Em Apocalipse 1:10, “dia do Senhor” traduz uma expressão de posse: o dia que pertence ao Senhor. João não usou a palavra grega do sábado nem a expressão que a Bíblia usa para o primeiro dia da semana. Por isso existem leituras diferentes: uns entendem que era domingo, outros que era sábado. O peso do versículo não está no calendário. Está em de quem é o dia, e no fato de que foi Deus quem escolheu a hora de falar com João.
No versículo anterior, João se apresentou como “irmão vosso e companheiro” e contou onde estava: numa ilha chamada Patmos, por ter sido fiel à mensagem de Jesus (leia o artigo sobre Apocalipse 1:9). Agora, longe de tudo e de todos, num dia que parecia comum, o céu se abre. É um versículo de uma linha só. E dentro dele está uma expressão que divide opiniões há séculos.
"Achei-me em espírito, no dia do Senhor, e ouvi, por detrás de mim, grande voz, como de trombeta," (Apocalipse 1:10, ARA)
O que quer dizer “em espírito”
Primeiro, o que não é. Não é sonho e não é imaginação. João continuava na ilha: o mesmo corpo, a mesma pedra, o mesmo mar.
Agora, o que é. É um estado em que Deus abre os olhos da pessoa para ela ver aquilo que normalmente não seria possível ver. O lugar não mudou. Os olhos mudaram.
Vale guardar essa expressão, porque ela funciona como uma chave do livro inteiro. Aparece quatro vezes no Apocalipse, nos capítulos 1, 4, 17 e 21. Aqui, João continua na ilha. Nas outras três vezes, ele é levado para outro lugar: o céu, o deserto e um monte alto.
Como a Bíblia escreve cada dia
Para entender “dia do Senhor”, ajuda olhar como o Novo Testamento, escrito em grego, fala dos dias da semana.
O sábado tem nome próprio. Em grego é sábaton, e essa palavra aparece dezenas de vezes no Novo Testamento. Toda vez que você lê “sábado”, é ela que está lá, inclusive quando Jesus diz que é senhor do sábado.
O domingo não tinha nome próprio. A Bíblia usa uma expressão que, ao pé da letra, é “o dia um dos sábados”, e “sábados”, no plural, era também o jeito de dizer “semana”. Os dias eram contados a partir do sábado. É essa expressão que as nossas Bíblias traduzem como “o primeiro dia da semana”: em João 20:1, quando Maria Madalena chega ao túmulo bem cedo, e em Atos 20:7, quando os discípulos se reúnem para partir o pão.
Em Apocalipse 1:10 não está nenhuma das duas. João usou outra palavra: kyriaké. Ela não é nome de dia nenhum. É um adjetivo, e quer dizer “que pertence ao Senhor”. Não aponta para um dia do calendário. Aponta para um dono. O dia que é dEle.
E tem mais um cuidado. O grande “Dia do SENHOR” anunciado pelos profetas também é escrito de outro jeito, com “Senhor” como nome ao lado de “dia”, como quando dizemos “o carro do João”. Também não é a expressão deste versículo.
A palavra que aparece só duas vezes
Esse adjetivo aparece apenas duas vezes em todo o Novo Testamento. Uma é aqui. A outra é em 1 Coríntios 11:20, onde Paulo fala da ceia do Senhor.
Isso ajuda a entender o sentido. A ceia do Senhor não é a ceia de um dia. É a ceia que pertence a Ele. Nos dois lugares, a palavra descreve algo que é de Jesus: a ceia dEle, e o dia dEle.
O estudioso alemão Adolf Deissmann mostrou, no livro Licht vom Osten (Luz do Oriente Antigo, 1908), com papiros e inscrições, que no império romano essa mesma palavra era usada para as coisas do imperador, como o tesouro imperial e o serviço imperial. Era palavra de dono.
As leituras sobre o dia, com honestidade
Era domingo. Quem defende essa leitura lembra que o primeiro dia da semana é o dia da ressurreição, que os cristãos já se reuniam nesse dia e que escritos cristãos antigos usam a mesma palavra. Inácio de Antioquia, por volta do ano 110, fala de quem deixou de guardar sábados para viver “segundo o dia do Senhor” (Carta aos Magnésios 9.1; esse trecho tem diferença entre manuscritos). O Evangelho de Pedro, do século II, que não está na Bíblia, chama de “dia do Senhor” a manhã da ressurreição (versos 35 e 50).
Era sábado. É a leitura dos irmãos adventistas e de outros grupos. O argumento: na Bíblia, o único dia que Deus chama de seu é o sétimo. Nos Dez Mandamentos, o sétimo dia é chamado de sábado do SENHOR (Êxodo 20:8-11). Em Isaías 58:13, Deus chama o sábado de seu dia santo. E Jesus afirma ser Senhor do sábado.
O Dia do Senhor profético. Existe ainda uma terceira leitura, bem menos comum: a de que João teria sido levado em visão ao grande Dia do Senhor anunciado pelos profetas.
