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Estudo profundo · 2ª das sete igrejas

Esmirna: a igreja que morreu e voltou a viver

Apocalipse 2 · versículos 8 a 11

A única igreja, junto com Filadélfia, que Jesus não repreende em nada. Pobre aos olhos do mundo, rica diante de Deus, e fiel até debaixo da espada. Vamos descer fundo, a cidade, a perseguição, os dez dias, o martírio de Policarpo, separando sempre o que o texto diz do que a tradição acrescentou.

"Ao anjo da igreja em Esmirna escreve: Estas coisas diz o primeiro e o último, que esteve morto e tornou a viver: Conheço a tua tribulação, a tua pobreza (mas tu és rico)… Sê fiel até à morte, e dar-te-ei a coroa da vida."
Apocalipse 2:8-10

Cada uma das sete cartas segue o mesmo molde: um título de Cristo tirado da visão do capítulo 1, um "conheço" (em várias delas, "conheço as tuas obras"), quase sempre um elogio, às vezes uma repreensão, um chamado e uma promessa "ao vencedor". Esmirna é especial por uma ausência: não há repreensão. Cristo não tem nada a corrigir nela: só forças a dar. É a igreja do sofrimento fiel.

E o título que Ele escolhe é cirúrgico. A uma igreja ameaçada de morte, Ele se apresenta como "aquele que esteve morto e tornou a viver". A mensagem é direta: o que vocês mais temem, eu já atravessei.

Como ler as sete igrejas

Antes de mergulhar em Esmirna, vale fixar a lente. As sete igrejas podem ser lidas em duas camadas, e elas não competem, convivem. Toque para alternar.

Sete comunidades vivas, ao mesmo tempo

As sete igrejas eram reais e simultâneas: sete cidades vizinhas da Ásia romana (atual Turquia), todas vivas quando João escreveu, perto do fim do reinado de Domiciano, por volta de 95, segundo Irineu (Contra as Heresias 5.30.3); uma minoria de estudiosos prefere o tempo de Nero. Num mapa, elas formam um círculo: a rota das estradas romanas. Segundo o historiador William Ramsay (The Letters to the Seven Churches of Asia, 1904), o mensageiro que entregou a carta saía de Éfeso, passava por Esmirna, Pérgamo, Tiatira… e fechava o circuito: a ordem das cartas seria a ordem de entrega, não uma linha do tempo. O próprio Ramsay chama isso de hipótese.

Como as cartas eram simultâneas, no mesmo ano Jesus avisa Esmirna de que alguns iriam para a prisão, enquanto Laodiceia se dizia rica e sem falta de nada. A pressão variava de cidade para cidade: não havia lei geral, e muito dependia de denúncia local. Esta é a camada que o texto mostra diretamente.

Um espelho da jornada da Igreja

Como o Apocalipse é um livro profético, e o número sete simboliza plenitude, há quem leia uma segunda camada (é a leitura historicista): Deus teria escolhido aquelas sete, entre as várias que existiam, para que elas também espelhassem, em ordem, períodos sucessivos da história da Igreja: de Éfeso (era apostólica) a Laodiceia (a Igreja morna dos últimos dias).

Há quem fique só com a primeira camada e há quem leia as duas juntas; para quem lê as duas, Esmirna foi uma igreja real e perseguida e aponta para a era das perseguições. As leituras ficam lado a lado. A régua aqui é sempre lembrar qual camada o texto afirma e qual é interpretação acrescentada por cima.

O cenário

A cidade de Esmirna

Hoje chamada İzmir, na Turquia, Esmirna era uma das cidades mais belas da Ásia romana: as moedas da cidade diziam "primeira da Ásia em beleza e tamanho", segundo W. M. Ramsay. Quatro detalhes dela explicam quase tudo na carta.

Um porto orgulhoso

Cidade rica e bem reconstruída depois de uns quatrocentos anos em que o povo viveu em aldeias, segundo o geógrafo Estrabão (Geografia 14.1.37): uma cidade que, de certo modo, morreu e voltou a viver. Lida assim, a carta pega essa história local e a redireciona: a verdadeira ressurreição não é a da cidade, é a Dele.

