicolaítas seriam “os que dominam o povo”. Isso é um jogo de palavras possível, mas nenhum texto antigo faz essa ligação, e o nome Nicolau era um nome comum de pessoa naquela época, como João ou Pedro hoje. Este caderno registra a hipótese e não a usa como base para nada.

✦ Por que isso importa para você

Se um dia alguém te disser com muita segurança “os nicolaítas eram tal coisa”, agora você sabe o tamanho exato da base: duas menções na Bíblia, sem descrição, e dois autores do século II e III que discordam entre si. Dá para estudar, dá para comparar, mas não dá para afirmar como se estivesse escrito.

E a boa notícia é esta: para entender Apocalipse 2:15, você não precisa saber quem eles eram. Jesus já disse o que importa quando escreveu “da mesma forma”. O erro dos nicolaítas era do mesmo tipo do erro de Balaão. E esse, o texto descreve inteiro.

7. O erro descrito: o convite, não o ataque

Volte ao versículo anterior, porque é lá que o erro está descrito:

Apocalipse 2:14
“Tenho, todavia, contra ti algumas coisas, pois que tens aí os que sustentam a doutrina de Balaão, o qual ensinava a Balaque a armar ciladas diante dos filhos de Israel para comerem coisas sacrificadas aos ídolos e praticarem a prostituição.”
Almeida Revista e Atualizada (ARA)

Duas marcas, então: comer coisas sacrificadas aos ídolos e praticar a prostituição. E essas duas marcas não estão juntas por acaso. Elas já vinham juntas, na mesma ordem, num texto muito antigo:

Êxodo 34:15-16
“…para que não faças aliança com os moradores da terra, e, quando eles se prostituírem após os seus deuses e sacrificarem aos seus deuses, alguém te convide, e comas dos seus sacrifícios…”
Almeida Revista e Atualizada (ARA)

Repare no verbo do meio: “alguém te convide”. Séculos antes de Balaão e mais de mil anos antes de Pérgamo, o aviso já estava dado, e o mecanismo já estava nomeado: não é invasão, é convite.

É exatamente o que Balaão descobriu. A história está em Números 22 a 25: Balaque contrata o profeta para amaldiçoar Israel (22:1-6); Balaão tenta três vezes e três vezes a maldição vira bênção (23 e 24); e então, em Números 25:1-3, sem nenhuma espada, Israel é convidado, come dos sacrifícios e se curva diante de Baal-Peor. Quem ligou uma coisa à outra foi o próprio texto bíblico, mais adiante:

Números 31:16
“Eis que estas, por conselho de Balaão, fizeram prevaricar os filhos de Israel contra o SENHOR…”
Almeida Revista e Atualizada (ARA)
O que a maldição não derrubou, o convite derrubou.

Sobre “prostituição”: no Antigo Testamento, esse verbo é usado tanto no sentido literal quanto como imagem de idolatria (é assim em Êxodo 34:15-16, em Oseias e em vários profetas). Em Números 25 as duas coisas aparecem juntas, o que dificulta separar. Este caderno mantém as duas leituras em pé, porque o texto não escolhe uma.

8. “Coisas sacrificadas aos ídolos”: o que era isso no dia a dia

Para o leitor de hoje, “carne sacrificada a ídolo” soa como um problema exótico. Para quem morava em Pérgamo, era o problema de todo mês.

A palavra grega é eidōlóthyton (εἰδωλόθυτον, G1494), literalmente “o que foi sacrificado a um ídolo”. Na prática, funcionava assim: o animal era abatido no templo, uma parte era queimada, uma parte ficava com os sacerdotes e o restante ia para o banquete ali mesmo ou para o açougue do mercado. Boa parte da carne vendida numa cidade greco-romana tinha passado por um altar.

E havia as associações de ofício, uma espécie de sindicato de artesãos e comerciantes. Elas se reuniam em salões ligados aos templos, e a reunião era uma refeição: sacrifício, comida, bebida, e com frequência o que vinha depois. Casamento, aniversário, contrato fechado, posse de um cargo: tudo passava por ali.

Quem não participava não estava fazendo um gesto discreto de fé. Estava perdendo cliente, sócio, convite e reputação. Recusar tinha preço, e o preço era em dinheiro e em lugar social.

