Jezabel foi uma rainha de Israel, filha de Etbaal, rei dos sidônios, e esposa do rei Acabe (1 Reis 16:31). Ela trouxe a adoração a Baal para dentro do reino, sustentava centenas de profetas pagãos e perseguiu os profetas do Senhor. Séculos depois, Jesus usa o nome dela numa carta a uma igreja, em Apocalipse 2:20, para descrever uma influência que ensinava e levava cristãos para a idolatria.
Não são a mesma pessoa. A rainha morreu no tempo de Jeú (2 Reis 9). A “Jezabel” de Tiatira é um nome emprestado, que faz o leitor lembrar da história inteira de uma vez.
Quando Jesus escreve “essa mulher, Jezabel” para a igreja de Tiatira, Ele não explica quem foi Jezabel. Não precisava. Quem ouvia a carta ser lida sabia a história, do mesmo jeito que um brasileiro sabe quem foi Judas sem ninguém explicar. Para nós, que estamos mais longe, vale contar a história. É ela que dá o peso do nome.
Uma princesa estrangeira no trono de Israel
"Como se fora coisa de somenos andar ele nos pecados de Jeroboão, filho de Nebate, tomou por mulher a Jezabel, filha de Etbaal, rei dos sidônios; e foi, e serviu a Baal, e o adorou." (1 Reis 16:31, ARA)
Acabe era rei do reino do norte, Israel, uns sessenta anos depois da morte de Salomão. O casamento com Jezabel era um acordo político com Sidom, cidade rica da costa fenícia, onde hoje é o Líbano. O texto conta isso com uma ironia dura: como se os pecados anteriores fossem pouca coisa, Acabe ainda se casou com ela e passou a servir Baal, o deus de Sidom.
O ponto que a Bíblia faz questão de marcar é que Jezabel não guardou a religião dela para si. Ela a trouxe para dentro, com dinheiro do reino:
"Agora, pois, manda ajuntar a mim todo o Israel no monte Carmelo, como também os quatrocentos e cinquenta profetas de Baal e os quatrocentos profetas do poste-ídolo que comem da mesa de Jezabel." (1 Reis 18:19, ARA)
Oitocentos e cinquenta profetas pagãos sustentados pela rainha. E, do outro lado, os profetas do Senhor sendo caçados: “quando Jezabel exterminava os profetas do Senhor, Obadias tomou cem profetas, e de cinquenta em cinquenta os escondeu numa cova” (1 Reis 18:4). Quando Elias venceu os profetas de Baal no Carmelo, foi ela quem mandou o recado que fez o profeta fugir para o deserto:
"Então, Jezabel mandou um mensageiro a Elias a dizer-lhe: Façam-me os deuses como lhes aprouver se amanhã a estas horas não fizer eu à tua vida como fizeste a cada um deles." (1 Reis 19:2, ARA)
Quem mandava de verdade
A Bíblia resume o reinado de Acabe numa frase, e a frase não é sobre ele:
"Ninguém houve, pois, como Acabe, que se vendeu para fazer o que era mau perante o Senhor, porque Jezabel, sua mulher, o instigava;" (1 Reis 21:25, ARA)
Esse versículo fecha a história da vinha de Nabote (1 Reis 21). Acabe queria a vinha, o dono não vendeu, e o rei foi para a cama emburrado. Foi Jezabel quem escreveu cartas em nome do rei, armou um julgamento com testemunhas falsas e mandou apedrejar Nabote. Depois disse ao marido: levanta e toma posse. O poder formal era de Acabe. A influência era dela. É esse o traço que o nome carrega: alguém que não ocupa o cargo, mas conduz quem ocupa.
O fim da rainha
Elias profetizou que os cães comeriam Jezabel no campo de Jezreel (1 Reis 21:23). Anos depois, quando Jeú foi ungido rei para acabar com a casa de Acabe, o filho dela ainda perguntou se vinha em paz. A resposta junta tudo o que a Bíblia pensa sobre ela:
"Sucedeu que, vendo Jorão a Jeú, perguntou: Há paz, Jeú? Ele respondeu: Que paz, enquanto perduram as prostituições de tua mãe Jezabel e as suas muitas feitiçarias?" (2 Reis 9:22, ARA)
“Prostituições”, aqui, é a palavra que os profetas usam para idolatria: trair o Deus da aliança com outros deuses. Jezabel foi lançada da janela do palácio, e o que sobrou do corpo confirmou a profecia (2 Reis 9:30 a 37). O texto termina dizendo que ninguém mais poderia apontar e dizer “esta é Jezabel”. Mas o nome ficou.