O culto ao imperador

Esmirna foi das primeiras cidades a erguer um templo a Roma: segundo o historiador romano Tácito, ela se gabava de ter feito o primeiro templo à cidade de Roma, no ano 195 a.C., e no ano 26 ganhou o direito de construir um templo ao imperador Tibério (Anais 4.55-56). Décadas depois, em Esmirna mesmo, pediram a Policarpo que dissesse "César é Senhor" e pusesse incenso (Martírio de Policarpo 8.2). Para o cristão, que só confessa "Jesus é Senhor", isso era um campo minado.

A pobreza dos fiéis

A palavra usada é a pobreza extrema, do mendigo. Numa cidade rica, os cristãos eram pobres. O texto não diz por quê. William Ramsay, escrevendo sobre Tiatira, achava que quem ficava fora das corporações mal mantinha o negócio; se isso valia para Esmirna, o texto não diz. Seja como for, Cristo os chama de "ricos".

A tensão com a sinagoga

Havia uma comunidade judaica na cidade, e, na leitura mais comum do versículo 9, parte dela era hostil aos cristãos. É o pano de fundo da "sinagoga de Satanás" do versículo 9: um ponto que pede cuidado para não ser mal lido. Já chegamos nele.

Coração do estudo

Verso a verso

Toque em cada versículo para abrir o texto e a história colada nele.

Versículo 8 · o título"O primeiro e o último, que esteve morto e tornou a viver"

O título retoma a visão de Apocalipse 1:18. À igreja ameaçada de morte, Cristo se apresenta como aquele que já passou pela morte e vive. A consolação é dupla: Ele entende o medo delas por dentro, e mostra que a morte não é o fim do caminho, é passagem para a vida.

E há uma possível ironia local: a própria cidade de Esmirna tinha, de certo modo, "morrido" e voltado a viver na sua reconstrução. Cristo diz, em essência: a ressurreição verdadeira sou eu, não a sua cidade.

Versículo 9 · pobreza, riqueza e a sinagoga"Conheço a tua tribulação e a tua pobreza, mas tu és rico"

Pobreza que é riqueza. O texto não explica a causa da pobreza extrema dos cristãos de Esmirna; uma leitura é que eram excluídos por não se misturarem ao paganismo. Aos olhos do céu, porém, eram ricos. É o espelho exato de Laodiceia (3:17), que se achava rica e era espiritualmente miserável.

A "sinagoga de Satanás". Aqui é preciso ler com cuidado: esse ponto merece uma seção própria logo abaixo, porque é fácil entendê-lo mal.

Versículo 10 · o coração da carta"Sê fiel até à morte, e dar-te-ei a coroa da vida"

"Não temas." É a primeira palavra: antes de qualquer aviso. Cristo não esconde que vem sofrimento, mas começa tirando o medo.

"Alguns de vós na prisão… tribulação de dez dias." Os "dez dias" são um dos pontos mais debatidos da carta. Literais? Símbolo de tempo curto? Dez anos? Há uma seção interativa só para isso adiante.

"A coroa da vida." A palavra para coroa aqui: stéphanos, não é a de um rei (diádema), e sim a grinalda do vencedor dos jogos atléticos (e Esmirna tinha estádio e jogos: o Martírio de Policarpo fala do estádio e de jogos com feras, 9.1 e 12.2). A imagem: seja fiel até o fim e receba a coroa do campeão, só que o seu prêmio é a própria vida. "Até à morte" tem duplo sentido: fiel a vida toda, e fiel mesmo que custe a vida.

