Em Apocalipse 2:13 Jesus diz que Pérgamo é o lugar "onde está o trono de Satanás", e a Bíblia não identifica esse trono com nenhuma construção. Existem três explicações propostas, e o texto não decide entre elas: o Grande Altar de Pérgamo, a densidade de cultos pagãos da cidade, e o culto imperial ligado a Roma.
Quem defende a terceira lembra uma pista dentro do próprio livro: a palavra grega para trono em 2:13 é thrónos (θρόνος), a mesma de Apocalipse 13:2, onde o dragão entrega à besta "o seu poder, o seu trono e grande autoridade", e Apocalipse 12:9 identifica esse dragão como Satanás. Fora da Bíblia, o historiador romano Cássio Dião registra que em 29 a.C. a província da Ásia recebeu permissão para consagrar um recinto sagrado em Pérgamo.
No mesmo versículo Jesus nomeia um cristão morto ali: Antipas. A história do touro de bronze é tradição posterior, não Apocalipse.
A carta a Pérgamo começou com uma espada. Agora Jesus descreve o lugar, e usa a expressão mais pesada das sete cartas.
"Conheço o lugar em que habitas, onde está o trono de Satanás, e que conservas o meu nome e não negaste a minha fé, ainda nos dias de Antipas, minha testemunha, meu fiel, o qual foi morto entre vós, onde Satanás habita."
APOCALIPSE 2:13 · Almeida Revista e Atualizada"Conheço o lugar em que habitas": morar, não visitar
O verbo grego é katoikéō (κατοικέω): morar, ter residência fixa. Não é passar, visitar ou hospedar-se. Aqueles cristãos não estavam de passagem por Pérgamo: acordavam, trabalhavam, compravam, vendiam e criavam os filhos ali. E precisavam continuar seguindo Jesus ali.
E há um detalhe que quase nenhuma tradução deixa ver: o mesmo verbo aparece duas vezes no mesmo versículo. "Onde tu habitas" (κατοικεῖς) no começo, e "onde Satanás habita" (κατοικεῖ) no fim. Com a mesma palavra, Jesus diz que os dois moram no mesmo endereço.
Satanás aparece em quatro das sete cartas, mas o trono só em uma
Antes de discutir o que era o trono, vale um dado que se confere sem sair dos capítulos 2 e 3. Satanás não aparece só na carta de Pérgamo:
- Esmirna: "sinagoga de Satanás" (Ap 2:9)
- Pérgamo: "o trono de Satanás" e "onde Satanás habita" (Ap 2:13)
- Tiatira: "as principais coisas de Satanás", também traduzido "as profundezas de Satanás" (Ap 2:24)
- Filadélfia: "sinagoga de Satanás" (Ap 3:9)
Quatro cartas. Mas só numa delas ele tem um trono, e só numa delas o texto diz que ele habita. As duas menções estão no mesmo versículo.
Primeira explicação: o Grande Altar de Pérgamo
Na parte alta da cidade existia uma construção monumental: uma enorme plataforma com uma grande escadaria, cercada por um friso esculpido com a gigantomaquia, a batalha dos deuses contra os gigantes. Hoje o monumento está no Pergamonmuseum de Berlim. Ele foi construído no reinado de Eumenes II, na primeira metade do século II a.C. A data exata é discutida: há quem proponha por volta de 180 a.C., e há quem proponha entre 166 e 156 a.C. (Bernard Andreae, 2001). Foi escavado a partir de 1878 pela missão alemã de Carl Humann, e as placas do friso foram levadas para Berlim.
Ele é popularmente chamado de "altar de Zeus". Mas a inscrição que sobrou não traz o nome do deus. O Pergamonmuseum de Berlim o apresenta como dedicado a Zeus e Atena juntos.
Uma das leituras propostas é que era a esse altar que Jesus se referia. É uma possibilidade histórica interessante, e é só isso. O Apocalipse não diz.
Segunda explicação: a cidade inteira
Pérgamo era um centro religioso denso: cultos a Zeus, Atena e Dionísio, e um santuário famoso de Asclépio, ligado à cura: Filóstrato, no século 3, escreve que “toda a Ásia vai a Pérgamo” (Vida de Apolônio 4.34). Um cristão dali não precisava procurar a religião pagã: ela estava na paisagem, nas festas e nos espaços públicos.
Por isso alguns entendem que "trono de Satanás" não precisa apontar para um único prédio: pode descrever Pérgamo como um grande centro de idolatria.
Terceira explicação: Roma e o culto ao imperador
No mundo romano, religião e política não eram compartimentos separados. O poder do governante também podia receber honras religiosas, e nas províncias existiam templos, cultos e cerimônias ligados a Roma e ao imperador.