Séculos depois, numa igreja da Ásia Menor
Tiatira era uma cidade de artesãos, com associações de ofício registradas em inscrições: tintureiros, curtidores, bronzistas, oleiros (William Ramsay, 1904). Ramsay e Charles entendem que cada associação tinha o seu deus protetor e as suas refeições, com sacrifício, comida e bebida, e que, para um cristão que vivia de um ofício, ficar fora dessas refeições podia custar o trabalho. Foi nesse ambiente que apareceu alguém ensinando que dava para participar:
"Tenho, porém, contra ti o tolerares que essa mulher, Jezabel, que a si mesma se declara profetisa, não somente ensine, mas ainda seduza os meus servos a praticarem a prostituição e a comerem coisas sacrificadas aos ídolos." (Apocalipse 2:20, ARA)
Agora o nome faz sentido. A rainha trouxe a idolatria para dentro de Israel, sustentou quem a ensinava e levou o povo a mancar entre dois pensamentos. A influência em Tiatira trazia a idolatria para dentro da igreja, com pretensão profética, e levava os servos de Jesus para a mesa dos ídolos. A mesma mistura, no mesmo lugar: dentro do povo de Deus, e não fora.
O que este estudo não está dizendo
O texto de Apocalipse não diz o nome civil da mulher de Tiatira, e ninguém sabe. Alguns comentaristas entendem que era uma pessoa real, apelidada de Jezabel pela carta. Outros, que o nome designa uma corrente de ensino. Outros, uma pessoa à frente de uma corrente. O leitor decide. O que o texto afirma, em qualquer das leituras, é que havia uma influência com pretensão profética ensinando dentro da igreja, e que a igreja estava permitindo.
E não é a rainha que reaparece. A Jezabel de 1 Reis morreu em Jezreel. Jesus usa o nome como se usa “Balaão” três cartas antes (Apocalipse 2:14): uma figura do Antigo Testamento que resume um tipo de erro.
O que muda entre uma e outra
Com a rainha, o julgamento veio por meio de Jeú, com espada. Com a Jezabel de Tiatira, a carta mostra outra sequência: primeiro, tempo. “Dei-lhe tempo para que se arrependesse” (Apocalipse 2:21). O julgamento, quando vem, é anunciado como obra do próprio Jesus, “aquele que sonda mentes e corações” (Apocalipse 2:23), e com uma condição aberta até o fim: “caso não se arrependam” (Apocalipse 2:22).
O que Jesus cobra da igreja não é executar ninguém. É parar de tolerar: não deixar que um ensino que leva à idolatria continue correndo como se fosse palavra de Deus. Com a Palavra aberta, com confronto honesto, e com a porta do arrependimento aberta, do jeito que Ele mesmo fez.
Resumindo
- Jezabel foi uma princesa de Sidom que se casou com Acabe, rei de Israel, e trouxe Baal para dentro do reino (1 Reis 16:31).
- Sustentava 850 profetas pagãos, perseguiu os profetas do Senhor e armou a morte de Nabote. Acabe reinava; ela conduzia (1 Reis 21:25).
- Morreu no tempo de Jeú, como Elias tinha profetizado (2 Reis 9).
- Em Apocalipse 2:20, o nome é emprestado para uma influência dentro da igreja de Tiatira: pretensão profética, ensino, idolatria. A mesma mistura, por dentro.
- A diferença: antes do julgamento, Jesus deu tempo para arrependimento. A igreja é cobrada por tolerar.
Perguntas frequentes
Quem foi Jezabel na Bíblia?
Uma princesa de Sidom, filha do rei Etbaal, que se casou com Acabe, rei de Israel (1 Reis 16:31). Ela trouxe a adoração a Baal para dentro do reino, sustentava 850 profetas pagãos e perseguia os profetas do Senhor.
O que Jezabel fez de errado?
Trouxe a idolatria para dentro do povo de Deus e a sustentou com o dinheiro do reino; mandou matar profetas do Senhor; ameaçou Elias de morte; e armou um julgamento falso para matar Nabote e tomar a vinha dele (1 Reis 21). A Bíblia resume: “Jezabel, sua mulher, o instigava” (1 Reis 21:25).
Como Jezabel morreu?
Quando Jeú foi ungido rei para acabar com a casa de Acabe, Jezabel foi lançada da janela do palácio em Jezreel, e os cães comeram o corpo, como Elias tinha profetizado (1 Reis 21:23; 2 Reis 9:30 a 37).
A Jezabel de Apocalipse 2:20 é a mesma rainha?
Não. A rainha morreu séculos antes. Em Apocalipse 2:20 Jesus usa o nome como um apelido para uma influência dentro da igreja de Tiatira, do mesmo jeito que usa “Balaão” para Pérgamo (2:14). O nome traz a história inteira junto.
O que a rainha e a mulher de Tiatira têm em comum?
As duas trouxeram a idolatria para dentro do povo de Deus, com aparência religiosa e com autoridade. A rainha sustentava profetas; a mulher de Tiatira se declarava profetisa. As duas levaram pessoas para a mesa dos ídolos. Nas duas vezes, o ataque veio por dentro.
O que muda entre uma história e a outra?
Com a rainha, o julgamento veio por Jeú, com espada. Com a Jezabel de Tiatira, Jesus primeiro deu tempo para arrependimento (Apocalipse 2:21), e o julgamento é anunciado como obra dele mesmo, com a porta aberta: “caso não se arrependam” (2:22). O que Ele cobra da igreja é parar de tolerar.
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