Versículo 11 · a promessa final"O vencedor de nenhum modo sofrerá dano da segunda morte"

A "segunda morte" é explicada lá no fim do livro (Apocalipse 20:14): é o "lago de fogo", que vem depois do juízo, em contraste com a primeira, a física (o que ela é em detalhe, há duas leituras cristãs, sofrimento consciente sem fim ou destruição final). A promessa arranca o medo pela raiz: vocês podem sofrer a primeira morte, o martírio, mas a segunda, a que realmente conta, jamais os tocará. Para uma igreja onde gente seria morta, é a consolação suprema: a morte que os perseguidores podem causar é a que não conta.

Lendo com cuidado

"Sinagoga de Satanás": o que é e o que não é

Essa expressão soa pesada e, mal lida, vira algo feio. No contexto, ela é outra coisa. A chave é lembrar que, no primeiro século, os primeiros cristãos eram judeus: Jesus, os apóstolos e o próprio João. Não era "cristãos contra judeus" como religiões estranhas; era uma divisão dentro do judaísmo: judeus que criam que o Messias chegara, e judeus que não criam.

O que NÃO significa

Não é "judeus são do diabo" nem uma condenação ao povo judeu. Não é sobre uma raça ou um povo inteiro. E "sinagoga" aqui não é um prédio nem um "templo de acusação": a palavra grega synagōgḗ significa, ao pé da letra, "reunião, assembleia de pessoas", não uma construção.

O que significa

Numa leitura, um grupo específico da comunidade judaica local que caluniava e denunciava os cristãos às autoridades romanas, ajudando a persegui-los. "Satanás", em hebraico, quer dizer "o acusador". A ironia é afiada: eles se diziam a assembleia de Deus, mas, agindo como acusadores do povo de Deus, viraram a assembleia do Acusador. É crítica ao comportamento, não à etnia.

Cristo usa de propósito a palavra que aquele grupo usava para se descrever, "sinagoga", a assembleia do povo de Deus, e só troca o dono: não é a reunião de Deus, é a reunião do Acusador. Décadas depois, o relato do martírio de Policarpo conta que a multidão de Esmirna, de pagãos e de judeus da cidade, gritou contra ele, e que a multidão juntou lenha, com judeus ajudando (Martírio de Policarpo 12.2 e 13.1). É o relato de uma parte de uma cidade, numa época, e não de um povo inteiro; o próprio documento tem tom de polêmica contra judeus. A tensão aparece nos dois momentos, na carta e no relato de uns 60 anos depois.

Quase dois mil anos

A linha do tempo de Esmirna

A carta foi escrita num momento; a cidade teve cristãos por quase 19 séculos. Toque em cada marco para ver o que aconteceu.

~50-60 d.C. · A igreja nasce

Data aproximada, não há registro exato. A comunidade cristã de Esmirna surgiu na era apostólica, provavelmente ligada ao ministério de Paulo em Éfeso (Atos 19), de onde "todos os que habitavam na Ásia ouviram a palavra". Quando João escreveu, já era uma igreja madura.

O grande debate

Os "dez dias": quatro formas de ler

"E tereis tribulação de dez dias" (v.10). O que o texto afirma com segurança é só isto: o sofrimento é limitado e está sob controle de Deus. A partir daí, há leituras diferentes. Toque nas abas para comparar.

Possível, sem registro que confirme ou negue

Dez dias de verdade

A leitura mais direta: um surto real de perseguição em Esmirna que durou cerca de dez dias. O texto diz "alguns de vós na prisão": sem nome nem data fixa, então não exclui ninguém. Pela própria abertura do versículo, é possível ler que a prisão e provação de alguém da igreja (até de Policarpo, mais tarde) caiba dentro dessa previsão. Não há registro antigo cronometrando "dez dias", mas também nada que negue.

Leitura mais aceita

"Um tempo curto e limitado"

No modo de falar hebraico, "dez dias" funcionava como expressão de período breve, mas definido: aparece assim em Gênesis 24:55 ("fique alguns dias, pelo menos dez"), 1 Samuel 25:38 ("uns dez dias") e Atos 25:6 ("oito ou dez dias"). O ponto é pastoral: o sofrimento será intenso, mas curto e com fim. Repare: "tempo curto" não anula o literal, dez dias são um tempo curto. As duas coisas dizem o mesmo.