O que a palavra mostra, em qualquer leitura
Há um ponto que vale para todas as leituras. Para dizer sábado, existia uma palavra, e João não usou. Para dizer o primeiro dia depois do sábado, existia uma expressão, e ele também não usou. Ele escolheu um adjetivo que, antes de tudo, fala de dono: o dia que pertence a Ele.
E pense nisso: se aquele dia fosse sábado, a visão seria diferente? Não. Se fosse o primeiro dia da semana, o livro mudaria? Também não. Jesus seria o mesmo, a mensagem seria a mesma, e as sete igrejas receberiam exatamente a mesma carta. As pessoas discutem tanto qual era o dia que acabam esquecendo o principal: o que Deus falou naquele dia.
O que este artigo não está dizendo
Este artigo não está dizendo que o sábado deixou de ser o dia santo do SENHOR, nem que o domingo passou a ser. Esse é um assunto que se estuda com outros textos da Bíblia, como Êxodo 20:8-11 e Isaías 58:13. O ponto aqui é mais estreito: o que a palavra escolhida em Apocalipse 1:10 afirma e o que ela não afirma.
Quem escolheu a hora foi Deus
Repare na cena. João não marcou hora. Não estava numa reunião, nem num templo, nem preparado. Estava numa ilha, longe da igreja. Quem escolheu a hora foi Deus.
A Bíblia fala assim do tempo nas mãos de Deus. Em Gálatas 4:4, está escrito que, “vindo a plenitude do tempo”, Deus enviou o seu Filho: na hora certa, nem antes nem depois. E em Atos 1:7, Jesus diz aos discípulos que os tempos estão guardados na autoridade do Pai.
Uma voz como trombeta, e por detrás
Naquele tempo, a trombeta tinha função: chamava o povo para se reunir, anunciava algo importante e aparecia nos momentos em que Deus se aproximava. No monte Sinai, na época de Moisés, houve trovões, relâmpagos e um forte som de trombeta, e o povo inteiro estremeceu (Êxodo 19:16). Quando João ouve uma voz como trombeta, ele sabe o que aquilo quer dizer: Deus está chegando.
A voz veio “por detrás” de João. Ele devia estar olhando para o mar, para a distância que o separava de quem amava. E Jesus estava atrás dele. Para ouvir, João não precisou fazer nada. Para ver, vai precisar se virar, e é isso que acontece no versículo 12. Antes disso, a voz dá uma ordem, no versículo 11.
O que este versículo mostra sobre Jesus
Mostra um Jesus que vai atrás. Ele não esperou João sair da ilha. Foi até o lugar mais difícil da vida dele e falou.
Mostra um Jesus que não fica preso a endereço. Isso não diminui a igreja: João sentia falta dela. Mostra só que Deus alcança quem está longe.
E mostra um Jesus que fala alto o bastante para ser ouvido.
O que isso muda hoje
Talvez você esteja adiando a oração para quando a vida se organizar. O dia do Senhor é o dia que pertence a Ele, e hoje também é dEle. Fale com Deus hoje, do jeito que der.
E se você está numa fase de solidão, não confunda isolamento com abandono. Foi exatamente ali, numa ilha, longe da igreja, que João ouviu a voz.
Deus não precisa de um endereço especial para falar com você. Ele escolhe a hora. E a hora dEle é sempre a melhor.
Perguntas frequentes
O que é o dia do Senhor em Apocalipse 1:10?
É uma expressão de posse: o dia que pertence ao Senhor. João usou um adjetivo, kyriaké, que não é nome de dia da semana, e sim uma palavra que indica dono.
O dia do Senhor em Apocalipse 1:10 é sábado ou domingo?
Existem as duas leituras. Quem defende domingo lembra a ressurreição e escritos cristãos antigos. Quem defende sábado, como os adventistas, lembra que o sétimo dia é chamado de sábado do SENHOR. O estudo do site entende que, neste versículo, a palavra fala de dono, não de calendário.
Por que João não usou a palavra sábado?
O Novo Testamento tem uma palavra própria para sábado e uma expressão para o primeiro dia da semana. Em Apocalipse 1:10 João não usou nenhuma das duas, e escolheu um adjetivo de posse.
Onde mais aparece a palavra kyriaké na Bíblia?
Só em 1 Coríntios 11:20, na ceia do Senhor. Nos dois casos ela descreve algo que pertence a Jesus: a ceia dEle e o dia dEle.
O que significa estar em espírito no Apocalipse?
É um estado em que Deus abre os olhos da pessoa para ver o que normalmente não veria. Não é sonho nem imaginação. A expressão aparece quatro vezes no livro: aqui João continua na ilha, e nas outras três vezes a cena muda de lugar.
Por que a voz era como de trombeta?
Na Bíblia, a trombeta chamava o povo, anunciava algo importante e marcava a aproximação de Deus, como no monte Sinai (Êxodo 19:16). É um som impossível de ignorar.
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