Por isso a pergunta apareceu tantas vezes na igreja do primeiro século, e recebeu respostas com pesos diferentes:

  1. Atos 15:29 — a decisão do concílio de Jerusalém pede que os cristãos se abstenham “das coisas sacrificadas aos ídolos”.
  2. 1 Coríntios 8 e 10 — Paulo trata do caso com nuance: o ídolo não é nada, e comida em si não aproxima nem afasta de Deus; mas existe a consciência do irmão mais fraco, e existe uma linha que não se atravessa, a de participar da mesa como culto (1 Coríntios 10:20-21).
  3. Apocalipse 2:14 e 2:20 — em Pérgamo e em Tiatira, Jesus aponta a mesma prática, sem nuance, como acusação.

Como conciliar? A leitura mais direta é que Paulo e o Apocalipse tratam de situações diferentes: Paulo discute carne comprada no mercado, longe do templo, e diz que aí a consciência decide; o Apocalipse trata de participar da festa, dentro do culto, com tudo o que vinha junto. Não é a mesma pergunta.

Curiosidade que ajuda a datar o problema: a Didaquê, um manual cristão muito antigo (o nome quer dizer “o ensino”), também traz uma orientação sobre comida sacrificada a ídolos. E o governador romano Plínio, o Jovem, escrevendo ao imperador Trajano por volta do ano 112 sobre os cristãos da sua província, comenta que a carne dos sacrifícios voltara a ser vendida, depois de um tempo quase sem compradores. Ou seja: a recusa cristã era grande o bastante para aparecer na economia local. (Plínio, Cartas, livro X, carta 96 — a província dele era a Bitínia, não Pérgamo, mas o retrato é do mesmo mundo.)

9. Doutrina, pregar e sustentar: três coisas diferentes

Uma pergunta honesta que esse versículo levanta: se a igreja não ensinava aquilo, por que Jesus cobra dela?

A resposta está em separar três coisas que a gente costuma juntar:

  1. Doutrina é o ensino, o conteúdo, a ideia.
  2. Pregar é sair espalhando a ideia. É ato público.
  3. Sustentar (krateō) é o que fica no meio: a pessoa ouviu, achou que fazia sentido, guardou para si e passou a viver de acordo. Não prega. Mas não larga.

Em Pérgamo havia, portanto, três camadas: quem ensinava; quem segurava o ensino como seu, sem ensinar; e a igreja, que sabia das duas coisas e seguia com elas dentro. O “tu tens” de Jesus atinge a terceira camada.

E não é uma cobrança inventada. O mesmo João que escreveu o Apocalipse já tinha escrito, numa carta curta, o que fazer quando um pregador chega com outro ensino:

2 João 10-11
“Se alguém vem ter convosco e não traz este ensino, não o recebais em casa, nem lhe deis as boas-vindas. Porquanto aquele que lhe dá boas-vindas faz-se cúmplice das suas obras más.”
Almeida Revista e Atualizada (ARA)

E aqui tem um detalhe de vocabulário que fecha o raciocínio. O verbo traduzido por “faz-se cúmplice” é koinōnéō (κοινωνέω, G2841): ter parte, compartilhar, ter comunhão. É da mesma família de koinōnía, a palavra que o Novo Testamento usa para a comunhão dos cristãos, a mais bonita das palavras de igreja.

Ou seja, João usa a palavra da comunhão para descrever o que acontece quando alguém abre a porta para o erro: você entra em comunhão com aquilo. Não como acusação exagerada. Como descrição do que de fato acontece.

Tolerar não é neutro. É uma forma de ter parte.

E há um motivo prático para Jesus não deixar passar: o erro não fica parado. Em Éfeso era prática e a igreja rejeitou. Em Pérgamo virou ensino e a igreja deixou. Na carta seguinte, a de Tiatira, já existe alguém ensinando com autoridade reconhecida dentro da igreja (Apocalipse 2:20). Lidas em sequência, as três cartas mostram a mesma coisa crescendo de degrau em degrau.

O que este versículo está me mostrando sobre Jesus?