Forte paralelo bíblico

A provação de Daniel

Em Daniel 1:12-15, Daniel pede para ser testado por dez dias: recusando a comida do rei pagão para permanecer fiel a Deus, e sai mais saudável e honrado. O paralelo com Esmirna é forte: provação curta + recusa de compromisso com o paganismo + fidelidade recompensada. O Apocalipse é encharcado de Antigo Testamento; é provável que João esteja ecoando Daniel de propósito. Esta leitura caminha junto com a anterior, não contra.

Interpretação acrescentada ao texto

Os dez anos de Diocleciano

Na leitura historicista (adventista), os "dez dias" seriam dez anos da perseguição de Diocleciano (303-313 d.C.), aplicando o princípio dia-ano. Mas vale o cuidado: esse princípio aparece em Números 14:34 e Ezequiel 4:6, e, nos dois, o próprio texto diz "um dia por um ano". Em Apocalipse 2:10 não há essa fórmula. Além disso, em boa parte do Império a perseguição foi encerrada em 311, pelo Édito de Galério (Eusébio copia o texto na História Eclesiástica 8.17); em algumas regiões do Oriente continuou até 313. Por isso a conta dos "dez" depende de onde se olha. Veja a comparação abaixo.

VersículoTem a "chave" dia = ano?
Números 14:34SIM: "cada dia representando um ano"
Ezequiel 4:6SIM: "um dia te dei para cada ano"
Apocalipse 2:10NÃO: só diz "dez dias", sem fórmula
A carta virando história

Policarpo: o versículo 10 em carne e osso

Cerca de 60 anos depois da carta, morria mártir o bispo de Esmirna, Policarpo (por volta do ano 110 ele já era bispo, segundo Inácio, Carta a Policarpo, saudação). Segundo Irineu, Policarpo tinha convivido com o apóstolo João (Eusébio, História Eclesiástica 5.20.6), e Irineu o ouviu quando menino. Esta é a versão do núcleo histórico: o que está nas fontes mais antigas, sem os ornamentos lendários que cresceram nas cópias tardias.

Apenas o núcleo histórico

Havia perseguição em Esmirna, e a multidão começou a gritar pedindo Policarpo. O bispo idoso quis ficar na cidade, mas foi persuadido a se esconder numa propriedade rural, onde passava o tempo em oração. Torturaram um escravo, que revelou onde ele estava.

Quando os guardas chegaram, Policarpo poderia ter fugido de novo, e recusou. Desceu para recebê-los, mandou que lhes servissem comida, e pediu uma hora para orar. Os próprios homens que vieram prendê-lo ficaram constrangidos por levar um homem tão velho e sereno.

Levado ao estádio lotado, o governador romano tentou de tudo para poupá-lo, justamente por ser idoso. Ofereceu a saída: jurar por César e amaldiçoar a Cristo, e seria solto. Veio a resposta que ficou para a história:

"Há oitenta e seis anos eu O sirvo, e Ele nunca me fez mal algum. Como posso blasfemar contra o meu Rei, que me salvou?"

O governador insistiu, ameaçou com as feras e com o fogo. Policarpo respondeu que o fogo daquele momento queimava por uma hora e se apagava, mas que havia um fogo do juízo vindouro que ele temia muito mais. Não recuou. Foi condenado à fogueira e morreu mártir, ali em Esmirna. Os cristãos recolheram seus ossos, "mais valiosos que pedras preciosas". O relato diz que ele foi o décimo segundo mártir da cidade.

De onde sabemos disso: a fonte principal é o Martírio de Policarpo, uma carta da própria igreja de Esmirna, baseada em testemunha ocular. O historiador Eusébio copiou boa parte dela na História Eclesiástica (4.15). Uma nota de copista, acrescentada no fim de um manuscrito, diz que a cópia veio dos papéis de Irineu. Os detalhes milagrosos (a voz do céu, as chamas que se curvam sem queimar, a pomba) ficam de fora aqui; a voz e as chamas já estão no relato antigo, contadas pela própria igreja como sinais, e a pomba não aparece na cópia de Eusébio.