E Pérgamo tem um papel documentado nisso. Em 29 a.C., uns vinte e cinco anos antes de Jesus nascer, a província da Ásia recebeu permissão para consagrar um recinto sagrado na cidade. Quem registra é o historiador romano Cássio Dião, na História Romana, livro 51:
"Ele ordenou que os romanos residentes nessas cidades prestassem honra a essas duas divindades; mas permitiu aos estrangeiros, a quem chamava helenos, que consagrassem recintos sagrados a ele próprio: os da Ásia em Pérgamo e os da Bitínia em Nicomédia."
CÁSSIO DIÃO · HISTÓRIA ROMANA 51.20.6-9Um detalhe: em 29 a.C. ele ainda se chamava Otaviano. O título Augusto só veio dois anos depois, em 27 a.C. Mas o culto de Pérgamo ficou historicamente conhecido pelo nome dele.
Outro historiador romano, Tácito, confirma o mesmo templo. Ele conta que, no ano 25 d.C., o imperador Tibério lembrou ao senado que o divino Augusto não tinha proibido um templo em Pérgamo a ele mesmo e à cidade de Roma (Tácito, Anais 4.37). E no ano 26, quando onze cidades da Ásia disputaram o direito de fazer um templo novo a Tibério, Pérgamo foi deixada de fora justamente porque já tinha o templo de Augusto (Tácito, Anais 4.55 e 4.56).
Quando João escreve o Apocalipse, no fim do primeiro século (Ireneu de Lyon, por volta do ano 180, diz que a visão foi vista no fim do reinado de Domiciano, Contra as Heresias 5.30.3), Pérgamo já carregava mais de cem anos de ligação oficial entre religião, política e lealdade a Roma. Não é uma teoria montada depois para explicar o versículo: é um dado registrado muito antes de o Apocalipse existir.
A pista que vem de dentro do próprio livro
As duas primeiras explicações vêm da arqueologia e da história da cidade. Quem defende a terceira aponta uma pista no próprio Apocalipse.
Em 2:13 a palavra é θρόνος (thrónos). Onze capítulos depois:
"…e o dragão deu-lhe o seu poder, e o seu trono, e grande autoridade."
APOCALIPSE 13:2 · Almeida Revista e AtualizadaNo grego é a mesma palavra: a ligação não depende da tradução em português. E quem é o dragão o próprio livro já respondeu um capítulo antes: "o grande dragão, a antiga serpente, que se chama diabo e Satanás" (Ap 12:9).
Nessa leitura, o caminho é este: 2:13: Satanás tem um trono; 12:9: o dragão é Satanás; 13:2: esse dragão entrega o seu trono a uma potência que exerce grande autoridade. Trono é imagem de governo, autoridade e domínio.
Mesmo assim, o limite continua. O texto não identifica o trono com nenhuma construção específica, e este artigo não vai fazer isso por ele. Talvez a pergunta mais útil não seja "qual prédio era o trono de Satanás", e sim: o que estava acontecendo em Pérgamo para Jesus dizer que Satanás tinha um trono ali?
"Satanás tinha um trono ali. Mas Jesus ainda tinha uma igreja ali."
Dizer que Pérgamo era o lugar do trono de Satanás não significa que todo morador da cidade adorasse Satanás, e essa leitura torta faz estrago. O que vem logo em seguida é o contraste que sustenta o versículo: "conservas o meu nome e não negaste a minha fé".
Repare no que Jesus não faz: Ele não elogia uma igreja que fugiu de Pérgamo. Elogia uma igreja que permaneceu fiel em Pérgamo.
Quem foi Antipas?
Nesta carta Jesus faz uma coisa que não faz em nenhuma das outras seis: escreve o nome de um cristão daquela época para elogiá-lo.
O que o texto bíblico afirma sobre Antipas é pouco e é preciso: ele era seguidor de Jesus, estava ligado à comunidade de Pérgamo, permaneceu fiel e foi morto ali. O texto não diz a profissão, não diz a idade, não diz se era líder da igreja e não explica como ele morreu.
Talvez você já tenha ouvido que Antipas teria sido colocado dentro de uma estrutura de bronze em forma de touro, aquecida pelo fogo. Essa história não está no Apocalipse. Ela aparece em relatos cristãos muito posteriores, como os sinaxários bizantinos (livros com a vida dos santos lidos no culto), que lembram Antipas no dia 11 de abril e contam que ele foi morto dentro de um touro de bronze aquecido. São textos de muitos séculos depois do versículo.
Isso não quer dizer que a tradição seja necessariamente falsa. Quer dizer que ela é tradição posterior, e que ninguém deve contá-la como se João tivesse escrito.
"Minha testemunha, meu fiel": o eco de Apocalipse 1:5
No grego, Jesus é ho mártys ho pistós (ὁ μάρτυς ὁ πιστός), "a testemunha, a fiel", em Apocalipse 1:5. E Antipas é ho mártys mou ho pistós mou (ὁ μάρτυς μου ὁ πιστός μου), "a minha testemunha, o meu fiel".