  1. Ele lê a igreja inteira, não só a parte visível. Viu a coragem de Pérgamo debaixo do culto ao imperador e elogiou. Viu o ensino errado circulando na sala ao lado e apontou. As duas coisas, no mesmo fôlego.
  2. Ele usa a mesma palavra para o elogio e para a cobrança. Não separa o cristão “bom” do cristão “problemático”: mostra que era a mesma mão. É uma correção sem desprezo.
  3. Ele não aceita dividir lugar. Não por ciúme, mas porque conhece o fim da história. Ele mesmo abriu Números para mostrar a Pérgamo onde aquilo tinha terminado da última vez.
  4. Ele avisa antes de agir. Nomeia o erro, dá o exemplo histórico, e só então, no versículo seguinte, pede a mudança. Quem não se importa não avisa.

Aplicação para a minha vida

Pérgamo não largou Jesus. O erro dela não foi largar. Foi não largar o resto.

E talvez esse seja o erro mais comum de quem já anda com Jesus há tempo. A gente não nega. A gente vai juntando. Jesus e aquele hábito. Jesus e aquela mesa. Jesus e aquele ensino que a gente sabe que não é dEle, mas que a gente deixa ficar porque é gente querida, porque dá trabalho, porque parece duro demais mexer.

Note que Jesus não pediu a Pérgamo que expulsasse ninguém neste versículo. Ele descreveu. No versículo 16 Ele vai pedir uma coisa só, e vamos ver amanhã qual é. Por hoje, a pergunta é mais simples e mais difícil: o que está na sua mão junto com Ele?

Pérgamo não largou Jesus. Só não largou o resto.

Resumo do estudo

  1. O versículo 15 fecha uma frase iniciada no 14: os dois precisam ser lidos juntos.
  2. No grego, o pronome “σύ” (tu) vem solto e enfático: Jesus está falando com a igreja, não com o grupo errado.
  3. O verbo é “ter”, não “ensinar”. A acusação é de convivência, não de pregação.
  4. Kratoúntas é particípio presente: ação em andamento, gente segurando e continuando a segurar.
  5. Krateō (G2902) aparece três vezes na carta: uma para o nome de Jesus (2:13) e duas para o ensino errado (2:14 e 2:15). A mesma mão.
  6. O mesmo verbo atravessa o livro: Jesus segura as igrejas (2:1), pede que elas segurem o que têm (2:25; 3:11), e o anjo segura o dragão (20:2).
  7. Didachē (doutrina) aparece três vezes no Apocalipse, todas no capítulo 2 e todas apontando ensino errado.
  8. Em Éfeso eram “obras” e a igreja odiava: elogio. Em Pérgamo virou “doutrina” e a igreja tinha: “tenho contra ti”. O erro subiu e a postura desceu.
  9. A Bíblia nunca descreve o que os nicolaítas ensinavam. Irineu e Clemente de Alexandria contam versões diferentes; a etimologia “vencer o povo” não tem apoio em nenhuma fonte antiga.
  10. “Da mesma forma” (homoíōs) é a chave: o erro deles era do mesmo tipo do de Balaão, e esse o texto descreve inteiro.
  11. Êxodo 34:15-16 já unia convite, sacrifício e prostituição, séculos antes: o mecanismo do erro é antigo.
  12. “Coisas sacrificadas aos ídolos” era a carne do mercado e a mesa das associações de ofício: recusar custava dinheiro e lugar social.
  13. Em 2 João 11, “faz-se cúmplice” é koinōnéō, da família de koinōnía, comunhão. Tolerar é ter parte.