Como a história de Policarpo ecoa a carta: Cristo dissera "não temas o que tens de sofrer", e ele não temeu. "Sê fiel até à morte", e ele foi, literalmente. O Martírio diz que ele recebeu "a coroa da incorruptibilidade" (17.1; 19.2): não cita Apocalipse 2:10, mas usa uma imagem parecida com a da promessa "dar-te-ei a coroa da vida".

Indicação de leitura

Contra as Heresias: Irineu de Lião (c. 180 d.C., Ed. Paulus, Coleção Patrística). Irineu ouviu Policarpo pregar quando era jovem, e, segundo o próprio Irineu, Policarpo tinha convivido com o apóstolo João, o autor do Apocalipse. Ou seja: nesse livro você lê alguém que está a apenas duas pessoas de distância de João.

A obra foi escrita para defender a fé contra o gnosticismo: grupos que diziam ter "revelações secretas" e negavam que Cristo veio em carne. Ao refutá-los, Irineu registra memórias preciosas: como Policarpo ensinava, o que a igreja das primeiras gerações cria sobre as Escrituras, e a corrente viva que liga os apóstolos às igrejas, inclusive estas sete.

Por que ler junto com as 7 igrejas? Porque ele mostra que as cartas do Apocalipse não caíram no vazio: geraram discípulos reais, que guardaram a fé "até a morte", exatamente como Jesus pediu a Esmirna. Conheça a história completa de Policarpo e Irineu (interativa) → · Livros indicados →

Investigação paralela

O caso dos nicolaítas

A carta vizinha, a Pérgamo (2:14-15), cita Balaão e os nicolaítas lado a lado. A Bíblia fala pouquíssimo deles, só dois versículos, então quase tudo é reconstrução. Vamos pôr as pistas na mesa e tirar a conclusão.

Dois grupos, ou um só? O texto diz: "tens os que sustentam a doutrina de Balaão… do mesmo modo, tu também tens os que sustentam a dos nicolaítas." Há quem leia isso como uma equação: nicolaítas = uma "duplicação" de Balaão. Mas o "também" puxa para o outro lado: parece listar dois grupos distintos, que caem no mesmo tipo de pecado (compromisso com o paganismo: comer de ídolos e imoralidade). "Do mesmo modo" descreve o tipo de erro, não funde os grupos: por isso o texto não precisa repetir a descrição inteira. São dois grupos, um só gênero de pecado.

De onde vem o nome? "Nicolau" é grego: níke (vitória) + laós (povo). A Escritura menciona um Nicolau: o diácono de Atos 6:5, "prosélito de Antioquia" (um gentio convertido). A própria forma da palavra "nicolaítas" (= "os seguidores de Nicolau") aponta para um fundador com esse nome. Irineu liga o nome a esse diácono; outros duvidam dessa ligação. Como veremos, as leituras ficam lado a lado.

A palavra, peça por peça

Νικολαϊτῶν · nicolaítas
νικ- vencer / vitória
λαός povo
-ΐτης "seguidores de"

Ao pé da letra: "os do grupo de Nicolau". O sufixo é o mesmo de "israel-ita", "levi-ta".

בִּלְעָם · Balaão
baʿal-ʿam "senhor do povo"
belaʿ-ʿam "devorador do povo"

Nome hebraico ambíguo (o hebraico antigo não escrevia vogais), com leituras diferentes. O que os dois nomes têm em comum, de firme, é a palavra "povo": o resto é, em boa parte, trocadilho teológico, não etimologia exata.

As duas testemunhas antigas

Os dois primeiros a falar dos nicolaítas chegam a veredictos opostos sobre o diácono, e, olhando de perto, eles se completam em parte. Mas nem todos os antigos pensavam como Clemente: Hipólito de Roma, por volta do ano 225, diz que o próprio Nicolau se desviou (Refutação de Todas as Heresias, livro 7), e Epifânio, por volta de 375, também o acusa (Panarion 25). Os antigos se dividiram sobre o Nicolau pessoa. Toque numa carta para virá-la.