Não é uma frase idêntica: são as mesmas duas palavras, com "meu" acrescentado. Mas a semelhança é grande demais para ser acaso: um homem que permaneceu fiel até a morte recebe de Jesus uma descrição feita das mesmas palavras que o livro usa para o próprio Cristo.
Mártys quer dizer testemunha, a mesma palavra que se usaria num tribunal; dela vem a nossa palavra "mártir". O sentido técnico que usamos hoje só se firma nos séculos seguintes, e casos como o de Antipas, em que testemunhar e morrer se tornam a mesma coisa, estão na origem dessa mudança.
Para Roma, Antipas talvez fosse um homem sem importância. Mas Jesus não diz "um cristão foi morto em Pérgamo": diz "Antipas". Quase dois mil anos depois, o nome desse homem continua sendo lido porque Jesus fez questão de colocá-lo na carta.
Perguntas frequentes
Onde ficava o “trono de Satanás” de Apocalipse 2:13?
A Bíblia não identifica o trono de Satanás com nenhuma construção: ela apenas diz que Pérgamo era o lugar “onde está o trono de Satanás”. Existem três explicações propostas: o Grande Altar de Pérgamo, a densidade de cultos pagãos da cidade e o culto imperial ligado a Roma. Nenhuma delas é afirmada pelo texto, e o texto não decide entre elas. Quem defende a terceira lembra que a palavra trono de 2:13 é a mesma de 13:2.
O trono de Satanás era o altar de Zeus em Pérgamo?
É uma das interpretações mais conhecidas, mas o Apocalipse não diz isso. O Grande Altar de Pérgamo foi erguido no reinado de Eumenes II, na primeira metade do século II a.C. (a data exata é discutida), e é cercado por um friso com a gigantomaquia: a batalha dos deuses contra os gigantes. A inscrição que sobrou não traz o nome do deus; o Pergamonmuseum de Berlim o apresenta como dedicado a Zeus e Atena juntos. Que ele fosse o “trono de Satanás” é proposta de intérpretes, não afirmação bíblica.
O que Cássio Dião registra sobre Pérgamo?
Na História Romana, livro 51, seções 20.6-9, Cássio Dião conta que em 29 a.C. os romanos residentes em Éfeso e Niceia foram autorizados a honrar Roma e o divinizado Júlio César, e que aos gregos foi permitido consagrar recintos sagrados ao próprio governante: os da província da Ásia em Pérgamo e os da Bitínia em Nicomédia. Naquele momento ele ainda se chamava Otaviano; o título Augusto só veio em 27 a.C.
Trono em Apocalipse 2:13 e em Apocalipse 13:2 é a mesma palavra no grego?
Sim. Nos dois lugares o grego traz θρόνος (thrónos). Em 2:13 é “o trono de Satanás”; em 13:2, o dragão entrega à besta “o seu poder, o seu trono e grande autoridade”. E Apocalipse 12:9 identifica o dragão como o diabo e Satanás. A ligação, portanto, não depende da tradução em português: ela está no próprio texto grego.
Em quantas das sete cartas Satanás aparece?
Em quatro das sete: Esmirna (“sinagoga de Satanás”, Ap 2:9), Pérgamo (“o trono de Satanás” e “onde Satanás habita”, Ap 2:13), Tiatira (“as principais coisas de Satanás”, Ap 2:24) e Filadélfia (“sinagoga de Satanás”, Ap 3:9). Mas só na carta a Pérgamo ele tem um trono, e só ali o texto diz que ele habita: as duas menções no mesmo versículo.
Quem foi Antipas em Apocalipse 2:13?
O que o texto bíblico afirma é curto: Antipas era seguidor de Jesus, estava ligado à comunidade de Pérgamo, permaneceu fiel e foi morto ali. O Apocalipse não diz a profissão dele, não diz a idade, não diz se era líder da igreja e não explica como ele morreu. Jesus o chama de “minha testemunha, meu fiel”.
Antipas foi morto dentro de um touro de bronze?
Essa história não está no Apocalipse. Ela aparece em relatos cristãos muito posteriores, como os sinaxários bizantinos (livros com a vida dos santos lidos no culto), que lembram Antipas no dia 11 de abril e contam que ele foi morto dentro de um touro de bronze aquecido. São textos de muitos séculos depois do versículo. Isso não prova que a tradição seja falsa, mas ela é tradição posterior e não deve ser contada como se João tivesse escrito.
Por que Jesus chama Antipas de “minha testemunha, meu fiel”?
Porque são quase as mesmas palavras que o próprio livro usa para Cristo. Em Apocalipse 1:5, Jesus é ὁ μάρτυς ὁ πιστός (ho mártys ho pistós), “a fiel testemunha”. Em 2:13, Antipas é ὁ μάρτυς μου ὁ πιστός μου (ho mártys mou ho pistós mou), “a minha testemunha, o meu fiel”. Não é uma frase idêntica, mas são as mesmas duas palavras com o acréscimo de “meu”.
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