Versículos para ler junto

  1. Apocalipse 2:12-17 — a carta a Pérgamo inteira.
  2. Apocalipse 2:1-7 — Éfeso: os nicolaítas em 2:6 e a repreensão do primeiro amor em 2:4.
  3. Apocalipse 2:20 e 2:24 — Tiatira: o degrau seguinte do mesmo problema.
  4. Apocalipse 2:25 · 3:11 · 2:1 · 20:2 — o verbo “segurar” em outros pontos do livro.
  5. Êxodo 34:15-16 — o convite, o sacrifício e a prostituição, juntos, no Antigo Testamento.
  6. Números 22:1-6; 23; 24 — a contratação de Balaão e as bênçãos.
  7. Números 25:1-3 · 31:16 — a queda em Baal-Peor e de quem foi o conselho.
  8. Josué 13:22 · Deuteronômio 23:4-5 · Neemias 13:2 · Miqueias 6:5 — a memória de Israel sobre Balaão.
  9. 2 Pedro 2:15 · Judas 11 — o caminho e o erro de Balaão no Novo Testamento.
  10. Atos 6:5 — o único Nicolau que aparece na Bíblia.
  11. Atos 15:29 · 1 Coríntios 8; 10:20-21 — a carne sacrificada na igreja primitiva.
  12. 2 João 10-11 — dar as boas-vindas e ter parte.
  13. Marcos 5:41 · Mateus 26:50 — o verbo “segurar” em cenas do evangelho.

Fontes e referências deste estudo

Tudo o que este caderno afirma vem de uma destas fontes. Onde havia dúvida, ela está dita.

  1. Texto bíblico: Almeida Revista e Atualizada (ARA).
  2. Texto grego: Novo Testamento Grego, 28ª edição (Nestle-Aland). Os números Strong usados aqui (G3779, G2192, G2532, G4771, G2902, G1322, G3531, G3668, G1494, G2841) permitem conferir cada palavra em qualquer concordância.
  3. Diferença entre manuscritos no fim do versículo 15: comparação entre as edições críticas modernas e o texto usado por traduções mais antigas. Confira você mesma abrindo duas Bíblias de famílias diferentes, por exemplo a Almeida Revista e Atualizada e a Almeida Corrigida Fiel.
  4. Irineu de Lyon, Contra as Heresias, livro I, capítulo 26 (c. 180 d.C.).
  5. Clemente de Alexandria, Stromata, livro III, capítulo 4 (c. 200 d.C.).
  6. Plínio, o Jovem, Cartas, livro X, carta 96, ao imperador Trajano (c. 112 d.C.), sobre os cristãos e a venda da carne dos sacrifícios na Bitínia.
  7. Didaquê (O Ensino dos Doze Apóstolos), documento cristão antigo, com orientação sobre comida sacrificada a ídolos.
  8. Vida social e associações de ofício: a descrição segue o que o próprio Novo Testamento pressupõe em Atos 15, 1 Coríntios 8 e 10 e Apocalipse 2, somada ao retrato geral do mundo greco-romano do primeiro século.

✦ Duas honestidades deste caderno

1. Que Pérgamo tinha dois grupos distintos (o de Balaão e o dos nicolaítas) é a leitura mais direta do “também” e do “da mesma forma”, e é a que este caderno segue. Há quem leia os dois nomes como duas descrições do mesmo grupo. O texto não fecha a questão, e ela não muda o que Jesus está cobrando.

2. A reconstrução do dia a dia de Pérgamo (o açougue, as associações de ofício, o custo social de recusar) é história, não versículo. Ela ajuda a entender o peso da decisão daquela gente, mas o que Jesus afirma é apenas o que está escrito em 2:14-15.

Para refletir

Escreva com sinceridade. Ninguém vai ler além de você e de Deus.

1. O que eu estou segurando junto com Jesus que Ele não segura comigo?

2. Éfeso odiava o erro e perdeu o amor; Pérgamo tinha amor e coragem e perdeu a firmeza. Em qual das duas eu me pareço mais hoje?

3. Existe algum ensino que eu não pregaria, mas que eu deixo ficar porque discordar custaria caro?

4. “Faz-se cúmplice” é a palavra de comunhão. Com o que eu ando em comunhão sem ter percebido?

Minhas anotações sobre Apocalipse 2:15

Minha oração

Escreva aqui a sua oração sobre este versículo.

No próximo estudo

Apocalipse 2:16. Depois de descrever o problema, Jesus dá uma ordem de uma palavra só e faz um aviso: vai “pelejar” com a espada da sua boca. Mas repare no detalhe que muda tudo: Ele diz “venho a ti” e “pelejarei contra eles”. Quem é “ti”? Quem é “eles”? E o que significa uma guerra travada com palavras?

Comentários

Deixe seu comentário, aprendizado ou reflexão — ele chega direto para mim e pode ser respondido por e-mail. ♡