Acusa o diácono

Irineu de Lyon

nasceu entre 120 e 140 d.C. (estimativa) · o mais antigo
  • Passou a infância na Ásia, onde ouviu Policarpo pregar (carta a Florino, em Eusébio, História Eclesiástica 5.20.5-7); segundo ele, Policarpo tinha convivido com João.
  • Virou bispo de Lyon (França). Escreveu "Contra as Heresias" (~180).
  • Diz direto: o fundador é o diácono Nicolau, e o grupo era libertino.
Toque para virar

O peso do testemunho dele

Por estar tão perto da fonte (João → Policarpo → Irineu), é o argumento mais forte a favor de o nome vir do diácono.

Mas há um limite: nem mesmo Irineu cita a Bíblia para ligar o diácono à seita. Ele não diz de onde tirou a informação. Pode ser dedução pelo nome. Por isso é indício forte, não prova bíblica.

Defende o diácono

Clemente de Alexandria

~150-215 d.C. · veio depois
  • Mestre em Alexandria, o grande centro intelectual do Império. Também era um convertido vindo do paganismo.
  • Condenava o grupo (libertino), mas inocentava o homem.
  • Diz que a frase de Nicolau sobre "maltratar a carne" (dominar os desejos) foi distorcida pela seita.
Toque para virar

Como guardar quem é quem

Um gancho simples: Clemente teve clemência com Nicolau. Mesmo som, mesma ideia: Clemente defende; logo, Irineu acusa.

Os dois não se contradizem: Irineu dá o quadro de fora (existe a seita, ligada ao nome); Clemente preenche por dentro (como um nome bom foi parar numa seita má). Hipólito e Epifânio, depois, ficam do lado da acusação.

As conclusões deste estudo

Tudo isto foi montado pela mesma régua: pesar cada pista, separar o que o texto afirma do que a tradição acrescenta, e só então concluir. Aqui está onde o estudo chegou.

Balaão e nicolaítas são dois grupos

Não uma "duplicação". O "também" (v.15) lista dois grupos distintos, e "do mesmo modo" diz que o tipo de pecado é o mesmo, não que os grupos sejam idênticos.

De onde vem o nome

Irineu, por volta de 180, liga o grupo ao diácono de Atos 6:5, sem dizer de onde tirou isso. Clemente defende o diácono; Hipólito e Epifânio o acusam. O estudioso McGiffert (1890) achava que Irineu provavelmente tirou o grupo do próprio Apocalipse. As leituras ficam lado a lado.

"Dez dias" pode ser literal

O sentido natural ("um tempo curto e real de perseguição") nasce de dentro do texto. Transformá-los em "dez anos" exige uma fórmula (dia = ano) que não está em Apocalipse 2:10: é camada acrescentada.

As duas camadas convivem

As sete igrejas eram reais e simultâneas, e, além disso, há quem leia que Deus as escolheu para também espelharem, em ordem, a história da Igreja. As duas leituras ficam lado a lado.

A régua de leitura: em cada ponto, perguntar: isto o texto afirma, ou é uma identificação que estou acrescentando? Dá para abraçar a leitura profética e continuar criteriosa, pesando peça por peça. As duas coisas convivem.

Para levar à oração

Perguntas para fechar

1. Fidelidade

Que área da minha vida precisa permanecer firme mesmo sob pressão, sem negociar o que creio para evitar custo?

2. Riqueza

Onde estou medindo riqueza pelos olhos do mundo, quando diante de Deus o que conta é outra coisa?

3. Medo

O que eu mais temo? Como muda esse medo saber que Cristo "esteve morto e tornou a viver"?

A Esmirna que sofria era a mesma que Cristo chamou de rica. A morte que os perseguidores podiam causar era a que não conta. E o bispo daquela cidade viveu, palavra por palavra, o "sê fiel até à morte".

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